16 de abril de 2009

Deu na National Geographic

Menina Awá-Guajá (Maranhão, Brasil)
©1992 Fiona Watson/Survival

"A discreta cicatriz entre a barba e a bochecha esquerda concentra um pouco da história do sertanista José Carlos Meirelles dos Reis Júnior. Ele ganhou a marca nas águas do rio Envira, no oeste do Acre, em julho de 2004. Índios isolados lançaram flechas contra Meirelles enquanto ele pescava. Uma delas penetrou em sua face e saiu no pescoço. Meirelles correu. Mas o único tiro que deu com a arma que levava na mão foi para o ar - um grito de socorro para seus funcionários. No posto da Funai, ele pediu resgate ao Exército. Seis meses depois, recuperado, estava de volta à ativa. Não é dos índios, contudo, que vem a ameaça que mais o faz temer. Conflitos ainda piores se anunciam. Com a intensa atividade madeireira no Peru e a chegada de garimpeiros atrás de ouro, algumas etnias estão em fuga no território brasileiro protegido por Meirelles. Dos quatro povos isolados que se estima existirem na região, três foram fotografados em uma expedição aérea de fiscalização realizada há um ano. As imagens rodaram o mundo. Mas pouco se falou sobre as ameaças reais à sobrevivência desses indígenas. Com o aumento da pressão humana em torno das reservas, diz Meirelles, 'infelizmente, o destino dos índios isolados não está nas mãos deles'.

Quanto tempo ainda os índios isolados vão ter para escolher o momento de iniciar um contato com nossa sociedade?
Depende da pressão que eles sofrem em cada local. No caso da região do rio Envira, onde atuo, espero que ainda haja um bom tempo antes que aconteça esse contato inicial. A pressão sobre eles agora não é mais brasileira, ela vem do Peru, o que gera um problema novo para nós resolvermos. Creio que nestes últimos anos os índios descobriram, no caso particular dos entornos do rio Envira, que nós, da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, da Funai, somos vizinhos diferentes daqueles que eles tiveram no passado e que os caçavam. Não nos temem como temiam seringueiros, madeireiros e garimpeiros. Já não mascaram tanto os vestígios quando andam perto de nossas bases, o que não significa, creio, que haja uma intenção de contato. Temos de ficar atentos a pressões externas e aos sinais que esses povos nos dão para que o futuro contato, se ocorrer um dia, seja o menos traumático possível para eles.

Um ano atrás, foram divulgadas fotografias feitas em uma expedição aérea coordenada pelo senhor. Quais são as conclusões desse trabalho?
O principal é que a terra deles foi demarcada sem nenhum problema, como era o nosso objetivo ao realizar o voo de reconhecimento. As fotos são do grupo que vive na cabeceira do rio Humaitá e nos igarapés da margem esquerda do rio Envira, em território brasileiro. Entretanto, outras fotos do mesmo sobrevoo nas quais aparecem duas malocas dos isolados do igarapé Xinane, oriundos do Peru, foram encaminhadas à Funai para pesquisa. Essas malocas não existiam em 2004, quando sobrevoamos a mesma região. A importância da divulgação é que as imagens podem ajudar a proteger esses povos. A opinião pública tem de entender que tais índios existem, e que temos o dever de garantir o direito deles de permanecer isolados.

Uma vez o senhor foi flechado e por pouco não morreu. Como é a aproximação desses indígenas do posto da Funai?
Eu já vi um bocado de índios da etnia masko piro, que andam pelas cabeceiras do Envira no verão. Uma vez a gente se encontrou sem querer pelas praias e eles correram atrás de nós. Outra vez eles apareceram lá mesmo no posto. Foi em 2004. Mais de 100 homens desse grupo invadiram a casa, mexeram em tudo e foram embora. Mas não levaram nada. Além deles, um outro grupo, o que aparece nas fotos divulgadas apontando flechas para o avião, uma vez invadiu a base e colocou fogo nos telhados. Havia dois trabalhadores no local, e eles tiveram de fugir, à noite, de barco. A ordem, quando acontece uma coisa dessas, é que todos no posto partam imediatamente. A gente tem um barco com motor, com combustível, sempre preparado para uma fuga de emergência.

Logo no início da carreira o senhor fez os primeiros contatos com o povo awa-guajá.
Essa história de que é o sertanista que faz o contato com o índio tem de ser revista. Na verdade, é sempre o índio quem faz o contato. É ele que vai até o branco. Chega uma hora em que o território está tão pressionado que eles não têm mais para onde correr. Foi o que aconteceu com o povo awa-guajá, que estava espremido pelos urubu-caapor e guajajara e pelos arrozeiros que não paravam de chegar ao Maranhão. Os awa-guajá do rio Turiassú fizeram contato com um caçador chamado Antônio Raposo, em 1972, e em 1973 conosco, da Funai, nas cabeceiras do Turiassú. Eles estavam acuados.

Como se dá a aproximação entre culturas tão diferentes?
O contato é uma coisa maluca. Você está no mato e de repente avista três índios pelados te olhando. A comunicação tem de ser por mímica. Depois, os índios encontram todas aquelas coisas que não existem no universo deles, mexem em tudo... Nunca fomos preparados para lidar com essa situação. Eles sofrem dois impactos depois do contato. Primeiro vem a doença. Até criarem resistência, mais da metade já morreu. Outra violência sobre eles é psicológica: nossa tecnologia muda a vida deles radicalmente. É como dar um pulo de 10 mil anos em uma semana. Muitos grupos têm de repensar a própria cosmologia porque veem que aquilo que o pajé falou não é bem assim. Os awa-guajá pensavam que nuvem fosse fumaça de fogo. Mas depois andaram de avião e viram que a história estava errada.

E como é possível controlar essa situação do pós-contato?
Depois do contato o índio vai se relacionar com o "beiradão", ou seja, aquela gente que vive na beira do rio, na fronteira de colonização, uma terra sem lei: a prostituta, o cachaceiro, o madeireiro, o garimpeiro. Não é com um grupo seleto de antropólogos que ele vai conviver. Não é com o pessoal que faz passeata no Rio de Janeiro a favor da Amazônia, com as moças bonitas de Ipanema. Ele vai descobrir de cara o que há de pior na sociedade, concentrado nessas fronteiras. Por isso, a primeira coisa que se deve dar é tempo pra que se adapte às novidades. Junto a isso tem de vir o cuidado com a saúde, pois os índios não têm resistência às doenças que para nós são corriqueiras.

