22 de abril de 2007

O mito fundador da brasilidade

Começo por este quadro de Cândido Portinari, que é o mais belo de todos os já feitos sobre o tema: a tela "Descobrimento do Brasil", de 1956, tem 199x156 cm de tamanho e pertence ao Museu de Valores da Coleção do Banco Central do Brasil e está em Brasília. Reparem os detalhes da pintura corpórea dos personagens, e o menino que "antevê" ou "prevê" o que está por vir.

Eu na verdade nem estava pensando em começar um blog por esses dias, fui pesquisar araras vermelhas, achei os anzóis da Islândia, e bateu aquela vontade de expressar um pouco sobre meus valores culturais. Daí que é fácil começar um blog hoje em dia, difícil é encontrar um "fio da meada" para não ser só um diário-de-bordo. Acho que eu peguei a linha, e esse 22 de abril vem a calhar para eu expor aquilo que desde antes do Quinhentenário venho matutando.

Não, eu não aderi aos "500 Anos". Aquilo lá que houve em Porto Seguro, com os índios sendo não apenas maltratados, o que é usual, mas também agredidos, foi uma vergonha pra toda a nação. Meses atrás eu estive na Aldeia Fronteira dos hunikuins do Alto Purus e o cacique Mário Domingos assim como meu irmão Rantizal Oliveira me contaram dos percalces que passaram nos tais festejos orquestrados pelos políticos intelectuais. Houve bala de borracha e o cacete. Isso é que é a democracia brasileira! Ainda bem que ninguém na época usou o termo Quinhentenário, fui só eu mesmo: por isso me sinto à vontade de retomar o tema.

O mito fundador da brasilidade, no meu entendimento, é o avistamento do Monte Pascoal. É no momento em que gritam "Terra à vista", e o capitão diz terem chegado à Terra de Vera Cruz, que se funda o Brasil. Não é lá na Independência do 7 de setembro, como preferem os astrólogos. Estão certos talvez os historiadores que dizem que a História do Brasil começa só com o surgimento do Estado brasileiro: antes éramos apenas um território que não se caracterizava como um só país. Mas o Brasil assim chamado começou naquele abril de 1500 sim: foi o momento da fecundação, fecundação que não houve quando outras nações antes aqui vieram ou aqui passaram. O momento que deu origem ao Brasil foi aquele, relatado assim por Viotti:

'(...) por volta das 15:00, “horas de véspera”, um primeiro marujo pronuncia a famosa e esperada sentença: “terra à vista”. (...) No meio do alvoroço das comemorações, o capitão, de 32 anos, retira-se para o altar que havia mandado fazer em honra da imagem de Nossa Senhora da Esperança, que ele próprio escolhera como padroeira da viagem e, ajoelhado, reza!...
Segundo relata Pero Vaz de Caminha em sua carta, um dos poucos documentos que nos chegaram, “... houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo, e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual o monte alto o capitão pôs o nome de ‘O Monte Pascoal’ e à terra ‘A Terra de Vera Cruz’”.'

O momento do nomeamento é um momento espiritual forte, mas a visão do Monte Pascoal é o ponto-chave: o monte citado tem 586 metros de altura, e se destaca na paisagem ao redor que não alcança duzentos metros. Para as culturas ameríndias um lugar assim é caracteristicamente uma "huaca", pois um monte que pode ser circundado em toda a sua extensão é sempre um local sagrado, um local de adoração e de comunicação com o plano superior. Se não sabemos ao certo as tribos que viviam ali, nem sua forma de expressão religiosa, pois os pataxós foram "colocados" lá muito depois (vide a História dos Pataxós), o certo é que não foi um lugar qualquer aquele que os portugueses avistaram. O fato de terem passado quarenta dias navegando até o domingo de Páscoa (Pessach = Passagem) tinha a sua singularidade, e no momento de avistar a terra o capítão português chama o monte de Pascoal aludindo também a isso, à travessia do Mar Vermelho que dá origem à Páscoa judaica bem como aos quarenta anos em que os judeus vagaram pelo deserto até chegar à terra prometida.

Sobre a importância dos judeus na engenharia náutica portuguesa, assim escreve Marcelo Ghelman :
"Afigura-se, desse modo, evidente que, em grande parte, a cooperação científica dos judeus do século XV tornou possível as viagens transoceânicas e as descobertas realizadas pela frota lusitana. Mas, a contribuição judaica ao descobrimento de novas rotas e de novas terras para a coroa portuguesa não se limitou ao campo científico de feição preparatória, senão também se traduziu na participação direta das temerárias viagens, nas quais os judeus se revelaram de vital utilidade, graças inclusive ao conhecimento que tinham das línguas e costumes de vários países. Assim, também tomaram parte saliente na expedição que resultou no descobrimento do Brasil, pois que, na frota dirigida por Pedro Álvares Cabral, viajaram como conselheiros especialistas pelo menos dois judeus: Mestre João, médico particular do rei e astrônomo equipado com os instrumentos de Abraham Zacuto, e que tinha como incumbência realizar pesquisas astronômicas e geográficas; e Gaspar de Lemos, também conhecido como Gaspar da Gama e Gaspar das Índias, intérprete e comandante do navio que levava os mantimentos, e justamente considerado pelos historiadores como co-responsável pelo descobrimento do Brasil".

