16 de maio de 2007

Palavras de efeito do Papa

A ministra para os Povos Indígenas da Venezuela, Nizia Maldonado, criticou a declaração que o papa Bento 16 fez, durante a visita ao Brasil, sobre a catequização dos povos indígenas da América Latina. Bento 16 afirmou, no último 13 de Maio, que a evangelização não foi imposta aos índios pelos conquistadores e não alienou os povos indígenas da região. "O anúncio de Jesus e de seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estrangeira", disse o papa, em Aparecida (SP). "A invasão imperial trouxe o maior genocídio da América Latina. Gostaria que um sacerdote saísse e dissesse que se envergonha ao ouvir que dizem que os povos indígenas estavam esperando a evangelização", rebateu a ministra, em entrevista a uma emissora estatal venezuela. Nizia Maldonado, que pertence a uma etnia da região amazônica, também questionou o fato de o Vaticano "não se pronunciar sobre o genocídio dos povos indígenas americanos".

O Diário de Sevilha assim aprofundou a notícia:

Por sua parte, no Brasil, responsáveis religiosos e especialistas de questões indígenas rechaçaram também as declarações de Bento 16, que no domingo negou que a religião católica houvesse sido imposta pelos conquistadores europeus aos povos americanos. Estou totalmente em desacordo com a avaliação do Papa. A evangelização foi uma imposição ambígua, violenta, um choque de culturas que causou um prejuízo total aos indígenas, disse a teóloga Cecilia Domevi, que participa como assessora de questões indígenas na V Celam. Para o historiador Waldir Rampinelli, da Universidade Federal de Santa Catarina, o Papa deveria ler Bartolomé de las Casas, padre dominicano espanhol que no século XVI denunciou as atrocidades cometidas pelos conquistadores de América, em nome da fé

Eis o que Txibae Ewororo, da Nação Bororo, fala da verdadeira visão de seu povo sobre a invasão européia: “Essa palavras vão contar para vocês a última parte do drama, que nós estamos vivendo, desde que os homens de outra raça, de outra cultura, de outro mundo, puseram os pés em nossas terras. O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do meu povo e os rios cresceram e o mar se tornou mais salgado porque as lágrimas da minha gente foram muitas".

Marlene Castro Ossami de Moura, em “Discriminação Estrutural, Institucional e Sistêmica: Povos Indígenas” (aqui em pdf) relata: Esta narração do índio Txibae Ewororo resume o que, de fato, representou a chegada dos colonizadores europeus a estas terras. Os europeus ao chegarem no Brasil eram portadores de um modelo de sociedade baseado na hierarquização de raças, algumas consideradas superiores e outras inferiores. Julgando-se portadores de uma superioridade técnica e cultural, os europeus passaram a repudiar e a subjugar os demais povos que não se enquadravam no seu modelo cultural: humanos/brancos, civilizados/europeus e cristãos/católicos. A partir desta referência, os índios foram considerados: animais/não-brancos, selvagens/bárbaros e pagãos/hereges. A colonização vai consolidando-se a partir desse sentimento de superioridade em relação, não só aos povos indígenas, mas a outros povos vistos como diferentes do padrão europeu. A ordem era domesticá-los, catequizá-los e civilizá-los. Um dos primeiros instrumentos eficazes para a transfiguração dos indígenas foi o projeto de catequese, discutido e elaborado ainda em Portugal, e executado no bojo do projeto colonial. Desta forma, as relações que foram estabelecidas entre europeus e indígenas - quer no âmbito político ou no religioso - foram baseadas nas relações de dominação-sujeição.

Ora, a escravidão dos índios vigorou em toda a América portuguesa até 1755, quando foi oficialmente abolida no Pará e no Maranhão pela Lei de 6 de junho daquele ano, cujos dispositivos foram ampliados para todo o Brasil pelo Alvará de 8 de maio de 1758. O Diretório dos Índios, do Marquês de Pombal (aqui em pdf) assim falava sobre as católicas razões de Portugal com relação ao controle dos ameríndios brasileiros:

Não se podendo negar, que os Índios deste Estado se conservaram até agora na mesma barbaridade, como se vivessem nos incultos Sertões, em que nasceram, praticando os péssimos, e abomináveis costumes do Paganismo, não só privados do verdadeiro conhecimento dos adoráveis mistérios da nossa Sagrada Religião, mas até das mesmas conveniências Temporais, que só se podem conseguir pelos meios da civilidade, da Cultura, e do Comércio: E sendo evidente, que as paternais providências do Nosso Augusto Soberano, se dirigem unicamente a cristianizar, e civilizar estes até agora infelizes, e miseráveis Povos, para que saindo da ignorância, e rusticidade, a que se acham reduzidos, possam ser úteis a si, aos moradores, e ao Estado: Estes dois virtuosos, e importantes fins, que sempre foi a heróica empresa do incomparável zelo dos nossos Católicos, e Fidelíssimos Monarcas, serão o principal objeto da reflexão, e cuidado dos Diretores.