Como era a situação dos povos indígenas no Acre quando o senhor chegou, nos anos 1970?
Quando ali cheguei, em 1976, vi os índios "trabalhando" como seringueiros para os patrões da borracha, e em alguns lugares ainda se faziam as "correrias" (expedições de caça aos indígenas organizadas por seringalistas). Era um regime de escravidão. Para conseguir reverter essa situação, tivemos de oferecer uma alternativa econômica para eles deixarem os seringais. Criou-se um sistema que operava com cooperativas de trabalho. A ajuda financeira possibilitou que eles se organizassem para lutar por suas terras. No rio Iaco, onde trabalhei com os manchineri e os jaminawa, os índios saíram do seringal Petrópolis e foram para um local que hoje se chama Extrema, onde foi criado um posto da Funai. Fizemos a primeira proposta de demarcação do território deles, que quase dez anos depois foi concretizada na Terra Indigena Mamoadate. Isso aconteceu com a maioria dos índios do Acre até quase todas as reservas serem demarcadas.

Em duas décadas na Frente Envira, o que ainda falta fazer?
Já demarcamos três terras indígenas, a Kampa e Isolados do Rio Envira, a Alto Tarauacá e, no final do ano passado, a Riozinho do Alto Envira. O objetivo daquela expedição aérea era verificar a localização dos índios para que essa demarcação física não passasse perto de suas aldeias. Essas três terras somam mais de 600 mil hectares que se estendem ao longo do paralelo 10 graus, fronteira do Brasil com o Peru. A Frente Envira protege quatro povos isolados. Três de etnias ainda desconhecidas que vivem em território brasileiro. E os masko piro, um povo nômade que circula entre a fronteira do Brasil com o Peru.

Tais povos estão protegidos nesse território?
O problema é que agora a gente não depende só da política do Brasil. A exploração ilegal de madeira na fronteira peruana está provocando um processo de migração forçada de outros grupos para as florestas do Acre. Índios isolados estão vindo do Peru para o Brasil, expulsos pelos madeireiros, cuja mão de obra é indígena. São índios aculturados que matam os isolados na floresta, com bala e chumbo. Os isolados do Peru vêm para o Brasil e encontram índios daqui que são parentes desses que atacam eles lá, como os kampa. Isso gera um conflito territorial.

Há indícios de que a Rodovia Transoceânica, que liga Rio Branco, no Acre, ao litoral peruano, afetará esses indígenas?
A rodovia vai, em longo prazo, afetar os indígenas isolados, pois aumentará a pressão e a exploração sobre seus territórios. Pequenos produtores e extrativistas serão deslocados de suas terras e não terão opção senão invadir a terra dos índios isolados à procura de caça, peixe e, principalmente, madeira. Vi esse filme no Maranhão, com a BR-314, que vai de Teresina a Belém. Então, o fim da história é conhecido. Não é a estrada em si, mas seus efeitos colaterais, que não são controlados.

Missões cristãs contataram povos isolados no passado. Como o senhor analisa a presença dos missionários nas aldeias?
Missionário contata índio pra salvar sua alma. Não se preocupa com a terra e imbeciliza os índios. O proselitismo religioso é uma das piores pragas que se pode imaginar para os índios. Se as missões e as ONGs querem ajudar os isolados, que entendam que eles devem ter o direito de permanecer isolados, de ter sua religião. Sua alma não precisa de salvamento.

O senhor está aposentado mas segue em atividade. Como serão as novas gerações de sertanistas?
Na Amazônia, está tudo em extinção: a floresta, os índios e os sertanistas. O ultimo curso que a Funai fez para indigenista foi em 1985. Nossa geração está ficando caduca. Quem vai continuar esse trabalho? Nós temos 70 referências de povos isolados no Brasil, trabalhamos em 22 delas, mas as outras precisam ser checadas. Quem saberá andar no mato para ver se o índio passou por ali? Novas tecnologias ajudam, mas não se pode monitorar a área ocupada pelos isolados via satélite ou por avião. Isso demanda um longo processo, anos de andanças na mata. Esse é um dos trabalhos do sertanista e de seu grupo de mateiros. Ainda não somos totalmente descartáveis. "

Fonte: "Pela liberdade dos índios", Reportagem de Felipe Milanez e Maria Emília Coelho em National Geographic Brasil - Abril de 2009. Foto Survival France

15 de abril de 2009

O neo-caudilhismo e o samba

Na fronteira norte da Bolívia com o Brasil, tanto tenho podido assistir os noticiários televisivos de um como de outro país. Ontem, dia 14, a aprovação da nova Lei Eleitoral boliviana saiu finalmente após longo impasse por parte da oposição que se negava a atender ao texto da nova constituição nacional. No Jornal Nacional, da Tv Globo brasileira, o assunto foi tratado com ironia mencionando-se a propósito o fato de Hugo Chávez, presidente venezuelano, haver recentemente garantido condições de reeleger-se indefinidamente, e agora Evo Morales também poder se reeleger. O senso de ironia dos jornalistas da Tv Globo, entretanto, acaba revelando por suas falhas ou uma falta de informação ou verdadeira falta de interesse por parte deles quanto aos aspectos da história político-econômica da América Latina.

Inequivocamente, a tv boliviana vem exibindo agora documentários venezuelanos sobre a revolução bolivariana proposta por Chávez, alguns dos quais revelando a ação da CIA na América Latina nos tempos da Guerra Fria e sua sanha anti-comunista. O alinhamento do governo Morales com o governo venezuelano, entretanto, deve ser analisado no contexto real da necessidade de formação de um eixo anti-liberal em oposição aos reacionários lobbies neo-liberais imperantes nos países da região (ainda derivados dos acordos oligárquicos instaurados nos tempos das ditaduras militares). O Brasil com o governo Lula "simpático a Bush" esteve sempre em cima do muro, e o papel mais antipático foi ocupado interessadamente por Chávez na Venezuela, e o fato é que o fantasma da ALCA (Associação de Livre Comércio das Américas) parece hoje extinto, sobremodo com a crise econômica mundial desencadeada em 2008. Evo Morales, assim como outros governos mais à esquerda na América do Sul, necessariamente caem na referência chavista mas não devem nem podem ser considerados sob essa ótica estreita sem que se leve em conta que a Bolívia possui características próprias que faz de seus movimentos populares não uma pantomima populista e sim uma autêntica explosão de anseios reprimidos desde a fundação do país há quase duzentos anos já, assim podemos dizer.