"Quanto à questão relativa à chegada à Terra de Vera Cruz, entendo não ter ocorrido "o acaso", de forma alguma. É enorme o número de evidências contraditórias. Não é possível ignorar que várias buscas já tivessem sido desencadeadas, tendo como alvo as terras do Sudoeste do "Novo Continente de Colombo". No meu entender, o argumento mais positivo de todos é que em nenhum trecho pertinente da Carta de Pero Vaz de Caminha há qualquer menção a "DESCOBRIMENTO", sempre figurando o termo "ACHAMENTO", que na época conceituava o fato de se encontrar / achar algo que estava sendo procurado". (Carlos Oliveira Fróes)


Enfim, ressalvando ainda a importância do 22 de Abril como mito fundador temos o fato de que nesse dia os portugueses viram a terra mas não desceram a ela. Portanto não se trata da data do desembarque dos portugueses, e sim da visão da terra prometida o que interessa, o que faz o mito, e o que funda realmente a idéia do Brasil. A Terra de Vera Cruz, a Ilha de Santa Cruz, o Brasil, nasceram na visão do Monte Pascoal:


Quarta-feira, 22 de abril de 1500 – No fim da tarde, a frota de Cabral avistou o cume do Monte Pascoal. Ao crepúsculo, a 24 quilômetros da praia e a uma profundidade de 34 metros, os navios lançaram âncoras.

Quinta-feira, 23 de abril de 1500 – Às dez horas da manhã, os navios ancoraram defronte da foz do rio Caí. Nicolau Coelho, veterano das Índias, foi até a praia, num bote, e lá fez o primeiro contato com 18 nativos.

Sexta-feira, 24 de abril de 1500 – Por conselho dos pilotos, a armada levantou âncora e partiu em busca de melhor porto. Encontraram-no seguro, 70 quilômetros mais ao norte. Ali, dois nativos subiram a bordo. Pouco falaram e logo dormiram no tombadilho da nave de Cabral.

Sábado, 25 de abril de 1500 – Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Pero Vaz de Caminha foram á praia e encontraram cerca de 200 indígenas. Houve troca de presentes de pouco valor.

Domingo, 26 de abril de 1500 – Frei Henrique, franciscano que seria inquisidor, rezou a primeira missa em solo brasileiro, na Coroa Vermelha. Houve grande confraternização entre nativos e estrangeiros ao longo de todo o domingo.

Segunda-feira, 27 de abril de 1500 – Diogo dias e dois degredados visitaram a aldeia dos tupininquins, erguida a uns dez quilômetros da praia. Não lhes foi permitido dormir lá.

Terça-feira, 28 de abril de 1500 – Os portugueses fizeram lenha, lavaram roupa e prepararam uma grande cruz.

Quarta-feira, 29 de abril de 1500 – Ao longo de todo dia, o navio dos mantimentos, que seria enviado de volta a Portugal, foi esvaziado de sua carga.

Quinta-feira, 30 de abril de 1500 – Cabral e os capitães desembarcaram. Na praia, havia uns 400 nativos, com os quais eles passaram o dia dançando e cantando.

Sexta-feira, 1º de maio de 1500 – A tripulação deixou os navios e seguiu procissão para o erguimento da cruz.

Sábado, 2 de maio de 1500 – A esquadra partiu para Calicute, o navio dos mantimentos foi para Portugal. Dois grumetes desertaram a nau capitânia. Na praia, aos prantos foram deixados dois degredados.

* * *

Um comentário:

Ana disse...

Existe na Coroa Vermelha um cidadão cujo nome não recordo que está finalizando uns escritos sobre as provas de a 1ª missa aquando da chegada dos portugueses se ter realizado não na Coroa Vermelha em si mas sim na sua Ilha em frente. Um assunto a apurar.
Quanto à chegada dos portugueses e desempenho dos Jesuítas no Brasil, recomendo vivamente o livro de Pedro Almeida Vieira, Editora D. Quixote - Lisboa, Portugal, " O Profeta do Castigo Divino" onde "desvela" a sua pesquisa na Torre do Tombo em Lisboa, em que mostra os Jesuítas a criarem uma "companhia " dentro da própria Companhia Jesuíta. Muitos caixotes vindos do Brasil e aportados em Portugal traziam escondidas pedars preciosas que eram extraidas à custa de trabalho indígena subjugados pelos próprios Jesuítas. Estes, lutavam debaixo dos panos contra o Estado Português quando este deu ordem (pelo Marquês dePombal)para não se escravizar índio. Foi uma luta para conseguir desmascarar os Jesuítas quando eram os proprios que falsamente escreviam comunicados para se acabar com a escravatura. O governador Mendonça Furtado acabou por fazer queixa deles quando não conseguiu dominar a situação. Foi depois disto que Marquês de Pombal mandou parar com o missionarismo Jesuíta no Brasil. Digo isto aqui para que justiça se faça a este homem.
O Padre mais envolvido no sistema escravagista do Brasil foi o Padre Malagrida. Podem pesquisar sobre ele e quase sempre vos aparecerá como um heroi religioso mas no fundo apenas fazia parte da facção dos queriam destruir o Marquês de Pombal para que o poder político voltasse de novo para a Nobreza parasitária do reino Português.

Acho que já me alonguei neste comentário mas sabem como é, umas coisas levam a outras etc etc.
Abraços a todos os irmãos brasileiros de minha parte deste lado do Atlantico.

Anabela Vieira Santos