7 de março de 2008

A Liberdade e o Pijcheo


"Pijcheo de la hoja de coca en la cosmo-convivencia andina y el ayni eco-biótico", por Simón Yampara H, Assesor de Gestao Cultural do Governo Municipal de El Alto - Bolívia.

A recomendaçao da ONU e do organismo JIFE, para que se proíba o "pijcheo" da folha de coca no Peru e Bolívia, nao apenas é preocupante, mas sobretudo atentatório, genocida e etnocidiário contra os povos do Tawantinsuyu e do continente Abya-yala. Nos faz lembrar as práticas da inquisiçao religiosa colonial, com pressupostos e valores jurídicos da invasao colonial, de domínio, controle espacial e dos povos, atualizada, “modernizada” no século XXI. Afinal, os direitos dos povos atávicos do Tawantinsuyu, do continente Abya-yala continuam encobertos pela invasao e o “descobrimento” da América. Por que? Por que a orientaçao da “geopolítica do conhecimento” e da “colonialidade do saber”, vêem como perigo o questionamento e despertar dos povos do Abya-yala sobre o exercício de seus direitos, com relaçao ao controle do território, dos recursos naturais e por consequência o negócio (mercado) dos recursos e do cultivo da riqueza no mundo e na regiao. Ou seja, a nova estratégia econômica de ordem alotrópica [como os sistemas de qhathus] destes países pela composiçao majoritária de povos “indígenas”, onde as folhas da coca e o pijchu/akulliku [nao mastigado] sao parte da cosmo-convivência andina destes povos e prática do ayni/reciprocidade da comunidade dos mundos eco-bióticos naturais que tem a ver com o paradigma de vida do suma–qamaña dos povos indígenas, que lamentavelmente pelo encobrimento histórico e a “cegueira cognitiva” dos cientistas do sistema, nao se entende nem se quer entender, mas que entretanto, rompe e prejudica a dinâmica projectiva do pachakuti destes povos. Melhor dizendo, continuar com a hegemonia, o domínio dos pressupostos jurídicos e valores da matriz civilizatório-cultural ocidental e a perpetuaçao do encobrimento dos valores e pressupostos jurídicos emergentes da matriz civilizatório-ancestral milenar, cujo celeiro está em tiwanaku e inkario.

A cosmo-convivência andina e o congraçamento de seus povos e destes com os diversos mundos da comunidade eco-biótica natural, tem que ver com o ayni/ reciprocidade emulativa das energias espirituais para a materialidade das coisas, na vida dos povos indígenas, onde os mestres yatiris, chamakanis, os kallawayas, sem o pijchu e as folhas da coca, nao poderao desenvolver suas atividades cotidianas que têm a ver com a saúde integral dos povos. Melhor dizendo a saúde físico-material e espiritual. E mais, nem a constituiçao dos novos casais–jaqicha- poderá se realizar entre as familias dos aymara-qhichwa. Da mesma maneira nao poderao fazer jornadas nem cultivos agropecuários, mineiros e as celebraçoes festivas que se fazem ao longo do calendário agropecuário, social e cultural do congraçamento eco-biótico destes povos. Quer dizer que nao apenas querem afetar a dimensao da espiritualidade da vida destes povos, mas também querem acabar fazendo um genocídio e etnocídio com a vida e a dinâmica destes povos. Parecem nao ter consciência humana apesar de apregoarem os direitos humanos universais, pois querem acabar com gentes que sim, geram valores cosmogônicos saludáveis para a humanidade e aportaram alimentos valiosos para a humanidade como as variedades de batatas, a quínua e nos últimos tempos com a fibra e a carne dos camêlidos/auquênidos andinos.

Agora sim cuidado com a produçao, o mercado da cocaína e as açoes do narcotráfico, onde apesar que as folhas da coca sao a matéria prima preferida, nao é única nem insubstituível, se esta é a preocupaçao. Naturalmente detrás disto está também um caudal considerável do movimento econômico-financeiro, até motivos políticos e de castas sociais familiares que abusam da pobreza material de setores dos povos indígenas, sob sistemas de colonialismo e práticas enredadas de corrupçao, muitas vezes com pretextos de controle desta produçao e programas de desenvolvimento alternativo que em mais de 30 anos com um orçamento consideravel, nao se vêem resultados favoráveis, menos cultivos realmente alternativos para substituir o cultivo das folhas de coca. Eles enquanto siga sendo altamente competitivo o cultivo das folhas de coca, no mercado aberto transnacional, e haja maior demanda de consumidores dos países chamados do primeiro mundo, continuarao a produçao da folha milenária. Isso por sua vez, tem a ver com a galopante desocupaçao e pobreza dos países como Peru e Bolívia.
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Entao isto da recomendaçao da ONU e JIFE, deve ser considerada como um alerta vermelho para os Estados andinos, que merece un tratamento urgente, se nao queremos perder a dignidad cosmo-convivência da cultura dos povos andinos e assim melhor pensar em uma estratégia de geraçao e reproduçao de valores cosmogônicos, de economia e dignidade dos povos quanto aos encontros intercivilizatórios no mundo, frente à globalizaçao do capitalismo e a consequência do aquecimento global do planeta. Nao vejamos a vida como pura expressao da materialidade e do circulante do capital das coisas. Isso é economicídio com açoes de politicídio, pois esta vai em matrimônio institucionalizado/interatuado com a dimensao da espiritualidade na vida dos povos andinos, cuja emulaçao e saúde dependem do uso das folhas de coca nas açoes celebratórias do pijcheo, que emula, regula as energias da vida.

Altu-Pata, 5/03/08

Fontes: Ukhamawa e Chirapaq.

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