20 de novembro de 2007

Ícaros Amazônicos


Ryan Wylie está disponibilizando no YouTube como work-in-progress este documentário: "Icaros - Spirit Songs of the Amazon", uma produção da JAMM - Jungle Alliance for Medicine and Music, uma ong peruana.

Outro icaro aqui é apresentado pela médica Rosa Giove, "Madre Ayahuasca". Ela é a autora do livro La liana de los muertos al rescate de la vida - Medicina tradicional amazónica en el tratamiento de las toxicomanías - fruto de 7 anos de trabalho com toxicômanos no centro Takiwasi, em Tarapoto, no Peru: em seu texto "Acerca del icaro o canto shamánico" ela conta a letra de um ícaro (um ascensor ao plano astral predicado pela cultura aiauasqueira amazônida):

"Introdúceme en tu cuerpo
desde allí yo te hablaré.
Introdúceme en tu mente,
desde allí te alumbraré.
Introdúceme en tu corazón,
desde allí te daré calor.

Oirás mi voz de serpiente
deslizarse en tu oído.
Verás mi luz sin verla
a través de Los sentidos...
y mi calor te seguirá
más allá del frío frío
Y seré parte de ti,
tierra lanzada al infinito...

Mi voz te susurrará
cosas que crees no saber.
Dentro de ti vas a encontrar
la respuesta a tu ser
Ocho (8), doble círculo fecundo
dos serpientes enroscadas,
que te hablan sin decir...
que te dicen sin hablar...
NADA

Soy la energía en ti dormida,
despiértame ya.
Quiero ascender, reptar de una vez,
Cruzar el cero (O) ya,
cerrar el círculo aquel,
donde la flor duerme en la cruz...

Cuando el azul llegue a tu cara
y la luna a tu cabeza,
a su encuentro yo iré,
serpiente roja, desde la base,
a fundirme con el sol...
Y mi voz te guiará a través del agua
con el color del amor..."


Um tempo para cada coisa

foto: Tomas Abella - Altaïr

¡Ayaw haylli, yaw! ¡Ayaw haylli, yaw! ¡Ayaw haylli, yaw! ¡Ayaw haylli, yaw! Chaymi coya, chaymi palla [Aquí está reina, aquí está señora], Ahaylli. Ahaylli. [¡Viva! ¡Viva!]

Sendo a agricultura a principal atividade do Império Inca do Tawantinsuyu, o cultivo supunha que a semeadura, a colheita ou a rega fossem realizadas de acordo com um calendário anual, que foi desenvolvido durante milhares de anos até o período Inca. O conhecimento daquele cronograma se deveu aos cronistas quinhentistas como Guamán Poma, que descreveu o funcionamento do calendário agrícola imperial ilustrando-o com desenhos, que demonstram também a existência de um pensamento ambiental mágico.

Existia um calendário imperial e calendários regionais conforme as necessidades agrícolas de cada zona. O aspecto religioso-cultural era óbvio, pois a metade do ano era do Inca (Rei) e do Sol, um semestre masculino, enquanto que a outra metade era a da Luna e da Qoya (Rainha), ou seja, um semestre feminino. O calendário inca era lunisolar., e continua sendo praticado pelos remanescentes dos antigos ayllus no altiplano peruano e boliviano.

Começava-se o ano com o solstício de inverno, e reconheciam este momento graças a um sistema de observação, havendo ao redor da cidade do Cusco doze pilares dispostos de tal modo que a cada mês um deles assinalava por onde saía o sol e por onde se punha. Estes pilares se chamavam sucanga; e com eles se anunciavam as festas e os tempos de semear e colher.

A grande extensão do território do Império compreendia os dois hemisférios. Foi quando eles descobriram a existência da zona equatorial, onde o sol de meio-dia não fazia sombra em algumas colunas ou pilares durante determinadas jornadas, as do equinócio.

Esta descoberta foi feita em Quito, que eles pensavam estar muito mais perto do sol do que qualquer outro lugar. Provavelmente esta constatação influiu na decisão do Inca Huayna Cápac de mudar a corte para Tomebamba (Equador). Apesar de terem uma idéia pragmática do equador terrestre e das jornadas do equinócio, os incas não chegaram a compreendê-las em um processo científico, mas religioso.

Os astrônomos incas estabeleceram um calendário de 365 dias, cada um deles era materializado em uma huaca ou lugar sagrado. Dez destas huacas representavam uma espécie de semana, e três destas formavam o mês, ou quilla, doze das quais davam lugar ao ano.

Este calendário foi utilizado para os trabalhos agrícolas e para as festas, O ano começava em meses diferentes para as distintas etnias do território. Em geral, entre os agricultores, o ano começava em agosto-setembro, com a semeadura, e acabava em junho-julho depois das colheitas.

O site Novo Milênio compara assim o calendário inca com o Zodíaco:

Tarruca (Animal veloz e dotado de chifres) - Capricórnio
Mirku-Kcoyllur (Estrelas juntas) - Gêmeos
Chackana (Balança) - Balança
Mama-Hana (Mãe do céu ) -Virgem
Miki-Kiray (Tempo da água) - Aquário

Os meses e celebrações do calendário são os seguintes:

Janeiro: Huchuy Pacoy (Pequena colheita)
Fevereiro: Hatun Pocoy (Grande colheita)
Março: Pawqar Waraq (Ramo de flores)
Abril : Ayriwa (Dança do milho jovem)
Maio: Aymuray (Canção da colheita)
Junho: Inti Raymi (Festival do Sol)
Julho: Anta Situwa (Purificação terrena)
Agosto: Qapaq Situwa (Sacrifício de purificação geral)
Setembro: Qoya Raymi (Festival da rainha)
Outubro: Uma Raymi (Festival da água)
Novembro: Ayamarqa (Procissão dos mortos)
Dezembro: Qapaq Raymi (Festival magnífico)

Fontes: Telepolis, Bolivia en La Red, Discovery Brasil. Para se ler: "El calendario de los incas - Agricultura y comunidad" . Para ver uma apresentação em PDF do calendário agrícola de Guamán Poma de Ayala de 1580, com as imagens digitalizadas dos meses do ano adaptadas ao calendário de doze meses introduzido pelos espanhóis, clique em Calendario Agrícola Incaico Según Guaman Poma de Ayala. (organizado pelo historiador boliviano Luis Reynaldo Gomez Zubieta). No Digital Research Center of the Royal Library, da Dinamarca, se pode ler no original a obra de Felipe Guaman Poma de Ayala, El primer nueva corónica y buen gobierno (1615/1616).

19 de novembro de 2007

O Pólo Positivo do Planeta

Pouca gente se dá conta que os mecanismos vigentes de subjugação cultural possam ser tão profundos, como o que resulta por exemplo do sistema de mapeamento global normalmente utilizado e que representa o hemisfério norte como a parte superior da planeta. Trata-se de mera convenção geográfica, e afinal, em termos magnéticos, o Pólo Sul é o POSITIVO e o Pólo Norte o NEGATIVO. Convenções como esta influem no modo do indivíduo enxergar a seu lugar (ou o lugar de sua nação) no mundo. Recentemente a antiga tradição árabe de representar o Sul na parte superior dos mapas foi retomada pela Austrália, dando origem aos novos mapa-múndi que deveriam ser doravante adotados em todas as nações do hemisfério Sul, antes ensombrecidas pela imagem padronizada de serem filhos de continentes destinados naturalmente à submissão pelos auto-proclamados "povos superiores".

