11 de junho de 2009

Peles-Vermelhas

foto: Edward S. Curtis (1905)

"QUANDO LEIO sobre crimes e violências nos jornais, penso nos velhos índios sioux e cheyennes caçadores de búfalo, e na educação que dão aos filhos. O pele-vermelha, tal como o conheci, tinha muito que nos ensinar na arte de orientar os pequenos numa vida livre útil, e bem ajustada.

Eu cresci perto da região reservada aos sioux em Pine Ridge, Estado de Dakota do Sul. Meus pais se ocupavam com o amanho do solo. Sendo eu a mais velha dos seis filhos, era minha obrigação cuidar das crianças.

Certa manhã de verão, quando eu tinha oito anos, uma companheira de folguedos de um acampamento índio do outro lado da estrada bateu timidamente à porta da nossa cozinha.

—Sabe? Eu agora também tenho um irmão! disse ela, com os olhos negros fitos no bebê escarranchado no meu quadril. Acaba de nascer. Venha ver!
No interior escuro de uma velha e fumarenta barraca de lona, uma índia estava curvada sobre o recém-nascido que tinha no regaço. Entramos alvoroçadas, e com o barulho a carinha vermelho-parda enrugou-se toda. A mãe segurou delicadamente o narizinho entre o polegar e o indicador e, com a palma da mão na boca, fez parar o choro. Quando a criança começou a debater-se para respirar, a mãe afrouxou um pouco a pressão, mas só um pouco, e ao primeiro indício de mais choro ela tapou de novo a boca e o nariz da criança, enquanto trauteava baixinho uma "canção de crescimento" cheyenne, para tornar a criança direita de membros e forte de corpo e de ânimo.

Eu já sabia por que as minhas amiguinhas índias não faziam escarcéu quando se machucavam, apenas choramingavam baixo. Uma velha avó me havia dito que as mães. índias sempre abafavam o primeiro vagido do recém-nascido, e tantas vezes quantas achassem necessário. O intuito disso é ensinar a mais importante lição da velha sabedoria índia, a saber, que a ninguém é lícito pôr em perigo a vida do povo; nenhum grito deve guiar até à aldeia um inimigo emboscado ou deitar a perder uma caça que pode ser carne de inverno para toda a tribo.

Mas eu sabia também que nunca na vida daquele recém-nascido uma mão se ergueria para puni-lo. Sem nenhum castigo físico ele acompanharia as exigências do seu mundo em expansão. Recordo-me dos rostos severos dos sioux quando, num assomo de ira, meu pai nos batia. Esses índios ainda consideram os brancos um povo cruel, que trata os filhos como inimigos que precisam ser subornados, punidos ou mimados como frágeis brinquedos. Acreditam eles que as crianças assim tratadas crescerão dependentes e sujeitas a acessos de raiva incontida dentro do círculo familial, e jamais atingirão a maturidade, e chamam a atenção para a crescente rebeldia e violência dos nossos jovens, muitas vezes até com os seus maiores, coisa nunca ouvida entre os índios.

Os nossos vizinhos de pele acobreada evitavam qualquer excesso de proteção dos jovens, particularmente o favoritismo materno em relação ao filho mais velho. Segundo o costume, o filho mais velho ganhava um segundo pai, geralmente um homem que tivesse uma esposa afetuosa, em cujo lar o rapazinho passava grande parte do tempo e a quem podia tratar com menos cerimônia do que tratava sua mãe. Mais tarde, se o rapaz mostrava alguma inclinação especial, podia êle escolher ainda outro homem que fosse apto para orientá-lo nesses novos interesses. Noutro tempo seria um guerreiro, um caçador, um santo ou um artista. Agora seria um lavrador, um criador de gado, um mecânico.

Quando o indiozinho começava a engatinhar, ninguém lhe gritava— "Aí não!"—e o puxava para longe do vermelho sedutor da chama. "Com a queimadura é que se apren de que com fogo não se brinca." Quando o pequeno puxava a mão, choramingando, seus olhos irados não se dirigiam para qualquer adulto presente, mas para os lindos carvões, causa da sua dor. Êle poderia arrastar-se novamente para o lado da chama, porém mais devagar, cautelosamente, e não tardaria a aprender onde o calor começava a queimar.

Pela época em que o menino índio do outro lado da estrada fêz seis semanas, já sabia o que era a água.

—Ele precisa entrar no rio antes de se esquecer de nadar, disse-me a mãe.
Aquela mulher estava convencida de que essa habilidade era concedida igualmente aos filhos de todas as criaturas: ao cachorrinho, ao potro, ao büfalozinho, à criança. O menino nadava bem já antes de saber andar, não havendo assim perigo de deixá-lo brincar à margem dum rio de águas plácidas.

A atitude do jovem índio em relação às meninas firmava-se desde cedo. "Vê como o rapaz se porta com as mulheres de sua casa e saberás como o moço se portará com tua filha", dizia um velho ditado cheyenne. A familiaridade excessiva é combatida desde os tempos das barracas de pele, quando talvez sete ou mais viviam em torno do mesmo fogo no inverno. O pai ocupava o lugar de honra ao fundo, os moços e os meninos ficavam à sua esquerda, as mulheres e as meninas à direita, e a entrada era guardada por uma velha que via todos que entravam e saíam. Esse modo de vida exigia regras de conduta bem definidas para que houvesse ordem e paz durante os meses de reclusão no inverno.