Evo Morales não é o presidente mais popular do planeta (quando o presidente Obama fez esse tipo de elogio ao presidente Lula na reunião do G-20 obviamente cumpria com a pauta indicada por seu serviço diplomático que deve te-lo assessorado para tal reunião norteando que tipo de adulação faz gosto aos brasileiros). Nos incidentes do ano passado em Pando, uma leva de bolivianos se asilou no Acre e o que chegou aqui deles aos meus ouvidos é que Evo nem sequer é índio, pois porta seu sobrenome de "branco". Essa alegação dos descontentes exemplifica bem a ignorância e o desconhecimento por parte dos cidadãos de muitos países edificados a ferro e fogo sobre os territórios ameríndios invadidos, de que os indígenas tem pleno direito à cidadania como qualquer outra "classe" de ser humano, e pode ser considerado indígena mesmo se perdeu seu clã, aldeia, território, cultura tradicional, pois se isso se deu foi apenas porque o indígena teve de lutar por sua sobrevivência pessoal, salvar sua própria pele, e por isso aceitou perder tais elementos constituintes de sua identidade. Evo é indígena, intrinsecamente e extrinsecamente, e como primeiro presidente ameríndio, eleito pelo voto popular, na América do Sul e no mundo, cumpre a árdua tarefa de lutar pelos direitos plurinacionais de seu país, não apenas tendo a iniciativa de ratificar a Lei dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas nas Nações Unidas (e diziam que os direitos humanos eram "universais", ora vejam...) mas também de desafiar toda rede de complôs e sabotagens que sempre fizeram da Bolívia, depois do Paraguai, um dos países de maior instabilidade política da região: desde sua independência, sabem os leitores quantos presidentes já possui a República da Bolívia?!...

Portanto, é bom a Tv Globo rever seus conceitos. Neo-caudilhismo é uma coisa, Evo Morales é outra. E como dizia o General Golbery do Couto e Silva, autor da Geopolítica que desde os anos sessenta norteia os ideários da Escola Superior de Guerra, a Bolívia é o hinterland, a "area core" do continente, e merece ser respeitada: quem dominar geopoliticamente a Bolívia, já dizia Golbery, dominará geopoliticamente todo a América do Sul. Que ninguém a domine, dirão meus amigos, que a Bolívia seja dos bolivianos. Em tempos de globalização, mesmo que essa ande capengando, é bom mesmo que a Bolívia tenha suas próprias iniciativas e mostre sua cara: não é, afinal, esse "coração do continente" um quintal dos Estados Unidos ou da Inglaterra ou da Espanha, não um quintal do Chile, não um quintal da Venezuela e nem do Brasil. Pelos meios democráticos, sob as instâncias populares, a Bolívia fará em dezembro próximo eleições livres e gerais, digitalizadas e seguras, e isso está se fazendo por vontade e iniciativa da nação, a fim de assegurar às gerações posteriores um futuro melhor.

À posteridade

"...es la hoja de coca verde, no la blanca.
Esta hoja de coca representa la cultura andina, el medio ambiente y la esperanza de los pueblos.
No es posible que la hoja de coca sea legal para la Coca-Cola e ilegal para otros tipos de consumo medicinal en nuestro país y en el mundo entero
."

Evo Morales Aima, Presidente da Bolívia, na Assembléia Geral das Nações Unidas em 19 de Setembro de 2006.

Fonte: evomorales.net

1 de abril de 2009

Mulheres Andinas e Amazônidas

"Chakana y Otorongo", pintura de Patries Van Elsen

"Nuestros territorios, recursos naturales y medio ambiente vienen siendo amenazados por las empresas transnacionales y desde los gobiernos de turno. Las leyes están siendo diseñadas para promover el saqueo de nuestros territorios a favor de las grandes transnacionales y empresas extractivas..."

Teniendo como escenario el territorio del Valle de Chanchamayo - Satipo, las mujeres indígenas andinas y amazónicas, representantes de las regiones de Ayacucho, Callao, Huancavelica, Huánuco, Junín, Lima y Pasco, nos congregamos los días jueves 12 y viernes 13 de marzo de 2009 en el “Encuentro Macroregional Centro de Mujeres Indígenas Andinas y Amazónicas rumbo a la I Cumbre Continental de Mujeres Indígenas y IV Cumbre Continental de Pueblos y Nacionalidades del Abya Yala”.

Con la finalidad de expresar nuestras preocupaciones, demandas y propuestas más sentidas, las mujeres de la Macro Región Centro.

AFIRMAMOS QUE :

- Nuestros territorios, recursos naturales y medio ambiente vienen siendo amenazados por las empresas transnacionales y desde los gobiernos de turno. Las leyes están siendo diseñadas para promover el saqueo de nuestros territorios a favor de las grandes transnacionales y empresas extractivas.

- Las mujeres indígenas vivimos en constante amenaza por culpa de las leyes que promueven la inversión privada en nuestros territorios, vulnerando nuestros derechos colectivos como pueblos indígenas. Como es el caso, de las concesiones mineras y energéticas (petróleo, gas); el intento de privatizar las aguas; las concesiones forestales; la promoción agresiva de la inversión en el cultivo de canola y otros agrocombustibles, que destruyen y contaminan nuestras tierras; conversión de nuestros suelos en infértiles por el uso de fertilizantes y químicos.

- Las mujeres indígenas andinas y amazónicas somos afectadas por la marginación, discriminación y exclusión. Esto se expresa en la falta de participación y de decisión de las mujeres en los diferentes espacios, desde el hogar, la comunidad, la organización. Por tanto es necesario una mayor atención a las mujeres indígenas para garantizar el respeto de los derechos de las mujeres de forma integral. Especialmente nuestro derecho a la educación; de manera singular en las familias andinas y amazónicas, donde se da más oportunidades a los varones para que estudien y dejan sin educación y en el analfabetismo a las niñas indígenas.

- Asimismo, somos afectadas por el “machismo” que, es una enfermedad impuesta por occidente que se manifiesta como un grave problema familiar y social en nuestros pueblos, comunidades y hogares. El pensamiento machista considera a las mujeres seres inferiores, por tanto no reconoce nuestros derechos, nuestras capacidades y se convierte en un obstáculo para nuestro desarrollo como mujeres, lideresas y madres. Sin embargo, tenemos que admitir que de manera consciente e inconsciente, somos nosotras, las propias mujeres las que reproducimos el machismo.