Em 13 de novembro passado a Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA) publicou as primeiras imagens de alta definição de um nascer da Terra no horizonte lunar. As imagens, tomadas no hemisfério sul da lua, mostram o nosso planeta ascendendo com essa configuração positivada, com a Austrália na parte superior do globo. Assistam às imagens (do nascer e do por da Terra) no site da JAXA:


Fontes: Caixa Preta e Zoo Bizarro

14 de novembro de 2007

Hermanos Americanos

Comemorações do Solstício em Tiwanaku (Bolívia) em Junho de 2007

O seguinte poema de Tupturka, ameríndio quíchua argentino, foi ganhador do Certamen Nacional de Cuento y Poesía "Grupo Icthios", Argentina, 1990, e publicado em "Noticias de Abya Yala" Nº 4 de SAIIC, USA,1992:

Hermanos Americanos

AbyaYala sobre las aras humeantes
Los cuatro puntos cardinales
Se tornan infiernos de sangre
Lava incandescente funde su potencia

AbyaYala pura descoyuntada
Batalla de esfuerzos imposibles
De trópicos magestuosos y ardientes
De selvas profundas, llanuras...
Mesetas salientes...

Razas ancestrales, culturas diferentes,
Pueblos fantasmas
Perdidos en el infinito
Siempre víctimas de vanas promesas.

Tendiendo nuestras manos
Desde las cuatro ternuras
Llegamos a este día.
Hermanos americanos.

A la sombra de esta memoria
elevemos una firme comna
Como simiente de ansiedad
Recordando todo esto
Seguiremos las huellas.

A versão original em quíchua, um idioma altamente sonoro e doce:

Awya Yala Wawgeykuna

Awya yalla apachi q'osni patapi
Tawa K'uchu tawantinsuyumanta
Yawar qhocha kutipun
llajsakun sirch'i nina urqota.

Awya yalla llanp'a ch'ujrikuxqa
Kallpa makanakuyta mana atisqarkuchu
Jatun ruphyay ukhu urqopi
Sach'a ukjupi panpakuna
Sallqa ch'inllan....

Unay ayllu yachaykunapi
Atimullpusqa chay jina llajtakunamanta
Chinkasqa nay uray janaj pachapi
Winaypaj arpa atisqa simir nisqa.

Mast'aspa makikunanchejta
Tawa nujunakuymanta
Kay pp'unchayman chhayamunchej
Awya Yalla wawqeykuna

Kay yuyayniyki llanthupi
Ancha sinch'i Pirqapi juqarina
Llakijmanta mujujjima
Tukuy kayta yuaytawan
Qhatisuchej chakisarukunanta
Ripusqankunawan.

Fonte: o excelente site Latin American Indigenous Peoples. Há mais para se ler em Poesía Indígena. Em português também se pode ler uma Antologia da Poesia Indígena no blog de César Bicalho.

13 de novembro de 2007

A carta de Raoni

O documento que Raoni entregou ao Presidente da República em 7/11, durante cerimônia em Belo Horizonte (MG), na qual o cacique recebeu a Ordem do Mérito Cultural, resume a preocupação de alguns povos indígenas como Mebengôkre (Kaiapó), Panará, Yudjá e Tapajuna, que o elaboraram durante curso de formação de professores na aldeia Piaruçu.

Na carta, eles escrevem que não querem a construção de hidrelétricas em suas terras, não querem mineração e pedem a demarcação da Terra Kapõt Nhinore, do povo Kaiapó, em identificação desde 2004, situada no Pará. Leiam a carta na íntegra:

Aldeia Piaraçu, 03 de novembro de 2007.

Ao Presidente da República do Brasil Luís Inácio da Silva – Lula
C/c para:Tarso Genro – Ministro da Justiça
Márcio Meira – Presidente da Funai

Nós estamos muito preocupados com o futuro dos nossos povos.

Queremos a demarcação do Kapôt Nhĩnore nesse ano. Há muito tempo estamos lutando pela demarcação, porque essa terra é sagrada e muito importante para o nosso povo Mebẽngôkre. Todos os anos os pescadores e fazendeiros estão invadindo e destruindo nossos recursos naturais e locais sagrados dentro do Kapôt Nhĩnore.

Além disso, sabemos que o seu Governo quer construir seis usinas hidrelétricas no rio Xingu e outras em seus afluentes, como no Tepwatinhõngô, que os brancos chamam de Jarina. Nós não vamos deixar construir essas usinas hidrelétricas que vão destruir nossos territórios, os nossos recursos naturais e a vida dos nossos povos.

Queremos a Funai fortalecida, recebendo e administrando todos os recursos que existem para os povos indígenas que estão espalhados em vários ministérios e órgãos governamentais. Não aceitamos a estadualização e municipalização da saúde e educação indígenas. Cada povo vai decidir como os recursos serão repassados e administrados para o atendimento de suas comunidades.

Não aceitamos a mineração em terras indígenas e principalmente sem autorização da comunidade indígena. Não queremos a entrada de mineradores, garimpeiros, madeireiros, pescadores e qualquer tipo de invasores em nossos territórios.

Queremos que os direitos indígenas conquistados na Constituição de 1988 sejam respeitados.

Presidente Lula, o Governo Brasileiro precisa respeitar e proteger os povos indígenas.

Fonte: ISA

A sagrada cerveja dos Aztecas

Photo © Justin Kerr
Cena palaciana com árvore de cacau. O sujeito usando uma prensa manual possivelmente esteja macerando sementes para o preparo do chocolate.

Habitantes das América Central descobriram a bebida de cacau há pelo menos 3.100 anos, 500 anos antes do que os pesquisadores consideravam a data da sua origem, segundo um novo estudo publicado nesta segunda-feira.

Arqueólogos liderados por John Henderson, da Universidade de Cornell, em Ithaca (Nova York), analisaram recipientes de cerâmica do Vale Ulua, no norte de Honduras, de 1100 A.C. Eles acharam resíduos de teobromina, substância só encontrada no cacau.

A teobromina é encontrada na planta do cacau, principalmente nas sementes, numa concentração de 1% a 4%. Ao fermentar e secar as sementes, e depois processar o extrato, se obtém o chocolate. A Teobromina é um alcalóide que, em estado puro, é um pó branco: uma metilxantina, da mesma família que a Cafeína. A etimologia da palavra é grega, sendo composta por duas palavras: ~ Theo «Deus» e Broma «Comida». A Teobromina, e mais especificamente o fruto que a produz, é a "Comida dos deuses" e assim era conhecida e apreciada pelos Maias e pelos Aztecas. Os Aztecas assumiram algumas das tradições anteriores dos Maias, sendo uma delas o consumo de uma bebida feita com sementes de cacau (sementes de cacau dissolvidos em água). Os Aztecas chamavam a essa bebida xocolatl, das palavras aztecas xocolli «amargo» e atl «água». O chocolate não era adoçado com açúcar (como se faz modernamente) e era dissolvido em água (daí o seu nome de «água amarga»). Esta bebida era muito apreciada pelas suas propriedades estimulantes (fornecidas pela teobromina) quer pelos Maias quer depois pelos Aztecas, que a tomavam ritualmente antes de uma guerra. Ao xocolatl eram, por vezes, adicionados pimentos picantes.

