10 de setembro de 2007

O martírio de Victor Jara

"Requiem para Victor Jara"
Wolfgang Mattheuer (1973)


A data de 11 de setembro de 1973 é uma mancha negra na história da democracia na América Latina. Marca o golpe de estado no Chile, no governo de coalizão socialista, Unidade Popular, de Salvador Allende. Os dias posteriores viriam a denunciar todo a truculência do ditador Pinochet que "assumiu" o governo de linha dura e mandou prender, torturar e até matar os simpatizantes do regime esquerdista. Todos eram detidos e levados para o Estádio Nacional de Santiago.

Durante o desenrolar do golpe militar chileno, o cantor, compositor e músico Victor Jara se encontrava junto com centenas de outros militantes de esquerda, na Escola Politécnica de Santiago, quando foi preso. Levado para o Estádio Nacional, foi identificado por um oficial do exército que, se dirigindo a ele, falou: "Ah ! você é o guitarrista famoso ? Então me acompanhe." Mandou que um soldado lhe trouxesse um facão e dirigindo-se para o lado onde se concentrava o maior número de prisioneiros, decepou as mãos de Victor Jara.

O artista caiu no chão, esvaindo-se em sangue. Em seguida, o militar começou a chutar o corpo de Victor Jara, ordenando que ele cantasse. Num ímpeto de desespero, o trovador chileno levantou-se e, como se estivesse regendo uma orquestra , começou a entoar uma de suas composições. A resistente atitude emocionou os milhares de prisioneiros políticos que o acompanharam cantando até que tombasse morto, no dia 16 de setembro de 1973.

No momento de sua morte, Victor Jara era um cantor muito popular em seu país, um modesto trabalhador da cultura e um entusiasta colaborador do governo de coalizão esquerdista Unidade Popular. Em 1970 apoiou a campanha eleitoral do socialista Salvador Allende e se tornou uma espécie de embaixador cultural do governo, realizando temporadas artísticas, divulgando a música do Chile, dentro e fora do país.

Victor Jara nasceu em 28 de setembro de 1932 e passou toda sua infância na localidade de Lonquén, próximo a Santiago. Esteve um ano num Seminário onde iniciou seu estudo do canto gregoriano, o qual aliou aos ensinamentos de violão, repassados por sua mãe. Depois participou do coro da Universidade do Chile e de grupos de música folclórica e teatro. Essas duas atividades, permitiram ao compositor se tornar diretor artístico do conjunto Quilapayún em 1966. No ano seguinte já registra seu primeiro disco individual.

Victor Jara compôs dezenas de grandes sucessos da música popular chilena, de profunda beleza poética, que cantam a natureza "Pimiento" e "El Arado" ; falam da paixão pela mulher amada, "Te Recuerdo Amanda" e "Quando Voy Al Trabajo" ou denunciam as injustiças sociais e lutas do povo contra a opressão ou da sua miltância de esquerda "La Toma de Marzo 1967", "Marcha De Los Pobladores", "Manifiesto" e "Plegaria A Un Lavrador", entre outras.

Juntou-se a inúmeros outros artistas de sua época, na defesa da democracia chilena, tornando-se conhecido em todo o mundo e principalmente nos países de língua espanhola, por suas composições comprometidas com as lutas dos excluídos. Victor Jara também teve a maestria de fazer parceria com o seu conterrâneo, e não menos combatente, o poeta Pablo Neruda. São deles as criações "Ya Parte El Galgo Terible" e "Aqui Me Quedo".

Durante a fase das músicas de protestos, entre outras, se tornaram mais conhecidas composições como "El Derecho De Vivir Em Paz", em homenagem ao povo vietnamita e "A Cuba" e "Zamba Del CHE", ambas em homenagem aos cubano e ao comandante de sua revolução.

Victor Jara em Machu Picchu

As últimas composições de Victor Jara foram gravadas pouco antes de sua morte e nem chegaram a ser editadas no Chile. Após seu trágico assassinato, sua mulher Joan Turner, conseguiu sair do país, levando consigo os acetatos com os originais desses registros, que foram lançados no México pela gravadora Discos Pueblo, num então elepê intitulado "Manifiesto". A última poesia que ele escreveu, já prisioneiro dos militares, também veio a público:

Somos cinco mil

en esta pequeña parte de la ciudad.

Somos cinco mil

¿cuantos seremos en total

en las ciudades y en todo el pais?

Sólo aquí,

diez mil manos que siembran y hacen andar las fabricas.

Cuanta humanidad

con hambre, frío, pánico, dolor,

presión moral, terror y locura.

Seis de los nuestros se perdieron en el espacio de las estrellas.

Un muerto,

un golpeado como jamás creíse podria golpear a un ser humano.

Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores

uno saltando al vacío,

otro golpeandose la cabeza contra el muro,

pero todos con la mirada fija de la muerte.

¡Qué espanto causa el rostro del fascismo!

Llevan a cabo sus planes con precisión artera

sin importarles nada.

La sangre para ellos son medallas.

La matanza es acto de heroísmo.

¿Es éste el mundo que creaste, Dios mio?

¿Para esto tus siete días de asombro y de trabajo?

En estas cuatro murallas sólo existen un número que no progresa,

que lentamente querrá más la muerte.

Pero de pronto me golpea la conciencia

y veo esta marea sin latido,

pero con el pulso de las maquinas y los militares mostrando su rostro de matrona

lleno de dulzura.

¿Y México, Cuba y el mundo?

¡Que griten esta ignominia!

Somos diez mil manos menos

que no producen.

¿Cuantos somos en toda la patria?

la sangre del compañero Presidente

golpea más fuerte que bombas y metrallas.

Asi golpeará nuestro puño nuevamente.

¡Canto qué mal me sales

cuando tengo que cantar espanto!

Espanto como el que vivo

como el que muero, espanto.

De verme entre tanto y tantos

momentos del infinito

en que el silencio y el grito

son las metas de este canto.

Lo que vi,

lo que he sentido y lo que siento

hará brotar el momento...


(Estadio de Chile, Septiembre de 1973)

Fonte: Nelson Augusto

As primeiras gravações em estúdio de Victor Jara, no ano de 1957, podem ser baixadas em mp3: trata-se do álbum do Conjunto Cuncumén (palavra de um idioma ameríndio que significa "murmuro d´água") da Série "El Folklore de Chile". "El Carmen" (Ñuble) é uma das faixas onde Victor Jara canta uma cantiga camponesa com seu violão contraposto.

Para baixar as mp3 desse disco histórico, clique aqui. Fonte: Moreno y el Disco Rayado.

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