15 de maio de 2009

Cambalaches e Geopolítica

Mapa da suposta Nação Camba e suas "pinças" sobre Acre, Mato Grosso e República do Paraguai

Um dia após a Bolívia haver assistido o fim da greve de fome do Presidente Evo Morales em abril passado, com a aprovação pelo Congresso das eleições marcadas para dezembro, uma bomba explodiu em frente da residência do Cardeal de Santa Cruz de La Sierra. Em ação veemente, a ação policial descobriu armamentos e explosivos no stand de um local de exposições em Santa Cruz pertencente a uma cooperativa de telecomunicações, Cotas, e ao invadir o Hotel de las Américas, na mesma cidade, teve troca de tiros com um grupo ali hospedado, dos quais três foram presos e levados a La Paz, e três terminaram mortos no hotel, entre os quais um boliviano de origem húngara, Eduardo Rózsa Flores, que participou da Guerra da Croácia nos anos 90 e inclusive foi ator de sua própria história em um longa-metragem chileno intitulado "Chico" (Pequeno). Rózsa Flores declarara a um jornalista em Budapeste, antes de vir a Santa Cruz em 2008, estar dedicado à organização de um grupo paramilitar pela independência da chamada "Nação Camba", de cujo blog e sites inclusive era coordenador, e portanto foi identificado pelo governo boliviano como responsável não apenas pelo atentado ao Cardeal Terrazas como por planos de magnicídio, ou seja, de atentados terroristas contra Evo Morales e seu vice-presidente, o senhor Quintana.
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A guerra de informação é grande, por exemplo por um lado o canal governamental afirma que o governo pede apoio internacional para a investigação da formação dessas células terroristas, por outro a oposição faz circular a notícia de que o governo rejeita ajuda internacional para isso. O fato é que há eleições decisórias confirmadas para o final deste ano, e o movimento político é intenso, especialmente pela ausência de um candidato de oposição capaz de enfrentar o carisma de Morales: pensam, inclusive, em um candidato indígena, um dissidente do MAS (Movimiento al Socialismo), partido da situação, para capitalizar votos. E é surpreendente a total ausência de notícias sobre esses fatos na imprensa escrita e televisada do Brasil, talvez porque, como já expusemos anteriormente aqui, o tema não é palatável para algumas editorias antipáticas aos governos pró-bolivarianistas no continente (ou seja, mais próximos ao apoio econômico de Hugo Chávez), o que obviamente desconhece a pobreza da Bolívia (um dos cinco países de menor PIB no hemisfério) e a fragilidade de suas instituições democráticas diante do confronto das causas sociais por parte das oligarquias ruralistas arraigadas ao pensamento neo-mercantilista de sempre.

Em "O Rebate", Hiram Reis nos explica um pouco mais sobre o movimento separatista camba e sua situação anterior aos últimos acontecimentos:

"... dotar a la Nación Camba del poder de decisión para ejercer soberanía plena sobre su economía, su territorio y su cultura". (El Movimiento Nación Camba de Liberación)

A Bolívia, berço de civilizações indígenas, integrou o império Inca a partir do século XV. No século XVI, com a chegada dos espanhóis, foi incorporada ao vice-reino do Peru, e mais tarde ao de La Plata. A luta pela independência, iniciada em 1809, culminou com sua libertação, em 1825, graças a Simón Bolívar. Após uma breve união com o Peru, tornou-se independente e, desde então, perdeu parte do seu território como resultado de negociações e guerras. A Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1881, em que o Chile entrou em confronto com as forças da Bolívia e Peru, resultou na anexação, por parte do Chile, de ricas áreas em recursos naturais dos países derrotados. A Bolívia cedeu a província de Antofagasta, ficando sem saída para o mar, o que se transformou num objetivo nacional boliviano.

A 'Nación Camba' é uma região da Bolívia Oriental que cobre dois terços do país e é formado pelos estados de Santa Cruz, Beni, Pando, e departamentos de Chuquisaca e de Tarija. Em pouco mais de um século a região se converteu na primeira potência econômica do país, graças sobretudo à venda do gás e da soja. As características históricas e culturais singulares existentes entre o Altiplano boliviano e as Zonas Baixas dão origem a movimentos autonomistas e separatistas.

- Constituição Boliviana
Artigo 1º - A Bolívia se constitui em um Estado Unitário, Social, de Direito, Plurinacional, Comunitário, livre, autonômico e descentralizado, independente, soberano, democrático e intercultural. Funda-se na pluralidade e no pluralismo político, econômico, jurídico, cultural e lingüístico, dentro do processo integrador do país.