Os arqueólogos informam no site da revista "Proceedings of the National Academy of Sciences" que a primeira evidência do uso humano da bebida de cacau é 500 anos anterior ao que se pensava. O tipo de cerâmica achado no Vale de Ulua indica que a bebida de cacau foi servida em grandes cerimônias para festejar bodas ou nascimentos, segundo os autores do estudo. "As primeiras bebidas de cacau foram produzidas através da fermentação da polpa ao redor das sementes", afirmam os cientistas em seu estudo.

Um dos pesquisadores, o antropólogo John Henderson, observa que as bebidas baseadas no cacau foram preparadas muito antes do que indicavam os documentos mais antigos e eram semelhantes à cerveja. Foram utilizadas para ganhar prestígio social, o que mostra o começo de um processo de criação de diferentes camadas na sociedade, afirma o especialista.

Quando Colombo chegou à América levou, aos reis espanhóis, algumas sementes de cacau mas a bebida de que era feito não ficou conhecida na Europa imediatamente. Só mais tarde chegou ao «velho» continente, porque a bebida azteca era amarga e diferente dos gostos adocicados dos europeus. Só aos poucos começou a ser apreciada, da mesma forma que na América Central. Era um «gosto adquirido», um pouco como a cerveja, que só ao fim de provar algumas se aprecia e gosta. Somente em 1585 foi enviado o primeiro carregamento de chocolate para a Europa. Os Europeus também a bebiam como «chá de café» (água quente com grãos de cacau muito dissolvidos) mas substituíram o pimento picante por baunilha e acrescentaram açúcar e leite para disfarçar o sabor amargo da bebida. No século XVII Turinby Doret criou o primeiro chocolate sólido, em 1819 Cailler criou a primeira fábrica de chocolate suíço e em 1828 Van Houten inventou um processo pelo qual o sabor amargo era retirado ao chocolate.

Fonte: "The Birth of Chocolate - or, The Tree of the Food of the Gods", de John Henderson. Leiam também: "Tasting Empire: Chocolate and the European Internalization of Mesoamerican Aesthetics", de Marcy Norton.

Amazonía Sumaq Kawsay

«Nós nos questionamos se um povo pequeno como o nosso pode mudar o mundo. Não pode! Mas nós estamos seguros que dentro de cada coração existe um povo que luta com a mesma força, e assim, mesmo sendo pequeno, nós somos símbolo da potência da vida.» (José Gualinga falando no documentário "Soy defensor de la selva", de Eriberto Gualinga).

MENSAGEM DOS YACHAKS DE SARAYAKU - AMEMOS A VIDA, A NATUREZA É VIDA:

"No transcurso de nossa existência somos responsáveis do que a natureza nos brindou para que o utilizemos de modo racional e possamos subsistir harmonicamente, e é de nossa completa responsabilidade viver em um ambiente são o que implica viver gozando de boa saúde física e mental.

Tudo o que existe na humanidade tem uma razão de existir, os recursos naturais não são a exceção, o petróleo não é a exceção, para muitos indivíduos o que vou dizer poderia soar poético e irreal, mas não é assim, o que vou dizer é real, tão real como a vida mesmo. A natureza tem vida própria, os rios, lagos, montanhas, árvores e tudo o que existe na natureza tem vida própria, atentar contra elas significa ocasionar imprudentemente um desequilibrio irreversível e alterar o transcurso normal da existência, e começam os desastres naturais para muitos inexplicáveis mas para nós explicáveis, essa é a maneira como protesta A MÃE NATUREZA pedindo a ouvidos surdos ser escutada.

Em meus 80 anos de vida vi muitas transformações, o que hoje defendemos não é o que existia antes: nesse tempo que passou, com a entrada da companhia Shell já se depredou parte de nossa natureza, com dor observamos como se extinguiam muitas espécies, que hoje não lhes encontramos mais, nos lagos encontrávamos mortas as imensas sucuris, botos, peixes-boi, jacarés, e pouco a pouco os seres dos rios e das montanhas buscaram refúgio, e muito recentemente é que se encontram agora em recuperação porque, a sábia Mãe Natureza torna a recuperar-se mas isto leva muitos anos e talvez as espécies que antes existiam já não voltem a se encontrar.

O petróleo, tão cobiçado por seu valor econômico monetário, não é nada mais e nada menos que o sangue que dá vida à Mãe Terra e sua natureza - agora se tenta tirar o sangue de seu corpo e viver na morte, não é lógico desangrar à mãe terra e pedir que a natureza não reaja, mas esta lógica possivelmente não funciona com os que à custa de tudo querem explorar o petróleo: de que lhes vai servir todo o dinheiro do mundo se vão rumo a sua própria desdita e morte, será que os grandes edifícios, as grandes mansões são imunes à reação da natureza, será que os terremotos, as erupções vulcânicas, as inundações, as tempestades não lhes afetam? Imagino que quando seja demasiado tarde nos daremos conta que a humanidade se equivocou e se autodestruiu mas já será tarde.

Muitos jovens, que ainda não viveram o suficiente para amar o que são, crêem que decidir sobre a vida é fácil, ou que por haver saído afora podem decidir sobre a vida interna das comunidades sem pedir a opinião dos anciãos, não se dão conta que cavam sua própria desdita, pois viver dignamente é importante, isso implica em ter consciência e princípios sólidos - lamentavelmente nos temos dado conta que muitos jovens que pedem que ingressem as companhias petroleiras dizendo falar em nome das comunidades, achando que vão contribuir ao desenvolvimento das comunidades, não possuem a mínima idéia de que desenvolvimento querem, o que pretendem é copiar algo perdendo a identidade e a dignidade.

A perda de identidade tem muitas formas, mas a pior perda é atentar contra os princípios de quem somos e para que estamos: uma pessoa pode estar em qualquer parte do mundo, interrelacionar-se com respeito com outros povos e ainda assim não perde sua identidade quando é consciente de quem é.

Senhores, lhes solicito encarecidamente, ajudem-nos a cuidar da humanidade, respeitando a terra e a mãe natureza, se cada indivíduo põe um grãozinho de sua parte será suficiente e a vida continuará."

Palavras de Sabino Atanacio Gualinga Cuji, representante dos Yachak (pajés) da Comunidade Kichwa de Sarayaku. O nome "Sarayaku" vem dos sábios ancestrais da nação Kichwa há centenas de anos, e em português significa RIO DO MILHO, mas nesta região o pão de cada dia na atualidade tem sido o assalto, o ultraje e injustiças contra os líderes e organizações que representam a comunidade. Estes ultrajes são parte dos métodos das empresas petroleiras estrangeiras, que não têm constrngimento algum: quando se trata de extrair petróleo, realizam provas sísmicas sem o consentimento das comunidades. O anterior governo equatoriano chegou a aludir "que os direitos de propriedade das comunidades indígenas se aplicam à superfície e não ao subsolo, que é patrimônio nacional", inclusive que "se não permitem o desenvolvimento petroleiro da zona, deveriam pagar ao Estado os 60 bilhões de dólares que vale o óleo cru que está no subsolo".