- En nuestras comunidades también se manifiesta la violencia familiar y la violencia sexual, que son enfermedades sociales; generan traumas irreparables en nuestros hijos e hijas y en nosotras mismas. Quienes somos víctimas de la violencia nos volvemos más inseguras, sumisas, temerosas y desconfiadas, sin capacidad de decidir, proponer y exigir derechos. Es necesario, seguir trabajando para “romper la cadena de la violencia” en nuestras familias, comunidades y en todos los espacios sociales donde nos encontremos.

RECHAZAMOS :

- Toda inversión privada que se promueva y/o ejecute en nuestros territorios sin previa consulta a nuestras comunidades y pueblos, como es el caso del mega proyecto de la hidroeléctrica de Pakitzapango en el valle del Ene-Satipo; de las empresas petroleras del Lote 108, 107 y el Lote 155 de la Selva Central; del Proyecto Toro Mocho con la transnacional Chinalco; la contaminación del Lago Chinchaycocha; la contaminación de los ríos Apurímac, Ene, Mantaro y Perené; la contaminación de plomo en la sangre en la Oroya, el Callao y, en los lugares donde las empresas extractivas estén afectando la salud humana y ambiental.

- La Ley que privatiza las aguas, por ser anticonstitucional y atentatoria de nuestros derechos colectivos y humanos. DEMANDAMOS: La constitución de un Estado plurinacional y multilingüe, que restituya el derecho de los pueblos indígenas/originarios, comunidades campesinas y nativas, el derecho al ejercicio de su libre autodeterminación, derecho consuetudinario. Que nos permita recuperar nuestros derechos que son inalienables, inembargables, e imprescriptibles sobre nuestras tierras y territorios.

Demandamos la intangibilidad de nuestras tierras/territorios, que abarca el suelo, subsuelo, flora, fauna y agua.

Que se declare en emergencia las regiones de la macro centro por la crisis económica que sufren nuestros pueblos a causa de la baja en los precios de la fibra de lana de alpaca, ovino y de sus derivados (cuero, carne, queso, otros); el precio del café, el cacao y otros. Que serán mucho mas afectados por los Tratados de Libre Comercio que no deben aplicarse.

Demandamos la producción y consumo de nuestros productos andinos y amazónicos que garantizan la soberanía alimentaria. No al consumo de productos transgénicos importados.

Demandamos el derecho a la dignificación de las mujeres andinas y amazónicas, con la erradicación de los programas sociales que no permiten el desarrollo de capacidades productivas de las mujeres. La reconversión de los programas sociales que apoyen las actividades productivas de las mujeres indígenas. Erradicar el machismo de nuestra cultura y de nuestras comunidades porque es una ideología externa a nuestros valores como pueblos originarios, que avala la violencia y el maltrato contra la mujer.

Que se aplique e implemente políticas de Estado para la erradicación de la violencia en todos sus niveles, y que promuevan de manera irrestricta la defensa de los derechos de las mujeres contra toda forma y clase de violencia psicológica, física y sexual; y discriminación y exclusión de las mujeres andinas y amazónicas.

Demandamos la Ley de la alternancia y su aplicación con la finalidad que se garantice la participación política de las mujeres, basada en las elecciones internas de las comunidades, respetando la igualdad de oportunidades entre varones y mujeres en la participación a todo nivel.

Demandamos la derogatoria de las leyes que criminalizan la protesta y exigimos que se eliminen los juicios de nuestros dirigentes injustamente procesados.

¡Basta de las concesiones y venta de tierras y territorios sin consultar a las comunidades andinas y amazónicas! ¡Basta del saqueo de nuestros recursos naturales, el agua, gas, petróleo y minerales! ¡La Ley que pretende privatizar el agua, no pasará! ¡Basta de producir agrocombustibles como la canola! ¡No a la contaminación de los ríos y los lagos! ¡Por la defensa de la vida y la biodiversidad! ¡Por el Derecho a la Consulta Previa e Informada! ¡Por la participación política de las mujeres indígenas en todos los niveles!

Satipo, 13 de marzo de 2009.

Fuente: Confederación Nacional de Comunidades del Perú Afectadas por la Minería - CONACAMI

30 de março de 2009

O salto quântico do Jaguar


Um "teaser" bacana esse que acaba de chegar no YouTube: uma onça-pintada (otorongo, jaguar, inu...), que é animal mitológico da maioria das tribos amazônicas, come folhas enteógenas e tem visões...

Fonte: Just Herbs

E Iaçá subiu pro céu...

Arco-íris sobre a floresta de Ulu Baram. photo by AFP / Getty

"Iaçá não queria casar, fazia birra contra o noivo até que sua mãe se irritou e mandou que a menina dormisse ao relento. Naquela noite, o sereno estava forte, Iaçá não aguentou o frio e, chorando, implorou que a mãe abrisse a porta de casa. A mãe abriu furiosa. Matou a filha a pauladas, cortou a cabeça da jovem e jogou o corpo no rio. A cabeça desandou a rolar, rolar, rolar, em volta da casa. Pensava em que se transformaria: fruta ou legume seria comida; rio seria bebida; pau seria derrubada; terra seria pisada; caça seria morta; palha de palmeira, fariam dela uma casa. ‘‘Eu vou ser Lua’’, decidiu Iaçá. Arranjou dois novelos de linha e chamou o urubu que vive na banda de dentro do céu. O urubu aceitou o chamado e voltou para o céu levando os dois novelos de linha. Prendeu uma ponta na cabeça da índia e carregou com os dentes a outra extremidade. Subiu, subiu, subiu ao céu. A cabeça virou a lua, os olhos arrancados pelo urubu transformaram-se em estrelas. E o sangue que caía do céu desenhou o arco-íris... "

Fonte: "Rã-txa hu-ni-ku-ĩ, a Língua dos Caxinauás", obra pioneira da etnografia brasileira por João Capistrano de Abreu.

28 de março de 2009

Planeta Água

Declaração Universal dos Direitos da Água

Art. 1º - A água faz parte do patrimônio do planeta.Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão é plenamente responsável aos olhos de todos.

Art. 2º - A água é a seiva do nosso planeta.Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.

Art. 3º - Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.

Art. 4º - O equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.

Art. 5º - A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como uma obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.

Art. 6º - A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.

Art. 7º - A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.

Art. 8º - A utilização da água implica no respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

Art. 9º - A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

Art. 10º - O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

Esta declaração foi lançada pela ONU no dia 22 de março de 1992, e ainda hoje debatemos se a água é ou não um direito humano!

