5 de julho de 2007

pajelança poema show

A apresentação do indio Thini-á no Festival de Poesia do Circo Voador, no Rio de Janeiro, em 2005, foi impactante: 22 minutos de pura emoção. Na platéia, olhos lacrimejantes, num silêncio profundo, ouviram a mensagem de paz e energia dos ilustres e inusitados participantes.

A tribo Fulni-ô de Pernambuco (nômade e antropófaga nos primórdios) tem uma característica única entre os povos indígenas: até hoje, através de rituais fechados, mantém viva sua língua máter. trata-se de uma língua onomatopaica de sibilâncias delicadas, cheia de música e do que Ezra Pound chamava de "melopéias". Foi falando neste raríssimo e sobrevivo dialeto Gê, que os porta-vozes dos povos da floresta nos disseram poeticamente algumas pérolas, gravadas em digital-VT: (Fonte: Circo Voador)

"...na minha tribo, não acreditamos na igualdade entre as pessoas como fórmula para nos manter em paz. Lá nós ensinamos às gerações a aceitação das diferenças que nos tornam maravilhosos uns para os outros. Isso sim é a Paz para a minha tribo..."

"... quando branco me dizia que a felicidade não era eterna, mas feitas de momentos que devemos guardar na memória, eu não entendia nada. Na minha tribo, os mais velhos nos ensinavam a prestar atenção e cultivar momentos de tristeza, para que a felicidade de viver valesse a pena..."

"...não podemos ensinar ao branco como viver em paz com a natureza. Quem nos ensina isto é a própria natureza. O problema é que ela não usa palavras, mas o som das aves, do rio, do vento nas árvores. Quem tem prazer em viver sabe como escutar essa mensagem..."

"...minha mãe e meu pai faziam amor na minha frente. Nós não víamos o que voces, brancos, chamam de sexo naquele ato de amor. Para nós, aquilo era a preparação da criação do mundo, pois, entre nós, cada ser vivo que nasce, como a terra que nos dá o pão, recria o mundo com sua vida..."

"...estou muito feliz de estar aqui, com a oportunidade de falar minha língua como poesia. Ela é tudo que nos restou de bom e ela não deveria ser só nossa. Poderia ser de vocês também. Somos todos brasileiros e, para nós, desde que entramos em contato com o que os brancos chamavam de Brasil, ser brasileiro tornou-se muito importante para a tribo inteira. Apesar de estarmos sendo marginalizados, com problemas para manter viva nossa cultura ancestral, ser brasileiro é algo que nos dá muito orgulho e felicidade..."

No site EarthDance, Thini-á é homenageado como performático mestre de cerimônias, e se conta a sua história:

Thini-á é o seu nome. Fulni-ô, a sua tribo. Conforme os costumes da tribo Fulni-ô, no momento do nascimento, a mãe índia dá nome à criança segundo os acontecimentos à sua volta. Uma certa noite, nasceu um indiozinho, sua mãe, Thassi, olhou para o céu e viu que as estrelas eram muitas e, por isso, chamou-o de Thini-á, que significa "estrela".

Thini-á nasceu nas margens do Rio Ipanema, um afluente do Rio São Francisco, no Estado de Pernambuco, nos domínios da tribo Fulni-ô.

Fulni-ô significa "a gente que mora junto ao rio" e os índios dessa tribo falam a língua Yathê, do tronco Macro-Gê.

Thini-á, desde pequeno, foi um índio muito irrequieto e resistente às descaracterizações culturais e invasões que sua tribo vinha sofrendo. Por isso, com o intuito de ajudar o seu povo, foi com o apoio da Igreja, para Garanhuns (Pernambuco), aprender a língua portuguesa e estudar. Depois de terminar o primeiro grau, voltou à sua gente.

Com os conhecimentos que o estudo lhe proporcionou, foi para Brasília acompanhar de perto as ações da FUNAI e do Ministério da Justiça em relação às demarcações de suas terras. Desejoso de mais conhecimento para melhor ajudar o seu povo, ficou e terminou o segundo grau.

Interessado, surpreso e irritado com as distorções dos meios de comunicação a respeito da problemática indígena, foi para São Paulo, com o apoio do então Ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, para estudar na USP - Universidade de São Paulo, no curso de Cinema, Rádio e Televisão da ECA, a fim de absorver as técnicas e produzir documentários sobre a realidade indígena brasileira.

Thini-á fez muitas amizades por onde passou, envolveu-se com grupos de antropólogos, historiadores, educadores e outros que o incentivaram a divulgar as tradições e lutas indígenas de seu povo e de outros povos indígenas no país, que como os Fulniô, enfrentam o avanço da sociedade capitalista.

Os Fulniô, como muitos outros povos indígenas do Nordeste brasileiro, sofreram transformações que são decorrentes do dilema de quem tem um longo tempo de contato com a sociedade envolvente ("branca"). Mesmo assim conseguiram, apesar deste contato imposto, preservar sua sabedoria ancestral. Até porque não existe, nem jamais existiu, povo nativo no mundo que tenha vivido em absoluto isolamento cultural. Contudo, a opinião pública ainda está acostumada a operar com uma imagem de índio idealizada : este índio brasileiro ideal é sempre forte, alto, quase sem pelos e vivendo em "estado natural" na selva, que é sua origem e seu destino.

Thiniá incorpora a imagem do índio na cidade, funcionando como um mensageiro entre os anseios e curiosidades de seu povo ( que também quer saber um pouco mais sobre a cultura do "branco") e a necessidade de informação do povo da cidade sobre a sabedoria dos povos nativos em nosso planeta terra.



Sung in Fulni-Ô's mother-language (more than 700 years old - oral preserved), this ritualistic piece asks for peace and love for all human beings. It happenned as an extra-oficial overture to Poesia Voa Festival, version 2.0, a poetry festival associated with the Human Rights Agency (UNO). Performed at the International Human Rights Declaration Day.

Ler mais sobre os Fulni-ô em Healing Journeys.

3 comentários:

paco rakonti disse...

Aos que se interessarem em conhecer mais de perto o trabalho que Thini-á vem desenvolvendo nas escolas, convido a vistarem o site:

http://www.thiniafulnio.com.br

Ricardo Paes
ricpaes@gmail.com
Projeto Vivência Indígena nas Escolas
Cultura e Memória Fulni-ô

Ademario disse...

Poranga eté! Katu eté!*
Sou estudioso do idioma Tupi, ams, me rendo à beleza terra e céu do Yatê! Viva os povos indígenas! Viva quem apoia performances assim! Viva Thiago de Mello e Bete Mendes que estão nesta plateia de ilustres brasileiros!

Ademario Ribeiro
* Do Tupi antigo. Tenho várias performances poéticas em idiomas indígenas, predominados pelo Tupi. Poética Poranduba é uma delas e posso enviar por e-mail a possíveis interessad@s.

Ademario disse...

Ricardo, jáestou acessando o site sugerido. Vou manter contato com vocês.

Parabéns!!!

Ademario