A comunidade de Sarayaku resiste sob o exemplo de Beatríz Gualinga Cuji, que em sua infância viveu a febre do caucho, emigrou para a cidade, para trabalhar como empregada doméstica, para depois regressar para lutar e defender o direito a viver em paz em sua terra. Durante mais de 25 anos, foi defensora da vida indígena, defensora da natureza, defensora do direito de seu povo. Quando morreu tinha 65 anos, a chamavam com carinho "Bacha". Beatríz Gualinga impulsionou a unificação indígena, protagonizando a marcha histórica dos indígenas do Pastaza em 1992, quando os indígenas conseguiram obter títulos legais de 2 milhões de hectáreas de territórios ancestrais. Sua voz se fazia ouvir e retumbava nos salões do "Señor Gobierno", como ela os denominava, quando se referia ao presidente do Equador. Antes de morrer e com lágrimas nos olhos, invocava aos céus e dizia: " até quando tanta injustiça!" e pediu a seu povo "Ima urasbas llaktata jarkanata ama sakinguichichu", "nunca deixem de lutar por nossa comunidade".

Para se ler: "Violações dos Direitos Econômicos: Um Roteiro das Obrigações do Estados - e suas Falhas!", no site DHNet. "En Sarayaku, la Mujer ejerce un fuerte liderazgo", é um artigo interessante disponibilizado em Quechua Network , e "Demandas y Propuestas de los Pueblos Indígenas al Estado Ecuatoriano" é uma publicação da Universidade de Princeton em 2001 que faz um retrospecto do movimento indígena no Equador. Conheçam também um álbum de fotos de Sarayaku no Espace Bolivarien, de onde saquei algumas imagens para esta matéria.

Fontes: sites Sarayacu e Vulcanus.

12 de novembro de 2007

Nacionalidades indígenas se defendem

"Chamamos ao Governo a tomar as políticas de Estado necessárias para que todos os povos e nacionalidades indígenas que habitamos o Equador tenhamos uma vida digna, com respeito a nossos direitos e a nossos recursos naturais que são também de nossos filhos. Estes 30 anos de atividade petroleira não significaram para a maioria dos equatorianos, nenhum benefício real. A avaliação final da atividade petroleira tem sido uma situação de catástrofe ambiental, a destruição de nossos territórios, a contaminação de nossos rios, a perda de nossas formas de vida, e ao país, só lhe trouxe o endividamento, incremento da pobreza a níveis extremos, e delitos de lesa humanidade contra nossos povos, alguns dos quais desapareceram ou estão a ponto de fazê-lo.

A compreensão desta situação deve partir de uma realidade: a atividade petroleira no Equador se realiza na Amazônia que além de ser uma zona de grande biodiversidade e fundamental para a vida do planeta é essencialmente o lar dos Povos e das Nacionalidades Indígenas que a temos cuidado desde tempos imemoriais. A atividade petroleira significou para nós como povos, migrações forçosas, perdas de vidas humanas, destruição de nosso habitat, atentados contra nossa saúde, contra nossa espiritualidade e destruição de nossos territórios e lugares sagrados, que têm sido a essência de nossa existência."

Este documento da Confeniae, Confederação de Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana, das difundido em 20 de agosto de 2005, ainda permanece bem atual. Domingo Ankuash, presidente da entidade, disse que representantes das nações indígenas de Colômbia, Peru, Venezuela e Equador, para defender sua cultura e territórios, constituíram agora uma rede latino-americana de nacionalidades e povos indígenas em resistência.

A defesa de seu território, a autonomia e a exploração petroleira foram parte dos temas básicos analisados pelo II Foro Regional Amazônico, denominado "Proceso de diálogo entre as nacionalidades indígenas da região amazônica". Domingo Ankuash, presidente da Confeniae, relatando os resultados do Foro, falou da necessidade de que o Estado os reconheçam como governos autônomos, com suas próprias leis e com sua própria forma de administração e governo. Neste sentido, indicou que ficou conformada uma comissão para a elaboração de uma proposta que será apresentada à Assembléia Constituinte equatoriana.

Cada nacionalidade, como governo autônomo, contaria com seu próprio presidente que governaria de acordo com seus costumes e tradições próprias. Seu papel seria mais ou menos como o de uma prefeitura com suas próprias competências em educação, saúde e justiça. Não se trata de criar um novo país dentro de outro, mas sim, com um só território, indicou Domingo Ankuash, que também anunciou que vai apresentar uma solicitação de acesso à informação para que o Ministério do Ambiente torne público o texto completo pelo qual se concede licença ambiental do Bloco 31 a favor da PETROBRÁS no Parque Nacional Yasuní e em território indígena das nacionalidades amazônicas, inclusive de povos indígenas não-contactados.

Luís Macas, em seu artigo "Proceso del Movimiento Indígena", publicado em Boletín ICCI ARY-RIMAY, diz:

"O movimento indígena na época de globalização, é uma reflexão a partir de seu interior sobre os impactos e as transformações ocorridas na sua época e, antes de mais nada, a compreensão da emergência inusitada de um ator histórico e fundamental na vida nacional, continental e mundial. Se converteu não apenas no tema da época, seja este controverso ou não, seja apaixonante ou preocupante. Antes de mais nada, se trata de uma realidade, de uma ação social concreta, é todo um movimento, é o movimento indígena que protagonizou e livrou lutas libertárias ao longo do regime colonial e republicano mas que obviamente foram reprimidas pela sociedade, exterminadas pela conquista e ignoradas pela história.

É importante falar da época, entretanto o movimento indígena tem atuado em função das mudanças transcendentais de uma época. Sempre esteve presente a luta indígena nas diferentes épocas históricas e; em suas diversas e diferentes manifestações. Este processo obedece a uma estratégia de resistência em função de perspectivas históricas, pelo qual estes fatos marcaram os diferentes câmbios de época. Estas lutas periódicas se inscrevem e se convertem na transformação da época, ou seja: suas lidas marcam os passos na época como estratégia de luta contra o colonialismo e o neocolonialismo."

Para se ler: "Indígenas - O Vermelho do Petróleo", de Maurizio Passagliotti. Fontes: Diario Los Andes e Llacta .

11 de novembro de 2007

Vozes Emergentes

Global Voices Online é uma iniciativa sem fins lucrativos do projeto “global citizens’ media” criado pelo Centro Berkman para Internet e Sociedade da Escola de Direito de Harvard, uma incubadora de pesquisa focada no impacto da Internet na sociedade.

O 'Rising Voices' (Vozes Emergentes) é uma iniciativa da organização tendo como principal objetivo ajudar a trazer novas vozes de novas comunidades e diferentes idiomas para a grande conversação na rede, por meio de recursos e fundos para grupos locais que apresentem propostas de como alcançar comunidades que ainda não possuem representação na web. Exemplos de potenciais projetos incluem:

Compra de uma boa câmera digital de vídeo e ensino de um grupo de estudantes rurais a produzir um videoblog documentário sobre a vida de seus avós.

Organizar uma oficina regular sobre blogs e fotografias em orfanatos locais. Parte do recurso financeiro pode ser utilizado em câmeras baratas e acesso à internet para que os participantes possam descrever a vizinhança para o público mundial com textos e imagens.

Trabalhar com uma organização não governamental (ong) local ou ativista social para que os desafios, sucessos e histórias desses grupos possam circular em uma audiência global.

Traduzir nosso material sobre novas mídias para idiomas indígenas, como o Quechua ou Wolof, que não estão representados na blogosfera ou podosfera atual. Depois utilizar os módulos de ensino para encorajar blogueiros a postar nos idiomas de origem.

Os recursos variam entre US$ 1 mil e US$ 5 mil, . Na primeira chamada, em julho, cinco projetos escolhidos entre 142 aplicações de 60 países foram contemplados. Nenhum do Brasil.

