17 de maio de 2007

Os madihá do Alto Purus


Em agosto de 1991, a convite do antropólogo Marcos Chaar, viajei pela primeira vez à Área Indígena Alto Purus, para ser assistente de direção do vídeo-documentário "Terras Não-Descobertas", que buscava resgatar a memória de conflitos armados que houveram entre brasileiros e peruanos naquela região de fronteira no começo do século 20. Como na Amazônia essa é a época do chamado "verão", pois não chove muito e o rio fica raso, foi uma longa viagem de barco do município acreano de Sena Madureira até a fronteira peruana. Nesse tempo ainda não havia sido criado o município de Santa Rosa do Purus, que fica bem na divisa, então no lado peruano pernoitamos no seringal chamado Shamboyaco, onde um ano depois eu estaria de volta participando com os amigos kaxinawás do plebiscito que foi o instrumento político para criação do novo município. Lá no Shamboyaco conhecemos alguns madihá (em espanhol se escreve "madija", que é como os membros dessa tribo do grupo arawak se chamam, mas são mais conhecidos como "kulina"), que estavam em uma expedição de caça. À beira da fogueira noturna, compartilhamos com eles um pouco da ayahuasca que havíamos trazido conosco para a viagem, e no amanhecer do dia seguinte gravei uma entrevista em cassete com o cacique Kakudá, da aldeia San Bernardo, que nos documentou com alguns cânticos de sua cultura, e o leitor interessado poderá escutar fazendo o download a partir de aqui.

As primeiras informações sobre os madihás os descreviam como uma sociedade guerreira de agricultores e caçadores que habitavam os rios Juruá e Purus, e que atacavam frequentemente a seus vizinhos. Em 1869, o explorador inglês Chandless fez uma breve resenha deste grupo. Posteriormente, o sacerdote francês Constantin Tastevin, que explorou a região entre 1908 e 1914 com fins missionários, os encontrou na área do rio Xirúa e na do Tarauacá, afluentes do Juruá no Brasil. Foi apenas a partir de 1890, que se deu início à exploração intensiva dos recursos desta zona com o "boom" do caucho, estabelecendo daí os madihás relações permanentes com os patrões dedicados a esta atividade.

Este grupo foi severamente afetado pelo auge do corte de caucho, que provocou um forte processo de redução demográfica. Adicionalmente, uma epidemia de sarampo causou um alto nível de mortes na população madihá (Wise y Ribeiro, 1978). Depois deste período, os madihás se internaram novamente na mata levando uma vida seminômade e evitando contato com os brancos. Em 1940, se instalaram na área do Alto Purús, adotando elementos da cultura material das populações ribeirinhas, tal como a canoa e a rede de pesca. Em 1954, os missionários do Instituto Lingüístico de Verão (ILV ou em inglês SIL) se estabeleceram no lugar denominado Shamboyaco, nas proximidades do rio Purus, e depois de um tempo se mudaram com a população madihá - lá congregada - ao lugar chamado "Aldeia San Bernardo".

Os madihás praticam a horticultura de roça e coivara, a caça e a pesca. Os principais produtos cultivados são a banana, a macaxeira, o milho, o amendoim, o mamão, a melancia, a abóbora, o arroz e a cana de açúcar. A caça tem uma importância considerável na subsistência deste grupo. A pesca se realiza tanto de modo individual como coletivo. De maneira crescente, vêm criando aves de curral para a venda e o consumo, e também jabotis. Também vendem farinha de macaxeira e às vezes carne de caça. Produzem madeira sob encomenda de certos patrões: muitas destas transações são realizadas com comerciantes brasileiros apesar de que também fazem comércio com peruanos assentados em Puerto Esperanza, que é a cidade pertencente ao "Departamiento de Alto Purus" que se vincula por avião com Pucallpa, capital do estado peruano de Ucayali.

Domingos Bueno da Silva escreve sobre os madihás que, no Brasil, apenas em 1984, aliados aos Kaxinawá, realizaram a auto-demarcação da Terra Indígena Alto Purus, que foi seguida de sua interdição pela FUNAI em 31/07/1987 para estudo e definição, sendo a demarcação oficial da datada de 05 de Janeiro de 1996. Os Kulina, historicamente, assim como outras etnias, sobreviveram entre grupos hostis, fazendo da guerra a seus inimigos uma constante, mantendo ainda hoje relações jocosas com grupos da região, inclusive com seus vizinhos Kaxinawá, tratando-se essa aliança temporária uma estratégia diplomática pontual e necessária com o antigo rival. Hoje kaxinawás e madihás compartilham aquela que é a maior área indígena em extensão do estado do Acre, e considero interessante a esse respeito conhecer o depoimento de Pancho Kaxinawá publicado na coluna Papo de Índio quando de seu falecimento em 2006.

É forte a presença de missionários evangélicos sobretudo no lado peruano da fronteira, ou entre aqueles habitantes da Área Alto Purus que migraram do Peru. O secretário-executivo da CETELA (Comunidade de Educação Teológica e Ecumênica Latino-Americana e Caribenha), o luterano Roberto Zwetsch, demonstra uma visão bem equilibrada do contato intercultural que vivenciou entre os madihá, como lemos em seu artigo "Saúde Holística e Métodos Indígenas de Cura em Perspectiva Teológica", que se pode acessar na revista que edito, a "Arca da União". Outros missionários estranham mais as práticas dos madihá, como aspirar rapé pela garganta, ou as sessões de ayahuasca, como lemos nesse depoimento de Kelvin Souza do qual reproduzo um trecho significativo que me deixa a pensar até que ponto a chamada civilização ocidental possui parâmetros adequados para o contato intercultural com os povos ameríndios:

Conheci, também, um pouco mais da religião nativa, o xamanismo. Fui juntamente com Melsi, uma missionária peruana que fez escola de Treinamento e Discipulado (ETED) na Jocum da Bolívia e que estava acompanhando Cindy e Santiago nesse tempo na aldeia, assistir a um dos rituais dessa religião. As cerimônias do xamanismo são freqüentes e quando acontecem contam com a presença de pelo menos um pajé e da maioria das mulheres da aldeia, que se põem a andar de mãos dadas e a repetir as frases que o pajé canta. Quando nos aproximamos de onde o ritual estava acontecendo, as mulheres fizeram uma pausa. Vimos o pajé vestido com folhas de palmeira de Buriti e vomitando. Foi uma visão assustadora. As mulheres queriam que Melsi participasse do ritual, não entendemos exatamente o que elas diziam, pois falavam na língua Madijá. Ficamos com medo e logo fomos embora.Sei que sentir medo não é exatamente a reação que um missionário deve ter nessas situações. Não admito isso com orgulho, mas sim como confissão de um pecado: a covardia. A Bíblia diz para confessarmos nossos pecados uns para os outros e para orarmos uns pelos outros para que haja cura (Tg 5:16) Fiquei impressionado em ver como o xamanismo está entranhado na cultura desse povo. Em San Bernardo, é comum uma pessoa freqüentar a igreja cristã e também se valer dos serviços do pajé. Infelizmente, o cristianismo tem chegado aos Madijá com um baixo nível de contextualização cultural, o que faz com que ele seja visto como uma religião estrangeira. Mas não é hora de procurarmos culpados, precisamos orar para que esse povo tenha revelações de Deus através da sua cultura.

Um comentário:

JTA disse...

Amigo Eduardo... parabéns pelo trabalho no blog que é atualmente uma das melhores referências no Brasil da cultura indígena... como sempre, quando se dedicas a um trabalho, o faz com o maior esmero e competência... um abraço de seus amigos aqui de RO...