Visitem o Livro das Águas, do site da WWF.

Ação Ecológica pelo Bom Viver

O presidente do Equador, Rafael Correa, durante entrevista coletiva à imprensa Foto: Marcello Casal Jr/ABr

A Coordenadora Andina de Organizações Indígenas (CAOI), que integra entidades da Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Chile e Argentina, divulgou comunicado no último dia 13 afirmando que a Lei de Recursos Hídricos, aprovada no Peru, faz parte de uma ofensiva neoliberal na região. "Continuemos articulando propostas contra a crise da civilização capitalista. Povos indígenas oferecem o Bom Viver como garantia de sobrevivência para a humanidade", declara a organização.
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Segundo o comunicado, a ofensiva neoliberal recrudesce na Região Andina. Como exemplos, citam a aprovação da Lei Mineira no Equador e a nova Lei de Recursos Hídricos no Peru, assim como a utilização de territórios indígenas na Colômbia como cenário de guerra e a reforma constitucional que desconhece os direitos e a existência dos povos indígenas em debate no Chile.
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"Tudo isso nos obriga a insistir na pergunta: para quem governam os poderes do Estado em nossos países? A resposta é óbvia: para as multinacionais, únicas beneficiárias da globalização neoliberal que impõe tratados de livre comércio que violam gravemente os direitos dos povos indígenas e os direitos econômicos, sociais, políticos e ambientais de toda a sociedade, além de ignorar os mais elementares princípios de soberania nacional", ressalta o documento.

A CAOI denuncia que a aprovação da Lei de Recursos Hídricos faz parte do conjunto de normas emitidas pelo Estado peruano para adequar a legislação nacional ao Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos. "O TLC com o Chile e o que se negocia com a União Européia, que busca também favorecer as multinacionais desse continente para manejar recursos hídricos, vão no mesmo sentido. E constituem graves ameaças para a vida", acrescenta. A entidade afirma que a lei foi aprovada violando um consenso realizado entre organizações camponesas, agrárias e indígenas.

Os indígenas destacam a importância das cabeceiras das bacias. Segundo eles, as águas nascem nos Andes em território de Comunidades Camponesas: "As cabeceiras de bacia devem ser preservadas, protegidas e declaradas como zona intangível e de interesse nacional pelo Estado peruano, igual às zonas semiáridas, biomas com águas, bosques de neblina e todas as fontes de água".

Um outro pedido de ajuda chega do Equador: "Estimad@s amig@s

Necessitamos seu apoio! Em um claro ato de censura, o governo equatoriano fechou a ong "Acción Ecológica". Cremos que a única razão para ter adotado esta decisão é a posição de "Acción Ecológica" contra a mineração, que a parecer conta com o apoio do governo".

Les solicitamos que envíen una carta al Presidente Correa (ver carta tipo abajo) a las siguientes direcciones:

rafael.correadelgado@presidencia.gov.ec

Con copia a:
alexis.mera@presidencia.gov.ec
ffalconi@hotmail.com
info@accionecologica.org


Estimado Presidente Correa:

Por la presente deseo expresarle mi consternación ante la decisión adoptada por su administración de cerrar a Acción Ecológica mediante el retiro de su personería jurídica. Se podría haber esperado una decisión de este tipo de parte de anterior gobiernos caracterizados por ser anti pueblo y anti naturaleza, pero no por parte del suyo. Yo me cuento entre las muchas personas que han aplaudido el reconocimiento de los derechos de la naturaleza y el derecho al buen vivir en la nueva Constitución del Ecuador, promovida y aprobada durante su mandato como Presidente.

A nivel de Ecuador, no existe duda alguna de que Acción Ecológica es una de las pocas organizaciones que a lo largo del tiempo ha defendido los derechos de la naturaleza y de la gente al buen vivir. En el mundo entero es bien conocido el trabajo de esta organización en la defensa de la Amazonía y de sus pueblos contra empresas petroleras tales como Texaco. Todos quienes han estado en contacto con ellos saben de su coraje, inteligencia y dedicación para la protección de la riqueza social y ecológica del país contra los intereses económicos de empresas nacional y transnacionales ansiosas de explotarla de una manera socialmente injusta y ambientalmente insustentable. Todos quienes han tenido el privilegio de trabajar con ellos solo pueden expresar su admiración.

La protección de los recursos naturales y de las personas contra el madereo industrial, la producción camaronera industrial, la exploración y explotación petrolera, las plantaciones de monocultivos de árboles, la biopiratería, la privatización del agua, etc. –tal como lo ha hecho Acción Ecológica a los largo de muchos años- es claramente un mandato de la nueva Constitución del Ecuador. Más aún: es una obligación para cualquier persona, organización e institución en Ecuador.

Por consiguiente encuentro que esta decisión tomada por su administración está en total contradicción con los objetivos establecidos en la nueva Constitución y solo puedo pensar que se trata de un error cometido por alguna persona mal informada dentro de su administración.

Su gobierno es percibido por muchos como uno de los más progresistas dentro de la región y como un ejemplo para muchos otros gobiernos que no respetan ni la naturaleza ni el derecho de las personas al buen vivir. Su gobierno es también un símbolo de esperanza para muchos de nosotros que luchamos por un mundo socialmente justo y ambientalmente sustentable.

Sin embargo, la credibilidad de su gobierno está ahora en cuestión a raíz de este ataque contra una de las más respetadas organizaciones de la sociedad civil de su país: Acción Ecológica.

Confío entonces que usted intervendrá en este tema y que asegurará que se le restituya inmediatamente la personería jurídica a Acción Ecológica, a fin de que puedan continuar haciendo lo que mejor hacen: la protección de los derechos de la gente y de la naturaleza.