Vejam no site do Global Voices em Português o que você precisa fazer para se inscrever e fiquem de olho no prazo, que vai até 30 de novembro. As verbas do programa de promoção do Rising Voices, em reais, variam entre R$ 1.700 e R$8.500, e portanto a dica para a apresentação da proposta é que você "seja o mais sério, específico e realista possível quando descrever os gastos previstos no projeto". Os projetos que tiverem êxitos serão destacados no Global Voices, e isto pode ter um grande significado tanto para as comunidades atendidas quanto para os 'ativistas' que se lançarem nesta empreitada que é promover a conversação global pela Internet. Vale a pena participar!

Manifesto do Global Voices (vejam o manifesto em outros idiomas):

Nós acreditamos na liberdade de expressão: protegendo o direito de falar — e o direito de ouvir.

Nós acreditamos no acesso universal as ferramentas de expressão.
Para esse fim, nós queremos que todo mundo que queira se expressar tenha os mecanismos adequados — e qualquer um que queira ouvir e entender essa mensagem, tenha os recursos para ouvi-la e compreendê-la. Graças as novas ferramentas, as formas de expressão não precisam mais ser controladas pelos que possuem os mecanismos tradicionais de publicação e distribuição, ou pelo governo que pode restringir a reflexão e a comunicação. Agora, qualquer um pode experimentar o poder da imprensa. Todos podem contar suas histórias para o mundo.

Nós queremos construir ligações entre as culturas e línguas que dividem as pessoas, para que elas se entendam mais profundamente. Nós queremos trabalhar juntos e mais efetivamente, agindo de forma mais enérgica.

Nós acreditamos no poder da comunicação direta. O elo entre indivíduos de diferentes mundos é pessoal, político e poderoso.

Nós acreditamos que o diálogo através das fronteiras é essencial para um futuro livre, justo, próspero e sustentável - para todos os cidadãos deste planeta.
Enquanto nós continuamos a trabalhar e a se expressar como indivíduos, nós também queremos identificar e promover nossos interesses e objetivos comuns.

Nós nos comprometemos a respeitar, assistir, ensinar, aprender e a ouvir o próximo.
Nós somos o Global Voices (Vozes Globais)

Fonte: EcoDigital

Entrevista com um Xamã Shipibo

Pintura de Bruno Illius, 1997

Leoncio Garcia, xamã ayahuasquero Shipibo, foi entrevistado em agosto de 2005 no Mishana Private Retreat Center, na floresta tropical da Amazônia peruana, com Peter Cloudsley – por Howard G Charing:

***

Os Shipibo são um dos maiores grupos étnicos na Amazônia peruana, e cada um destes grupos possui seus próprios idiomas, tradições e cultura. Os Shipibo, que atualmente são em número de mais ou menos 20,000, estão estendidos em comunidades pela região dos rios Pucallpa e Ucayali. Eles são altamente considerados na Amazônia como sendo mestres da Ayahuasca, e muitos aspirantes a xamãs e Ayahuasqueros da região estudam com os Shipibo para aprender seu idioma, cantos e o conhecimento das plantas medicinais. Neste artigo nós entrevistamos o maestro Shipibo Leoncio Garcia, um homem no meio dos seus 70 anos mas com a aparência de ser vinte anos mais jovem, novamente um atestado da qualidade rejuvenecedora da Ayahuasca e das plantas medicinais da floresta tropical da Amazônia.

Leoncio Garcia

“Eu não me tornei um xamã até ter 50 anos; eu tenho agora 74. Eu estive sempre tão ocupado trabalhando na chácara, ou cortando madeira, que isso só aconteceu quando eu comecei a ter um pouco mais de idade. Até então eu só tinha tomado a Ayahuasca por todas as razões habituais de saúde, mas era somente isso. Foi depois de me decidir a fazer a dieta que eu bebi a Ayahuasca seriamente, mas eu não vi nada e não pensei que aprenderia qualquer coisa, apesar de continuar a beber todas as noites sem dormir. Com apenas um dia para completar três meses de dieta eu tive uma visão tremenda e eu comecei a cantar, continuando por toda a noite até o amanhecer. Eu vi debaixo da Terra, debaixo dágua e nos ceús; tudo. Provavelmente eu estava aprendendo dos espíritos, durante a dieta, mas eu não compreendi. Foi depois disso que eu pude ver qual era o problema com as pessoas. Eu jejuei primeiro com piñón colorado [um tipo de pinha comestível] e tabaco, e então experimentei todas as outras plantas.

Isso foi em San Francisco, em uma comunidade Shipibo em Yarinacocha, Pucullpa, onde eu nasci. Depois disso eu fui para Huancayo, por seis meses, para tentar minha medicina. Após eu fui para Ayacucho e então um senhor me levou para Lima para curar sua esposa. Depois de dois meses eu fui levado para Trujillo e então Arequipa, Cusco, Juliaca, Puno. Tudo se desenrolou a contento e uma vez eu trabalhei com uma doutora que não era muito bem sucedida, e logo haviam pessoas formando fila do lado de fora do seu consultório. Eventualmente eu vim para Iquitos, em 2000, sem ter a oportunidade de retornar a minha família desde então; eu só mandava dinheiro para eles. Quando eu vou ao redor das pessoas, soprando fumaça de tabaco, é para dar a eles ensinamentos; para os proteger de forma que quando coisas acontecerem ao redor, não os machuquem os os faça doentes”

Leoncio nos conta um mito (cautelar) Shipibo

“Existiu uma vez um homem sábio que se chamava Oni, que sabia para que cada planta curativa podia ser usada. Ele sabia todos os seus nomes e um dia ele viu um cipó e o reconheceu como sendo a Ayahuasca, e ele aprendeu a misturá-lo com a Chacruna. Uma noite ele experimentou a babida, aprendendo tantas coisas com ela que ele continuou bebendo, e por continuar neste processo por tanto tempo e com tanta frequência ele parou de comer e beber, apenas cantando dia e noite. Mas ele tinha dois filhos, e eles disseram: ‘venha tomar o café papai’, mas ele continuou a tomar Ayahuasca, e quando eles tentaram levantá-lo ele estava preso ao chão e não podia ser movido. Então eles o deixaram cantando para todas as plantas, dia e noite, notando que a Ayahuasca estava crescendo dos seus dedos. Naquele momento os filhos voltaram para suas chácaras, retornando um mês depois para ver seu pai. Os veios da Ayahuasca haviam se enrolado por todo o seu corpo, e ainda assim continuou a cantar, dia após dia, e a floresta continuou a crescer ao seu redor. Depois de mais alguns meses ele tinha se fundido com a floresta propriamente dita, e por isso ela é chamada de Ayahuasca, a corda dos mortos, e presente em Oni, o indio Shipibo”.

Leoncio Garcia
Howard G. Charing é um sucedido líder internacional de workshop xamânico. Ele trabalhou alguns dos mais respeitados e extraordinários xamãs e curandeiros nos Andes, na floresta tropical da Amazônia e nas Filipinas. Ele é o autor do bestseller Plant Spirit Shamanism (Destiny Books USA), e seu website é: Ayahuasca Retreats with Eagle's Wing. Fonte: Shamanism, tradução para esta publicação sem fins comerciais: Rodrigo Conti. Leiam também o excelente ensaio de Sabine Rittner, "Sound - Trance - Healing - The sound and pattern medicine of the Shipibo in the Amazon lowlands of Peru".