A influência da “educação católica” foi até mais longe, como conta a Dra. Maria Azevedo: Você sabia que nossos índios não costumavam bater nos filhos? Segundo estudos, os índios brasileiros não costumavam castigar fisicamente os filhos. Foram os padres jesuítas e capuchinhos que introduziram o castigo físico como forma de disciplinar as crianças no Brasil. Ao longo de 5 séculos de nossa História, as crianças vêm sendo disciplinadas através de: SURRAS, PALMATÓRIAS, COCRES na cabeça, PUXÕES de orelha, PALMADAS.

E a barbárie no Brasil prosseguiu por muito tempo sem que a Igreja Católica saísse em defesa dos ameríndios, conforme descreveu Orlando Villas-Boas em entrevista ao Globo Rural no ano 2000: Não fosse Rondon, por certo ainda estaria existindo o "Serviço Nacional de Proteção aos Trabalhadores da Amazônia". Um serviço criado no fim do Império para apoiar e sustentar o balateiro, o seringueiro, o castanheiro e o aventureiro contra o índio, em plena fase da indústria extrativista. Calcula-se que desapareceram, nessa época, inúmeras nações indígenas, sem falar naquelas que se dispersaram e, assim desintegradas, perderam sua identidade tribal. Essa foi a herança que o velho SPI - Serviço de Proteção ao Índio, criado em 1910 e extinto em 1966, e a Funai - Fundação Nacional do Índio, nascida em 1966, receberam do passado. Castigo maior já haviam os índios sofrido com o "preamento e a tentativa do trabalho escravo".

No ano 2005, um artigo da agência oficial de notícias da Argentina sobre o festejo naquele país do 12 de outubro como “Dia da Raça” causou grande polêmica, apenas porque reconhecia que a conquista ibérica foi genocida, afirmando que "o poder na América começou a percorrer o caminho da aculturação, da evangelização, a destruição das economias autóctones, e tudo passou a ser domínio dos invasores", e que "as riquezas foram para a metrópole e os homens morreram aos montões, na dor diante de tanta barbárie, e nas doenças que chegaram da Europa". Mas porque tentar mascarar a verdade, para legar ao futuro uma história falseada, para que reste apenas uma versão “correta” de parte dos conquistadores? Enfim, ou o Papa é uma pessoa mal-informada, ou acaba de provar que não existe infalibilidade papal como rezam os dogmas da sua Santa Igreja. Palavras de efeito como as que buscou pronunciar podem muitas vezes surtir efeitos contrários!

7 comentários:

Anônimo disse...
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Eduardo Bayer Neto disse...

comentários anônimos não podem constar aqui, assim como expressões mais violentas pois temos que deter o círculo vicioso da violência: salve filhos de Gandhi!

Alessandro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alessandro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alessandro disse...

É um absurdo que sigamos tão cegos quanto ao nosso passado histórico. Que ainda hoje celebremos nosso "descobrimento", o início de nossa "civilização". Pobre nação essa, o Brasil, que segue a não revisar sua história que se põe já de modo bastante óbvio e triste.
Tenho um amigo inglês aqui em UK que defende o argumento que a colonização é benéfica ao colonizado ("levamos trens e desenvolvimentos à Índia!", diz o cara). Assim aprendem eles, e assim sempre nos ensinaram.
Belo texto, Eduardo!

Eduardo Bayer Neto disse...

NOTÍCIA DA BBC HOJE (23/05):
Mas, ao fazer um balanço da visita durante a tradicional audiência das quartas-feiras, Bento XVI, amenizou suas declarações. "Não podemos ignorar os sofrimentos e as injustiças impostas pelos colonizadores às populações indígenas, cujos direitos humanos e fundamentais foram freqüentemente ultrajados", disse. Enquanto se referia à evangelização no continente, Bento XVI classificou de "crimes injustificáveis", os excessos cometidos pelos colonizadores, e disse que estes já tinham sido condenados antes por missionários como Bartolomeu de las Casas e teólogos como Francisco de Vitória, da Universidade de Salamanca, na Espanha. Bento XVI lembrou que seus antecessores João Paulo II e Paulo VI tinham falado sobre a relação entre a fé e a cultura na América Latina em outras ocasiões. Ele voltou ao assunto, confirmando que não se pode ignorar as "sombras que acompanharam a evangelização do continente latino-americano".

ENFIM, SOUBE VOLTAR ATRÁS NA SUA DECLARAÇÃO INCONGRUENTE QUE PARA TODOS SOOU MUITO CARA-DE-PAU... "MENO MALE", NÉ, PASQUALOTTO, "MENO MALE"...

Kunti disse...

hola me gustaria saber por que te gusta ponre imagenes de las pleyades en tu blog, quiero ademas poder contactarte mi correo es: sadakiel@yahoo.es