2 de maio de 2007

consciência aberta mas vigilante

G-Ne-Ga, chefe da tribo Omega, veste traje cerimonial nesta foto de 1868.
Foto por William Henry Jackson

Foi em Cusco, no Peru, que me ensinaram assim: ao dar a mão para cumprimentar um desconhecido, tapar sempre com a mão oposta o local do umbigo, para preservar a própria energia de ser roubada pela pessoa que o interpela.

Enxergar como as energias das pessoas interatuam é coisa que só uma sensibilidade refinada como a dos antigos amautas (sábios do mundo andino) possuía dedicação de estudar. E mais que isso, também como as energias de todos os seres vivos deste planeta se inter-relacionam entre si, sob a harmonia das forças cósmicas. Entretanto, buscar expressar tais coisas a uma pessoa cujo desenvolvimento se deu na concretude das grandes cidades é tarefa ingrata, a não ser que se possa proporcionar a ela uma experiência de mudança de paradigmas no contato com uma outra realidade de modo de convivência ambiental.

Essa busca surge espontaneamente na vida de algumas pessoas de mentalidade mais aberta - aqueles que definíamos como "cosmopolitas", afinal, parecem hoje ter muito mais um modo de ser voltado para dentro (enxergando apenas para dentro da realidade urbana, o que definiríamos como "ser urbanóide") que um modo de ser voltado para fora (buscando enxergar além dos horizontes padronizados, o que atende melhor à real origem da palavra "cosmopolita": ser um habitante do Cosmo). E nessa civilização disfuncional em que vivemos, é prudente que as pessoas mais sensíveis busquem contrabalançar sua vivência urbana com convivências mais próximas a ambientes naturais.

Não nos esqueçamos que, na luta evolucionária das espécies, os sobreviventes sempre são os indivíduos mais versáteis.

Essas experiências de interação com culturas diferentes, entretanto, sempre têm implicado em inúmeros desafios para encontrar um diálogo eficaz. Recordo experiências pessoais de "imersão" em comunidades nativas. Enquanto eu pude ser visto e entendido como indivíduo receptivo ao aprendizado (e leitura interna) da cultura local, foi gratificante: e sei que isso se deu reciprocamente, porque houve diálogo intercultural. A partir do momento em que outros indivíduos a mim assemelhados por caracteres físicos ou culturais entravam nesse jogo e corrompiam as bases de diálogo, eu passava a ser visto como parte de um outro grupo, entendido como cúmplice de padrões falsos de diálogo e terminava tendo prejudicados tanto o diálogo pessoal quanto a reciprocidade de afeto.

A lição que se repetiu, entretanto, certamente deve ser a lição que eu tinha por aprender.

Da última feita, viajei para a Área Indígena Alto Purus, nas proximidades da fronteira Brasil-Peru, para rever amigos que tinha feito catorze anos antes e me disponibilizar como assessor de projetos daquelas comunidades da nação hunikuin, já que me graduara academicamente em ciências florestais. À parte da difícil situação econômica e sanitária presenciada naquelas aldeias, que por estarem às margens de um rio que servia de via de trânsito fluvial para os moradores brancos ("cariús") do município da fronteira, Santa Rosa do Purus, padeciam de inúmeras mazelas, a convivência ia sendo conduzida em bom termo, sobretudo porque eu já era conhecido deles e de suas famílias. A chegada entretanto de um auto-intitulado xamã que eu conhecera meses antes no Maranhão com um trabalho de recuperação de drogados com o uso da bebida da aiauasca, e que me buscara através do filho do cacique que era estudante e representante político da área em Rio Branco, acarretou inúmeros transtornos. Amparado no conhecimento de alguma autoridade policial no Acre, mas pretensiosamente visando encomendar aos índios que preparassem aiauasca para ele segundo a sua própria receita, e não de acordo com o conhecimento tradicional e a cultura deles (que nem se interessava realmente em aprender), se valeu de promessas de um futuro apoio econômico às atividades culturais daquela aldeia para iludir algumas das lideranças com alguma propina oculta, de modo que eu próprio fui alijado das reuniões que eram realizadas para decidir a cooperação no preparo da bebida, e como mero espectador sequer tinha como alertá-los do rumo resultante daqueles "entendimentos". Acabei tendo que deixar a Área Indígena antes do previsto, como se estivesse desautorizado pela Funai (Fundação Nacional do Índio), o que não era realidade, e tive prejudicado meu próprio diálogo com esses hunikuins que considero como alguns de meus melhores amigos. No caso, creio ser impossível apontar culpados: nem os hunikuins, que facilitaram por interesse próprio o acesso do auto-intitulado xamã, nem o próprio, que por pretensão não compreendia como as energias e atitudes presentes no momento do preparo da bebida interfeririam no resultado obtido, nem eu próprio, que não soube como manejar a situação. O importante é que complicações desse tipo não se repitam.

Essa questão, portanto, de adequar um modo de ser visto e compreendido como indivíduo, e não como parte ou partícipe de um grupo, por parte de um grupo cultural que se entende e vê a si próprio mais em termos coletivos que individuais, é o grande desafio para quem, como eu, se aventura a descortinar novos horizontes para as relações humanas.

Vamos tratar ainda aqui nesse blog da questão da "alterofobia" das culturas (repudiar o outro e a outra cultura com temor ou desprezo). Por hoje eu gostaria apenas de mencionar que a atual legislação sobre a aiauasca no Brasil pode ser facilmente acessada em Ayahuasca Brasil , e que a mesma se contrapõe à propaganda e à comercialização dessa bebida de tradição indígena, mesmo por parte de pretensos institutos "xamânicos" que se digam registrados, e casos como estes e o citado de exploração da população indígena para a produção da aiauasca, embora de modo algum queiramos fomentar o denuncismo, precisam ser relatados escrevendo ao Ministério da Justiça pelo e-mail conad@planalto.gov.br. Lembremos ainda a situação de biopirataria vivida pelas populações tradicionais ameríndias: como Benki Ashaninka levantou o assunto no workshop internacional "Cultivando a Diversidade" em maio de 2002 em Rio Branco, Acre, : " ...isto mostra a falta de consciência e respeito para outras culturas." (leia a matéria aqui). Não apenas a biopirataria, mas também a exploração indevida de recursos florestais das populações tradicionais em forma de mercado negro e contrabando de enteógenos deverão ser discutidos futuramente aqui entre nós.

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