Le saluda muy atentamente,
FIRMA
(assinatura e identificação)

Fontes: REJUMA e Adital

27 de março de 2009

A Arte das Aranhas


Nunca viram, entre as ramas das árvores, escondida mas impecável, uma enorme e bela teia de aranha? Repararam alguma vez quando ao amanhecer o orvalho em gotas e o reflexo dos raios de sol fazem-na brilhar como se fosse um tecido de fios de vidro?
Trabalhadora incansável, a aranha passa sua vida tecendo sua teia. É tão hábil, que a mão do homem inveja sua maestria.
Contam que os antepassados dos kaxinawás se vestiam com folhas de planta porque não sabiam fiar nem tecer. Um belo dia uma aranha chamada Basnempöro se apiedou deles e decidiu ajudá-los. Ocorreu-lhe uma idéia mágica: transformar-se em mulher, ir viver com os kaxinawás e fiar e tecer para eles, que isso lhes fazia grande falta.
Assim que Basnempöro se instalou na ladeira, correu a notícia de que havia chegado uma mulher que praticava a arte da fiação e da tecelagem. Os moradores começaram a levar-lhe punhados de algodão, que Basnempöro transformava em vestidos, mantas e tecidos para os mais diversos usos.
Um dia, uma kaxinawá lhe levou quatro enormes jamaxis cheios de algodão e lhe encomendou que lhe fizesse uma rede e várias peças de roupa.
Quatro dias depois, a mulher foi à casa de Basnempöro para receber suas coisas. Qual não foi sua surpresa de ver que estas ainda nõ estavam prontas.
- Que foi que aconteceu ?! – disse a mulher, colocando as mãos na cabeça – Onde estão minha rede e tudo o mais? – E completou:
- Devolva-me o algodão que eu lhe dei!
- Impossível, boa mulher. – respondeu Basnempöro – Eu engoli todo o algodão para...
- Engoliu meu algodão? Você engoliu meu algodão! – interrompeu-a, gritando, a mulher – Você é uma ladrona!
A ingrata não quis escutar a explicação de Basnempöro: Em primeiro lugar, ela precisava engolir o algodão para que uma vez este digerido saísse transformado em fio; só daí podia começar a tecer. A mulher lhe tinha trazido tanto algodão, que a aranha não tivera tempo de transformá-lo em fio. Mas a dona dos quatro jamaxis de algodão estava furiosa e foi de casa em casa contando às pessoas que Basnempöro lhe havia roubado seu algodão.
Os rumores se espalham como o vento, sempre dão a volta e regressam. A aranha se inteirou do que se dizia dela por boca de uma amiga, e ficou muitíssimo aborrecida. Apressou seu trabalho, terminou a rede e as demais peças, e chamou a mulher que a tinha difamado.
- Estão aqui suas coisas. – lhe disse – E também este novelo de linha que sobrou. Pega tudo e vai embora. Sei que você esteve falando mal de mim. Não quero mais nada com você nem com seu povo.
A mulher, envergonhada, se foi sem dizer palavra.
No dia seguinte, Basnempöro foi à casa de sua única amiga e lhe disse:
- Cansei de viver aqui. Quando vim, o fiz com a intenção de ajudá-los. Mas vocês não souberam apreciar minha boa vontade. Por isso nunca voltarei a trabalhar para vocês. Mas você, como foi minha amiga, vou lhe ensinar os segredos do fiar e do tecer. Se quiser, poderá ensinar aos que queiram aprender.
Assim o fez, e depois desapareceu e voltou a usar sua forma original de aranha.
A partir de então, graças aos ensinos que deixou Basnempöro, as mulheres kaxinawás sabem fiar e tecer com grande habilidade, apesar de que talvez jamais alcancem a perfeição e delicadeza da teia de aranha.

Fonte: Terra Brasileira e Gioviluna

16 de março de 2009

O Presidente e o Fumacê


Aqui na fronteira do Acre com a Bolívia posso assistir os canais de tevê boliviano, e tenho notado muitas diferenças midiáticas com relação a tempos passados, em termos de maior abertura cultural, por exemplo, na exibição de uma mostra de pinturas de forte cunho político. Evo Morales esteve em Cobija, capital de Pando intitulada "A Pérola do Acre", na última sexta-feira 13 fazendo fumigações no grande mutirão cívico de combate à dengue, o que é bem bacana de se ver, o presidente da nação soltando fumaça pra todo lado é uma imagem de combate mais do que a usual cena popularesca.
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Comentando o Governo Evo, reproduzo aqui o texto de Selvino Heck, assessor da Presidência da República, na agência Adital:

“Contam que, um século atrás, o ditador Mariano Melgarejo obrigou o embaixador da Inglaterra a beber um barril inteiro de chocolate, em castigo por ter desprezado um copo de ‘chicha’. O embaixador foi exibido num burro, montado ao contrário, pela principal rua de La Paz. E foi devolvido a Londres. Dizem que então a rainha Vitória, enfurecida, pediu um mapa da América do Sul, riscou uma cruz sobre a Bolívia, e sentenciou: ‘Bolívia não existe’. Para o mundo, com efeito, a Bolívia não existia nem existiu depois: o saque da prata e, posteriormente, o despojo do estanho não foram mais que o exercício de um direito natural dos países ricos” (Eduardo Galeano, as Veias abertas da América Latina, p. 163).

Diz matéria de Simon Romero do The New York Times (JB, 08.02.2009, A31): “Na correria para produzir a próxima geração de carros elétricos e híbridos, um fato preocupa montadoras e governos que buscam diminuir a dependência em relação ao petróleo estrangeiro: quase metade do lítio do mundo, mineral necessário para fazer os veículos funcionarem, é encontrado na Bolívia - um país que pode não ter vontade de se render facilmente. A indústria automotiva tem o maior potencial para o uso do lítio, segundo analistas. Como pesa menos que o níquel, também usado em baterias, permite que carros elétricos armazenem mais energia e sejam dirigidos por distâncias mais longas. O Centro de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos diz que 5,4 milhões de toneladas de lítio poderiam ser extraídos da Bolívia. O número cai para 3 milhões no Chile, 1,1 milhão na China e 410 mil nos EUA”.

A Bolívia, sob a presidência do índio aimara Evo Morales, acaba de aprovar em referendo a nova constituição do país, com apoio de mais de 60% dos eleitores. E consagra os direitos da maioria indígena e a soberania nacional.

As mudanças políticas em curso na Bolívia têm consistência política, vêm de baixo para cima, amparadas na organização indígena e nas lutas históricas do povo boliviano, como a COB - Central Operário Boliviana. Mas agora podem estar amparadas também em elementos econômicos, como o gás natural e o lítio, como o foram uma vez a prata e o estanho. Só que a realidade política da Bolívia bem como da América do Sul estão mudando.

Francisco Quisbert, líder de um grupo de mineradores de sal e agricultores na periferia de Salar de Uyuni, maior depósito de sal do mundo, diz: “Sabemos que a Bolívia pode se tornar a Arábia Saudita do lítio. Somos pobres, mas não somos camponeses idiotas. O lítio pode ser da Bolívia, mas também é nossa propriedade”.