8 de novembro de 2007

Os Krahô em Ação

"Meninos Krahô", pintura de Elon Brasil

Eles são perto de 2.000 índios, do grupo Timbira, ocupam uma área de 302.533 ha, no nordeste do Estado de Tocantins. Eles foram induzidos, nos últimos 50 anos a adotar um sistema agrícola que não era o deles: o da monocultura de arroz. Houve perda de sementes de espécies que faziam parte do seu sistema milenar de segurança alimentar. Sua terra demarcada, em 1940, era terra de baixa fertilidade. A variedades que eles tinham, os mais antigos, eram adaptadas a elas. O sistema induzido não funcionava com falta de dinheiro – o poré – para comprar os fertilizantes que variedades necessitavam, como os milhos híbridos, que a própria EMBRAPA colocou no mercado. A agricultura introduzida não era adaptada a essa condição requerendo muitos insumos.

Os 16 caciques começaram discutir, anos atrás, problema de fome e concluíram que esse sistema, que utiliza os tratores que logo que chegavam já iam se acabando, não era apropriado a situação deles. A sua área é sujeita à desertificação. Eles chegaram a essa conclusão junto com um indigenistas da FUNAI que trabalha junto com eles. A própria FUNAI e o próprio órgão de pesquisa agropecuária que ajudou a implantar essa política, essa mudança no sistema, estavam concluindo que esse caminho não estava dando certo.

Na organização das aldeias Krahô – KAPEY –, as lideranças começaram a discutir o modelo de segurança alimentar deles e apensaram em fazer a recuperação de um milho mais mole e de uma batata que tiveram antigamente e não tinham mais. O velhos associavam essas variedades a determinados rituais.

Os Krahô foram atrás desse material. Os técnicos da EMBRAPA que conservam as sementes, em coleções de plantas, em câmaras, para no futuro fazer cruzamentos que a empresa colocará no mercado para vender, ficaram surpreendidos com a chegada dos Krahô, em 1995. Cada comunidade recebeu três sementes desse milho, que foram coletadas, na década de 70, junto aos Xavante. Eles multiplicaram esse milho, em áreas que a cada ano vem aumentando mais. No ano passado já foram na EMBRAPA cinco caciques xavante atrás desse material. EMBRAPA está multiplicando essas sementes tradicionais para atender esse tipo de demandas dos índios.

Cerca de quinze aldeias Krahó estão associadas à "Càpej — União das Aldeias Indígenas Krahó". Por sua vez, as aldeias Rio Vermelho, Bacuri e Aldeia Nova fazem parte da Wyty Cati, uma associação à qual estão afiliadas também aldeias de outros povos Timbira: Apinayé, Krinkati, Pykobjê e Apanyekra.

A sede da Càpej (cà = pátio; pej = bom, bonito) está situada num local denominado Centro, próximo da aldeia de Água Branca, dentro da TI Kraolândia. A dificuldade de acesso ao local das reuniões, salvo para aqueles líderes cujas aldeias estão mais próximas do Centro, também denominado Càpej, foi um dos determinantes para a compra, em 1998, de uma casa em Itacajá, cidade vizinha à Terra Indígena, dela apenas separada pelo rio Manoel Alves Pequeno. Nos fundos da casa, que é chamada de Escritório pelos índios, os Krahó pretendem construir uma espécie de abrigo para os estudantes índios que estejam morando na cidade. Possuem também um terreno a que chamam Chácara, nos arredores da cidade de Alto Lindo, município vizinho ao de Itacajá. Os dirigentes da Kàpej têm a intenção de construir neste terreno uma casa de hóspedes, onde os Krahó que estiverem em Itacajá ou Alto Lindo possam usar para pouso. A casa e o terreno foram comprados com o dinheiro proveniente do prêmio recebido pelos Krahó do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), pelo projeto de preservação de sementes de uma das variedades de milho, cujo cultivo e uso em rituais os Krahó já haviam abandonado. Com o dinheiro do prêmio os Krahó também equiparam o Escritório com um microcomputador, telefone e antena parabólica.


A Wyty Cati tem o seu nome inspirado numa instituição Timbira: chama-se wyty o menino ou menina associado respectivamente às mulheres ou aos homens da uma aldeia, e em cuja casa eles podem entrar livremente, principalmente durante os rituais, e que geralmente serve de ponto final das corridas de toras; cati significa "grande". Em suma, a associação seria uma grande casa onde todos podem entrar. Ela tem sua sede junto à cidade de Carolina, no Maranhão. Conta com o apoio do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), que colabora na formação de professores indígenas. A Wyty Cati também está relacionada, junto com algumas associações de produtores rurais do sul do Maranhão e norte do Tocantins, a um projeto que tem por objetivo explorar economicamente os recursos do cerrado, dando-lhe ao mesmo tempo proteção. Os participantes do projeto trabalham na coleta de frutos do cerrado (caju, juçara, bacuri, buriti, cajá, e futuramente araçá, murici, mangaba e bacaba), cuja polpa é extraída, congelada e embalada em Carolina, sendo distribuída sob a marca FrutaSã. O mesmo projeto promove a formação de viveiros de mudas das fruteiras nativas, destinadas ao adensamento do cerrado.

Na aldeia de Pedra Branca, uma ONG, denominada ESAMACITO, desenvolve, com ajuda da Embaixada da Alemanha, um projeto de construção de barragem de pequeno porte para criação de peixes da região, com o objetivo de aumentar a oferta de alimentos. Com ajuda da Embaixada Britânica, a mesma ONG promoveu a construção em Pedra Branca de uma escola, com o nome Caxêkwôi (assim se chamava a mulher-estrela que, segundo o mito, mostrou as plantas que os Krahó deveriam cultivar). A escola recebeu microscópio, telescópio, televisão, videocassete e uma videoteca. Estes aparelhos são alimentados por energia solar, captada através de célula fotoelétrica acoplada a uma bateria.

Em "De longe, toda Serra é azul - Histórias de um indigenista", disponível para leitura em formato doc, encontramos esse bonito relato sobre os Krahô:

No dia seguinte, bem cedo, antes que partíssemos, as mulheres da aldeia fizeram questão de cortar meus cabelos à moda Krahô e me pintar com urucum. Kakró, um ancião da aldeia, colocou um amuleto em meu pescoço e disse, com muita segurança, que nada de ruim iria me acontecer.

Os Krahôs, principalmente as mulheres e os velhos estavam muito assustados. A maioria deles era sobrevivente de massacres ocorridos na década de 40, naquela mesma região e temiam novos ataques. Enquanto cortavam meu cabelo e me pintavam, as famílias juntavam seus pertences às pressas. Disseram-me que, assim que partíssemos, iriam se esconder no mato.

E assim, devidamente paramentado e muito preocupado com o que poderia acontecer, fui para Itacajá acompanhado de quatro Krahôs, entre eles, Milton Krokrok, como havia sido combinado com o comandante.

Ao chegarmos a Itacajá, dirigimo-nos ao hotel localizado na rua principal da cidade, onde estava hospedado o destacamento. Ao estacionar o carro em frente ao hotel houve um rebuliço de soldados e armas. Desci do carro tranqüilamente, sem nenhum receio, acreditando firmemente no que o velho Krahô me dissera: “nada de ruim vai te acontecer!”.

Em seguida, aconteceu uma cena que jamais me sairá da memória: cerca de trezentos Krahôs, entre homens, mulheres e crianças, estavam sentados em plena rua principal, fechando-a totalmente, a uns cinqüenta metros do hotel. Ao notarem nossa chegada, levantaram-se e começaram a caminhar lentamente em nossa direção. Sem pressa, sem raiva, sem nenhuma agressividade, apenas com uma solidariedade sem limites nos gestos, nos olhares, no próprio caminhar. Era como uma mensagem: você não está sozinho!