O reconhecimento de 36 idiomas oficiais, as indefinições quanto aos direitos e privilégios dos povos originários sem definir quem e quantos são, a falta de demarcação dos limites de seus territórios está causando, como era de se esperar, conflitos étnicos e estimulando o radicalismo regional. A 'restituição' de poderes às 'nações indígenas originárias' atende perfeitamente ao projeto da Nação Camba. A conciliação dos nacionalismos do Altiplano e das Zonas Baixas é impossível, pois todos pretendem utilizar, em benefício próprio, as rendas do gás e do petróleo.

A população de Santa Cruz, 'locomotiva' econômica da Bolívia, acusa o governo de não priorizar seus interesses e prega autonomia da região de Santa Cruz de la Sierra ('Meia-Lua'). O 'Nación Camba' considera que o governo boliviano é centralizador e não prioriza investimentos na 'Meia Lua'. Consideram que o governo tem toda sua política voltada para o Altiplano: "Mas também existe outra 'Nação' não oficial e que representa mais de 30% da população e se assenta sobre um território predominantemente constituído por selvas e llanuras do coração da América do Sul e que constitui mais de 70% do território nacional - uns 700 mil km quadrados -, cuja cultura mestiça vem do cruzamento dos espanhóis e guaranis. Seu analfabetismo não passa de 7% e, do ponto de vista produtivo, é o quinto produtor mundial de soja. A cidade de Santa Cruz de la Sierra (1,2 milhão de habitantes) realiza mais de 600 eventos internacionais por ano e demonstra sua ampla e indiscutível inserção no mundo globalizado. Constitui 'a outra versão' da Bolívia e cujo Movimento aspira obter a autonomia radical desta nação oprimida".

(...) Encoberto por matizes étnicos e econômicos notamos um 'movimento de pinça' que envolverá necessariamente o Brasil e que tem, sem sombra de dúvida, os USA por trás do processo. Os líderes do Movimento Nação Camba garantem que se não conseguirem a almejada autonomia o caminho será a separação e a luta armada. Os insurgentes contam com milícias de mais de 15 mil homens, treinados por paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), e armamento de última geração negociado com Israel. É notória a ligação dos paramilitares da AUC com o primeiro escalão do governo colombiano de Álvaro Uribe, maior aliado dos USA na América do Sul, e como o fornecedor de armas é Israel, maior aliado dos USA no mundo, se conclui, sem muito esforço, quem está por detrás do movimento separatista. Instalado o conflito, os USA intervirão diretamente, já que eles mesmos o fomentaram e nesta ocasião seremos envolvidos em um movimento de pinça cujos resultados são imprevisíveis."


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Tudo isso nos fez lembrar o clássico "Cambalache" (Juan Carlos Baglietto), que de Carlos Gardel fez sucesso aqui no Brasil tanto com Caetano Veloso quanto com Raul Seixas, e que ainda é uma bela alegoria sobre os passos e descompassos dessas Veias Abertas da América Latina:


Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé,
en el quinientos seis y en el dos mil también;
que siempre ha habido chorros,
maquiávelos y estafáos,
contentos y amargaos, valores y dublé.
Pero que el siglo veinte es un despliegue
de maldá insolente ya no hay quien lo niegue,
vivimos revolcaos en un merengue
y en el mismo lodo todos manoseaos.

Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor,
ignorante, sabio, chorro, generoso, estafador.
¡Todo es igual, nada es mejor,
lo mismo un burro que un gran profesor!
No hay aplazaos ni escalafón,
los inmorales nos han igualao...
Si uno vive en la impostura
y otro roba en su ambición,
da lo mismo que sea cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizón.

¡Qué falta de respeto, qué atropello a la razón!
¡Cualquiera es un señor, cualquiera es un ladrón!
Mezclaos con Stavisky van don Bosco y la Mignon,
don Chicho y Napoleón, Carnera y San Martín.
Igual que en la vidriera irrespetuosa
de los cambalaches se ha mezclao la vida,
y herida por un sable sin remache
ves llorar la Biblia contra un bandoneon.

Siglo veinte, cambalache, problemático y febril,
el que no llora no mama y el que no roba es un gil.
¡Dale nomás, dale que va,
que allá en el horno te vamo a encontrar!
¡No pienses más, tirate a un lao,
que a nadie importa si naciste honrao!
Si es lo mismo el que labura
noche y día como un buey
que el que vive de las minas,
que el que mata o el que cura
o está fuera de la ley.

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