Segundo Saul Villegas, presidente de uma divisão da Comibol, agência do Estado que fiscaliza projetos de mineração, a visão de Evo Morales combina defesa dos índios bolivianos com defesa dos índios: “O modelo imperialista anterior de exploração de nossos recursos naturais nunca será repetido. Talvez haja a possibilidade de os estrangeiros serem aceitos como sócios minoritários ou, melhor ainda, como nossos clientes”.

A cobiça internacional está de olho na Bolívia. A Mitsubishi planeja produzir carros usando baterias de íon-lítio. A General Motor, em dificuldades nos EUA, planeja lançar seu Volt, carro que usa bateria de íon-lítio junto com um motor a gasolina. Nissan, Ford e BMW têm projetos semelhantes.

A organização do povo boliviano mais uma vez vai ser colocada à prova. Eduardo Galeano relata em As Veias Abertas da América Latina: “Em 1977, o general ditador Hugo Banzer dizia não à anistia dos presos, dos exilados e dos operários arrojados. Quatro mulheres e catorze meninos, vindos das minas de estanho para La Paz, iniciaram então uma greve de fome. ‘Não é o momento propício, - opinaram o entendidos - já lhes diremos quando…’ Elas sentaram-se no chão. ‘Não estamos consultando - disseram as mulheres -. Estamos informando. A decisão está tomada. Greve de fome sempre tem lá na mina. É só nascer que já se começa a greve de fome. Por lá também haveremos de morrer. Mais lentamente, mas também haveremos de morrer.’ O governo reagiu castigando, ameaçando: mas a greve de fome ativou forças contidas por muito tempo. A Bolívia inteira sacudiu-se e mostrou os dentes. Dez dias depois, não eram quatro mulheres e catorze meninos: mil e quatrocentos trabalhadores e estudantes levantaram-se em greve de fome. A ditadura sentiu que o solo abria-se debaixo dos pés. Foi arrancada a anistia geral” (pp. 289/290).

Nos tempos atuais, algo semelhante parece estar acontecendo ou poderá acontecer, se necessário. Segundo Marcelo Castro, gerente que fiscaliza o projeto de extração do lítio da Comibol, “é claro que o lítio é o mineral que vai nos levar à era pós-petróleo. Mas para trilhar esse caminho, precisamos gerar consciência revolucionária do povo, começando pelo chão dessa fábrica”.

Não por outro motivo, Marcelo Naves escreveu no Blog da Pastoral de Juventude da Diocese de Criciúma, no seu diário de bordo do FSM/2009 - Mística da Indignação, da Luta e do Amor, sobre o Seminário organizado no Fórum pela Rede TALHER de Educação Cidadã: “Foi emocionante ouvir o índio quéchua Diego Pari, vice-ministro de Educação Superior da Bolívia, sobre o processo de transformação que vem ocorrendo desde o MAS, passando pela eleição de Evo e culminando recentemente na vitória do plebiscito. O caminho, para Boaventura de Sousa Santos, pode ter como exemplo o processo boliviano que tem como sujeitos as raízes das Américas: os povos originários.”

Toda atenção, pois, à Bolívia. A Bolívia existe".
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Huni Meka na rede


Assistam o documentário "Os Cantos do Cipó" on line, no Kino Oikos. Pintura de Bane Huni Kuin, jovem xamã representante de seu povo no cenário internacional.

O vídeo é uma conversa sobre cipó (aiauasca), “miração” e cantos. A partir de uma pesquisa do professor Isaías Sales Ibã sobre os cantos do povo Hunikuin, os índios resolvem reunir os mais velhos para gravar um CD e publicar um livro.

Roteiro: Tadeu Siã e Josias Mana
Fotografia: Tadeu Siã e Josias Mana
Montagem: Leonardo Sette
Produção: Vídeo nas Aldeias
Escola: Vídeo nas Aldeias

Contato com Vincent Carelli - Vídeo nas Aldeias: videonasaldeias@videonasaldeias.org.br

15 de março de 2009

Antropofagia Kulina e Alcoolismo


Em minhas andanças deste final da temporada de chuvas na Amazônia, muito pouco tenho podido acessar o blog e por essa inatividade não tenho podido comentar ou publicar algumas notícias referentes à nossa temática central que é a das relações interculturais dos povos ameríndios. Espero poder sanar isto em breve e inclusive referenciar os links internos das diferentes matérias desta publicação virtual, elaborando o índice temático para facilitar a consulta dos leitores.

Um assunto entretanto que teve destaque na mídia televisiva e também internacional, o caso do assassinato de um jovem deficiente mental no município amazonense de Envira, atribuído a um grupo de kulinas que inclusive teriam praticado canibalismo após esquartejar a vítima, merece nossas considerações sobre o que nos permite descortinar sobre a realidade das populações ameríndias nos sertões do Brasil.

O padre Malagrida, um taumaturgo jesuíta italiano que andarilhou pelo Nordeste da colônia portuguesa no século 18, foi o primeiro a contrapor-se ao pensamento formal da Companhia de Jesus (expresso nos Exercícios Espirituais do fundador da ordem, Ignacio de Loyola) ao aperceber-se que a catequização não devia estar voltada aos indígenas e sim aos colonizadores brasileiros que, colocados na distância dos centros urbanos, pouco afeto tinham em relação à ideologia cristã. Faço esta breve menção para explicar o sentimento que consigo discernir nos espaços de convivência atuais entre os povos ameríndios e os ribeirinhos dedicados ao extrativismo na Amazônia. Em uma postagem anterior da passagem de ano, reproduzi aqui neste blog algumas considerações do Padre Paolino, da Prelazia do Purus em Sena Madureira, destinadas ao Senador Tião Viana, do Acre, quando se dizia que os índios contemplados pelos benefícios sociais do governo estavam com isso tornando-se dependentes de viagens mensais às sedes dos municípios acreanos onde se tornavam presas fáceis dos maus exemplos exibidos pelas populações ribeirinhas, em especial o alcoolismo.