Os soldados me encaminharam imediatamente para refeitório, nos fundos do pequeno hotel. Ali, sentado junto a uma mesa, estava o comandante do destacamento, um tenente, com quem travei o seguinte diálogo:

– Tenente, sou o Fernando, chefe de Posto da Funai. Estou me apresentando ao senhor, conforme foi acertado com o seu comandante, pelo rádio.

– ‘Tá certo. O senhor deve saber que a sua situação é muito complicada, não é? – respondeu o tenente.

– Tenente, sei apenas que há uma ordem da Funai para que eu abandone a terra indígena em vinte e quatro horas. Sei que ela tem poder para isso. O tempo ainda não se esgotou. Aqui não é área indígena. Portanto, já cumpri a ordem. Existe mais alguma coisa contra minha pessoa, uma ordem de prisão, por exemplo?

– Não, não existe. Mas você deverá abandonar a cidade imediatamente – respondeu.

– Se não existe ordem de prisão, tenente, o senhor não pode cercear o meu direito de ir e vir. Não posso sair da cidade imediatamente. Tenho família, que está na aldeia, tenho negócios a tratar aqui e preciso ficar um tempo.

– Você está complicando as coisas...

– Não estou complicando nada, tenente, é apenas um direito. Concordo em sair amanhã, depois de mandar buscar minha família e resolver alguns assuntos pendentes aqui na cidade. Aliás, concordo em fazer isso apenas para não provocar incidentes envolvendo os Krahôs.

Os líderes Os caciques Krahôs, que também haviam entrado no hotel e presenciado o diálogo, interferiram dizendo que eu não sairia sozinho. Eles próprios, os caciques, iriam me levar até Araguaína, pois queriam apurar quem provocara tudo aquilo. O tenente não teve outra saída senão concordar.

E é Fernando Schiavini homenageia o grande líder Krahô Pedro Penon no presente texto:

"Morreu no dia 07 de fevereiro, na Aldeia Pedra Branca, Terra Krahô, estado do Tocantins, o grande chefe PEDRO PENON. Melhor seria dizer "o grande sábio PEDRO PENON". Na verdade, ele foi as duas coisas: um grande chefe de seu povo até sua maturidade e um grande sábio em sua longa velhice. Penon morreu com aproximadamente 95 anos, como morrem os grandes sábios: apagando-se lentamente como a chama de uma vela, dando conselhos para seu povo até seu último momento de lucidez.

O que sei de sua vida foi contado por ele mesmo, em fragmentos de conversas, durante nossa convivência. Ele era ainda bastante jovem, quando foi praticamente convocado pelo seu povo para assumir a chefia da aldeia Pedra Branca, a maior da três aldeias Krahô existentes naquela época. Ele estava então iniciando seus estudos na cidade de Carolina-MA.. Já sabia ler e escrever razoavelmente e talvez por isso tenha sido chamado. O momento era de extrema gravidade. O povo Krahô acabara de sofrer um grande massacre, desfechado pelos criadores de gado, na região de Itacajá. O ano era 1940. O governo havia mandado tropas para prender os responsáveis pela chacina e falava em criar uma " Inspetoria do S.P.I." no território Krahô, que nem demarcado era. O povo estava amedrontado e sem rumo Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo: soldados do exército, sertanistas, indigenistas, jornalistas, muitas propostas, o governo falando em demarcar um território fixo, que precisava ser delimitado. O momento exigia um líder capaz de entender minimamente toda aquela complicação, que soubesse conversar e negociar com aquela gente. Foi aí que, provavelmente por ser o único Krahô que se arriscara fora de seu povo para estudar, que convocaram o Penon e fizeram dele um " Parrití" (chefe de aldeia), apesar de, na época, ser muito jovem para para o cargo, segundo os padrões Krahô.

Penon se tornou então um grande chefe. Liderou a delimitação do território Krahô, com 320.000 hectares, que representa hoje talvez a maior área contínua de cerrados preservada de todo o Centro-Oeste Brasileiro. Ao perceber que estava demorando muito os trabalhos de demarcação, encetou uma longa viagem a pe´, de sua terra à cidade de Goiânia e daí, em várias conduções ao Rio de Janeiro, onde conseguiu falar com o Presidente Getúlio Vargas.

A terra Krahô só viria a ser demarcada definitivamente em 1951. Penon liderou então a retirada dos inúmeros posseiros que haviam ficado localizados no interior do território e cuidou sem cessar para que eles não retornassem. Além de um grande líder, Penon era também um diplomata. Intermediou durante anos a difíceis e complicadas relações, tanto com os agentes do governo que, de fato, havia instalado uma " Inspetoria " do SPI. na Terra Krahô, quanto com os regionais, apaziguando e acomodando uma situação ainda bastante conflituosa com o seu povo. Assim, angariou fama de homem sério, enérgico, honesto e cumpridor da palavra empenhada, tanto com os funcionários do governo como em toda a região do entorno da Terra Krahô.

Penon permaneceu como chefe da Pedra Branca até o ano de 1985, quando passou a responsabilidade para seu filho mais velho. No dia em que cumpriu esse ato, apoderou-se de um bastão, mais pela simbologia que por necessidade e passou a ser o " mekoré" ( velho, sábio) da aldeia.

Mesmo assumindo o papel de ancião, empreendeu talvez o seu maior feito guerreiro: liderou, no ano de 1987, uma comitiva de jovens Krahô à cidade de São Paulo, em busca da KYIRÉ - a machadinha de pedra semilunar, sagrada para os Krahô, que se encontrava no Museu Paulista. Para isso, permaneceu em São Paulo durante três meses ininterruptos. Todos os seus acompanhantes retornaram após alguns dias de permanência na capital, enviando outros guerreiros em seus lugares. Penon se investira de tal forma da figura guerreira em busca de seu tesouro cultural, que aparentemente nada sentia, as despeito de poucas vêzes ter saído de sua aldeia. Por isso ganhou um apelido de seus companheiros de aventura: " Ikran-ken" - cabeça de pedra. Levou de volta a machadinha e iniciou um longo processo de retransmitir aos jovens as histórias e os cantos a ela ligados.

Aos poucos foi ficando cego, por conta de uma catarata que lhe cobria uma das vistas. A outra já havia perdido há tempos, por causa de uma operação mal feita, realizada por estudantes universitários em Goiânia. Por isso negava-se terminantemente a se operar novamente. O processo de avanço da cegueira consolidou-se definitivamente há cerca de dez anos. Passou então a se locomover pouco, puxado pelo seu velho bastão. Com o tempo, seus membros se atrofiaram e ele não caminhava mais. Mas fazia questão absoluta de participar de todas as reuniões importantes da aldeia, nem que para isso tivessem que carregá-lo nas costas. Jamais se negava, a qualquer hora que fosse, de contar as histórias antigas de seu povo, para quem o procurasse.

Nos últimos anos foi também ficando surdo.. Nenhum tremor de mãos, nenhum gemido, imprecação ou reclamação, a não ser de que seu povo não o procurava mais como antes e ele queria continuar ajudando "com a garganta", como dizia.. Morreu quieto, sereno, como só os grandes sábios sabem morrer .