Desde que nasce, o pequeno índio vê em toda a sua volta a religião de seu povo. Provavelmente os homens mais velhos da sua família ainda hoje oferecem a primeira baforada do cachimbo do conselho e o primeiro bocado de comida em cada refeição ao céu, à terra e aos quatro ventos, que formam juntos as Grandes Forças em que o homem e a natureza estão unidos em fraternidade. Com tal filosofia, nunca pode haver ódio, nem mesmo ódio a um inimigo. Durante os conflitos entre tribos, na era do búfalo, às vezes as prisioneiras de guerra tornavam-se esposas dos chefes e iam com seus maridos visitar a sua gente. Também homens e meninos aprisionados podiam ser recebidos na tribo. O irmão adotivo do índio Touro Sentado era prisioneiro de guerra e foi toda a sua vida respeitado pelos sioux.

Os índios acrecentaram muito desse conceito e dos rituais das Grandes Forças à sua idéia das crenças cristãs. Num domingo de manhã eu fui ao regato buscar água. Quando me agachei para mergulhar o balde na corrente, escutei cântico indígena e rumorejo de água abaixo de mim. Um jovem sioux, ajoelhado entre os salgueiros da margem, lavava uma camisa azul. Tirava-a da água e a erguia para o céu, depois baixava-a em todas direções, com o ritual com que é consagrado o cachimbo e a comida. Afastei-me dali silenciosamente, e horas depois o jovem passou a cavalo, trazendo no corpo a camisa azul lavada. Ergueu a mão com a palma para fora, saudando no velhíssimo gesto de amizade, a mão esquerda por ser a do lado do coração e por não ter derramado sangue humano. Ele ia à missa na missão—com uma camisa consagrada, segundo o velho ritual, às Forças do mundo.

Entre esses povos não havia maus espíritos a aplacar ou iludir. Se as coisas não corriam bem, a causa não era a ira sobrenatural e sim porque o povo e seus chefes não estavam em uníssono com as Grandes Forças. Para descobrir o que cumpria fazer os homens iam jejuar em lugares elevados, na esperança de receberem orientação. Esses índios ainda não tomam muito a sério Satanaz e o fogo do Inferno ou o conceito de um Deus vingador. A idéia de criar medo é estranha à filosofia deles.

Os sioux e os cheyennes não tinham medo da morte nem sentiam mal-estar quanto aos mortos. Muitas vêzes, parentes e amigos iam sentar-se no cemitério, como teriam ido sentar-se à lareira do falecido. As crianças presenciavam a doença, a morte, o sepultamento e, freqüentemente, iam visitar o lugar de enterro.

Voltanto um dia para casa com um feixe de lenha, dei com um índio velho dançando sozinho, com ar grave, sobre um montículo. Quando êle reparou em mim, deitei a correr, sentindo-me culpada de espreitar um pessoa de mais idade. O índio, porém, chamou-me com uma única palavra: "Neta". Com desenhos no chão e linguagem de sinais contou-me êle a história da velha que morava na lua, que naquele momento se erguia, cheia, no oriente. Mostrou-me o feixe de lenha que ela havia reunido apressadamente antes da tempestade que sempre se seguia ao primeiro minguante da lua. Depois falou-me no motivo da sua ida àquele lugar, onde 50 anos antes um grande homem do seu povo tinha sido posto num esquife para tornar à erva que alimentava o búfalo, o qual, por sua vez, iria alimentar o índio.

Deixei lá o homem enchendo o seu cachimbo de pedra ornado de penas, enquanto os últimos raios do sol poente brincavam no seu rosto encarquilhado e nas suas tranças impecáveis, envolvidas em peles. Era um velho guerreiro cheio de cicatrizes, que fora à sepultura de um chefe morto por soldados brancos. No entanto, êle pôde chamar sua "neta" a uma filha de brancos e contar-lhe uma história que dignificava a detestada tarefa de carregar lenha.

Esse emprego das palavras "neto" e "neta" encerra, creio eu, a essência da atitude dos índios para com os moços. A primeira lição que a criança recebe é que, tratando-se da segurança pública, do bem coletivo, o indivíduo deve subordinar-se ao grupo. Em compensação, êle sente desde o início que toda a sua comunidade tem igual responsabilidade em relação a êle. Qualquer lar o acolherá bem, cada panela terá um pouco mais para matar a fome de um menino, todos os ouvidos estão abertos para ouvir as suas queixas, seus júbilos, suas aspirações. E à medida que o seu mundo se amplia, o índio se surpreende a crescer com êle numa sociedade que não precisa de fechaduras para defender-se, nem de pa pel para registrar a palavra. O índio é um homem livre porque aprendeu a disciplinar-se, um homem feliz porque pode dar conta de suas responsabilidades para com os outros e para consigo mesmo como parte intrínseca e bem orientada que é da sua comunidade, membro de uma fraternidade tão vasta que abarca o universo."

Fonte> Instituto René Guénon

Um comentário:

helen_ians disse...

Excelente artigo. Vamos reproduzi-lo em nosso blog CAMINHO SAGRADO, citando a fonte, agora na semana de Cosme e Damião.
Parabéns também pelo blog: conhecimento extensivo e importante.
Passe lá no nosso blog.
Helen Ians
redcloud100yrs.wordpress.com