Tive o grande privilégio de ser amigo e discípulo de Penon por mais de vinte anos. Credito a ele grande parte da minha experiência acumulada e de posturas diante da vida. Considero-o mesmo um grande mestre e ele próprio me contou, há poucos anos, já cego e sem poder se locomover, que tinha constantes visões espirituais e que conversava com PAPAM - DEUS.

Penon vai virar pássaro, quati, tatu, árvore, estrêla ou qualquer outro ser, nas longas histórias orais de seu povo, em sucessivas gerações, queira Deus, através dos novos milênios."

Fonte: Funai. Leiam a tese de Jaime Garcia Siqueira Jr., "Wyty-Catë: Cultura e Política de um Movimento Pan-Timbira", em pdf, e no SCielo a Entrevista com Júlio Cezar Melatti intitulada "Dos Krahô aos Marubo: A Aventura Etnográfica".

O machado sagrado Krahô feito de pedra é único e fica guardado na Aldeia Pedra Branca. Esse objeto sagrado é usado apenas em rituais específicos que reúnem todas as aldeias Krahô. "O machado é de muito tempo, não sei há quantos milhares de dias que ele foi feito. Tem que ter sabedoria do que significa para poder mostrar para quem não conhece", afirma Kruakrai. Para os rituais de menor abrangência, os Krahô utilizam uma réplica do machado feito de madeira.
Em "O canto sagrado da união", por Daniella Borges , da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

7 de novembro de 2007

A Declaração de Ilaló

O Ilaló é um vulcão inativo situado na bacia do rio Guayllabamba, nas proximidades de Quito, Equador. Lá foi assinada no final de outubro a seguinte Declaração, aqui apresentada traduzida ao idioma português:

"Representantes das nacionalidades e povos indígenas de Equador, Peru, Colômbia, Bolívia e Brasil reunidos nos dias 23 e 24 de outubro de 2007 na cidade de Quito (Equador) no Encontro do Direito Maior dos Povos Indígenas da Bacia Amazônica, considerando:

Que os povos indígenas temos vivido nestas terras desde tempos imemoriais, antes do estabelecimento dos Estados modernos;

Que de modo ancestral nos temos regido de acordo a nossas próprias leis, que os povos e nacionalidades chamamos: Direito Maior, Direito Natural, Direito Próprio, lei de origem ou lei natural. Leis que temos aplicado de acordo com nossos usos e costumes, baseados na cosmovisão de cada povo e nacionalidade;

Que há mais de quinhentos anos nossos territórios têm sido invadidos e nossos recursos aproveitados e utilizados sem levar em conta nossos direitos territoriais, ambientais, sociais e culturais,

DECLARAMOS

Que as organizações indígenas de Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Brasil participantes deste encontro internacional sobre o Direito Maior, demandamos aos governos de nossos países e à sociedade o pleno reconhecimento de nosso Direito Maior e sua aplicabilidade em todas as esferas de nossa vida.

Reclamamos de nossos governos ademais, o exercício pleno dos direitos coletivos dos povos indígenas reconhecidos pela legislação nacional e internacional, que sejam eles regulamentados, determinados, e se penalize a aqueles que infringem estas normas.

Respaldamos a proposta de Constituição elaborada pela Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador - CONAIE.

Nos solidarizamos com o governo do irmão indígena Evo Morales, Presidente da Bolívia, e rechaçamos os intentos dos grupos hegemônicos da Bolívia que querem boicotar a Assembléia Nacional Constituinte desse país.

Repudiamos o fato da política de desenvolvimento se encaminhe apenas a geração de lucros econômicas, pondo em grave perigo os territórios indígenas através de projetos de exploração de recursos naturais incluindo atividades petroleiras, mineiras, represas hidroelétricas, as concessões florestais, venda de serviços ambientais, turismo, e a venda de nossos territórios, que afetam não só aos povos indígenas mas sim de modo geral a toda a sociedade.

Nos opomos à presença de grupos armados e à militarização dentro dos territórios indígenas, assim como a criminalizar as organizações indígenas pretendendo tachar à luta democrática dos povos indígenas como parte do terrorismo. De modo particular demandamos a desmilitarização dos atores armados em todos os territórios indígenas da Colômbia.

Instamos aos governos que estão promovendo a liberalização comercial o respeito dos direitos ancestrais dos povos indígenas e, o reconhecimento de que nossos territórios e nossos recursos naturais não estão à venda nem são sujeito de comercialização.

Demandamos que se cumpram os processos de consentimento fundamentado prévio através da consulta prévia informada a qualquer processo que possa afetar nossa identidade social, cultural, ambiental e econômica.

Instamos a que primem nossos direitos sobre os contratos e concessões que possam afetar-nos, e que a conservação da biodiversidade seja uma prioridade frente aos projetos de desenvolvimento.

Denunciamos a presença de organizações conservacionistas em áreas protegidas, que são ao mesmo tempo territórios indígenas, que a nome da conservação decidem sobre o futuro de nossos recursos, pondo em risco nosso patrimônio natural e cultural.

Continuamos exigindo o respeito a todas as formas de vida e repudiamos qualquer intenção de privatizá-la. Também repudiamos os intentos de privatizar a água e os processos de desflorestamento que são vividos em nossos territórios.

Respaldamos o respeito do território e dos direitos humanos dos povos livres, que denominados como povos em isolamento voluntário, os quais não podem ser ameaçados por nenhuma atividade que ponha em risco sua sobrevivência.

Urgimos aos governos a tomarem medidas de recuperação dos ecossistemas degradados em nossos territórios por atividades alheias a nossa cultura.

Demandamos que se tomem medidas para parar as ameaças que vivem as zonas indígenas costeiras, onde se instalaram fábricas de pescado, piscinas camaroneiras, pondo em risco os recursos piscícolas dos quais vivem nossos povos.

Exigimos que os povos indígenas participem no processo de elaboração do currículo educativo, para que reflita uma educação que recolha a sabedoria de nossos povos a partir de uma abordagem intercultural.

Instamos pelo respeito dos conhecimentos e da sabedoria ancestral de nossos yachaj, xamãs e outros nomes que são dados aos sábios que precautelam pela espiritualidade de nossos povos.

Repudiamos e rechaçamos o patenteamento e outras formas de privatização de nossa medicina e saberes ancestrais, de nossas plantas medicinais e de todos os nossos saberes.

Demandamos ao governo da Colômbia pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e pela subscrição da Declaração de Povos Indígenas e:

Condenamos o programa de segurança democrática levado a cabo pelo governo da Colômbia, que tem como objetivo o controle militar dos territórios indígenas, assim como os programas de erradicação de cultivos ilícitos através de fumigações aéreas, as quais atentam contra nossa saúde e nossos recursos.

Exigimos ao governo da Colômbia, negar qualquer licença ambiental que atente contra os recursos naturais, o ambiente e os territórios indígenas colombianos.

Repudiamos a entrega da Licença Ambiental dado pelo Governo do Equador à empresa Petrobrás no Bloco 31, pois esta licença significa prosseguir com o genocídio contra os povos. Exigimos a caducidade do contrato da empresa Petrobrás no Bloco 18.

Apoiamos o processo de recuperação do território das comunidades Tupiniquím Guarani que esteve em mãos da empresa Aracruz Celulose, e instamos ao governo do Brasil que tome as medidas para a restauração integral de seu território.

Afirmamos que nas nações e povos indígenas da América Latina germina a semente de uma civilização alternativa para a humanidade."