Anos atrás, quando permaneci quatro meses nas aldeias hunikuins do Alto Purus (Fronteira Kassianã e Cana Recreio) tive a determinação de não usar bebidas alcoólicas nesse período de convivência, atitude esta que considero ter sido essencial para o sucesso de minha viagem. Na ocasião inclusive participei de uma festa do mariri numa aldeia kulina, onde presenciei um extremado consumo de aguardente mas não me envolvi com esses excessos. Lá na aldeia Fronteira Kassianã eu também testemunharia que, quando do regresso do membro da aldeia que estivera em Rio Branco para capacitar-se como auxiliar de enfermagem e assim atuar junto à população hunikuin, este a título de comemoração junto a seus parentes abrira uma caixa de garrafas de álcool 96 graus para as consumirem alegremente temperadas com suco de limão. Isso me motivou a publicar em 1995 no Peru um ensaio intitulado “Los ìndios del Alto Purus entre el Ayahuasca y el Alcoolismo”.

Em Assis Brasil, no Alto Acre, município que atende populações jaminawas e manchineris da região, fiz este flagrante fotográfico da venda de garrafas de álcool no maior supermercado da cidade. Como se fosse algo natural, as garrafas são oferecidas ao consumidor lado a lado com garrafas de vermute, aguardente e batidas de frutas, o que demonstra haver para a população urbana uma natural conivência com esse tipo de consumo (e venda). O lugar é frequentado tanto por indígenas quanto por visitantes peruanos e bolivianos, e obviamente não se faz distinção entre uns e outros para o livre comércio de álcool hidrogenado. Isto não acontece apenas ali, mas em todos os municípios da região é algo comum, e dificilmente acontece fiscalização por parte das autoridades para coibir essa prática. No município de Jordão presenciei um chefe indígena entrando num bar para tomar uma dose de cachaça e pedindo outra para seu motorista (barqueiro), no caso um hunikuin de quinze anos que inclusive é vegetariano por determinação própria. Saí dali antes de ver se o rapaz consumia ou não a bebida a ele servida pois não sabia se ele teria força de vontade de se negar a esse “brinde”. São, a meu ver, os comerciantes ribeirinhos, tanto os colocados nas cidades quanto os que atendem às aldeias em seus regatões (barcos de comércio), os principais responsáveis pela disseminação deste vício que tanto contamina mentes e cultura desses povos.

Quando estive certa ocasião por ser nomeado chefe de posto indígena da Fundação Nacional do Índio, em 1993, um dos antigos funcionários da Funai em Rio Branco já me advertia que para uma boa convivência com os índios eu devia fazer vista grossa para o problema do alcoolismo, ou estaria me expondo a criar inimizades entre os lideranças ou até mesmo a ser vitimado por algum deles. Essa incapacidade da Funai em lidar com o assunto se extende também às organizações que se dedicam a apoiar as populações indígenas, as quais se engajaram a partir dos anos 70 na luta pela demarcação de terras e na formação de lideranças e entretanto jamais se esforçaram por tratar essa espinhosa questão que representa um grave problema de saúde. Sem incluirem em seus projetos posteriores a devida mensuração de resultados na capacitação dos indígenas em atividades de educação e saúde, essa bola de neve tem sido rolada barranco acima, originando em muitos casos falsas expectativas da capacidade de possuírem as novas gerações o alcance de recursos intelectuais para a autogestão de suas comunidades. Alcoolismo e aculturação andam de mãos dadas na Amazônia, e tanto é a aculturação que leva ao alcoolismo quanto o alcoolismo que conduz à aculturação, isso deve ser deixado bem claro. Enquanto o problema não for enfrentado, talvez por exemplo com a colaboração da República Popular da China, que encontrou em sua medicina tradicional uma planta capaz de curar este vício, estaremos enfeitando o bolo mas não tornando-o capaz de nutrir nossos jovens e crianças como devido.

No caso do município amazonense de Envira, que fica próximo ao município acreano de Feijó, a reportagem evidenciou que os kulinas estavam junto a uma ponte de madeira num caminho de terra consumindo álcool 96 graus com o rapaz que terminou sendo assassinado. Vítimas de intoxicação alcóolica, é de se imaginar que sua interação com o jovem ribeirinho tenha resultado em conflito e briga, e como o jovem apresentava problemas mentais e tampouco tinha como saber se conduzir nessa situação extrema, o incidente resultou em morte. O que se seguiu ao assassinato, ou seja, o esquartejamento da vítima, deve ter sido uma patética tentativa de ocultamento de cadáver por parte dos kulinas alcoolizados, inclusive com incineração dos despojos, o que levou a população de Envira a dramatizar a situação julgando ter acontecido canibalismo, o que condiz com seu imaginário de confronto com as populações ameríndias desde a chegada dos primeiros colonizadores ao Brasil. Aqui havia sim, antropofagia ritual por parte de muitas etnias, mas nunca o canibalismo tal qual imaginado pelos europeus da Idade Média.

O fato jornalístico difundiu-se na mídia internacional com esse viés espetacular de crime bárbaro e hediondo. Os fundamentos da questão, entretanto, não foram considerados: quem são os madihá kulina, quem são os ribeirinhos dos pequenos municípios da Amazônia, qual grau de aculturação ambos grupos encontram-se submetidos, qual a situação do comércio de bebidas alcoólicas na região e quais atividades de combate ao alcoolismo implementadas pelas instituições dedicadas à educação e saúde dessas comunidades. Vinte anos após o lançamento da Aliança dos Povos da Floresta, temos que ficar com as considerações do brasilianista Roberto Mangabeira Unger, hoje Ministro de Assuntos Estratégicos do governo brasileiro, no esboço de proposta de seu “Projeto Amazônia”:

Grande parte da Amazônia está reservada aos indígenas. Destinatários de terras, os indígenas estäo, entretanto, desfalcados de instrumentos e de oportunidades. Negam-se-lhes os meios para fazer algo com as terras que lhe säo reservadas. Sem condiçöes para progredir ou sequer para sustentar-se, ameaçam afundar na desagregaçäo social e moral - no ócio involuntário, no extrativismo desequipado, no alcoolismo e no suicídio. Estranha combinaçäo de generosidade e de crueldade, essa com que os tratamos.
A transformaçäo da Amazônia deve vir acompanhada pela libertaçäo dos indígenas. Libertá-los näo é apenas dar-lhes terras e proibi-los de usá-las. Libertar-los é assegurar-lhes os meios para educar-se (em mais de uma língua e mais de uma cultura), para empreender e para associar-se com os governos e os empresários que lhes possam servir de sócios. O soerguimento dos povos indígenas será um dos indícios mais importantes de êxito na transformaçäo da Amazônia”.

Para se saber mais a respeito, leiam: "Pajé yawanawá nega prática de canibalismo entre kulina do Envira", "Índios Kulinas negam Canibalismo" e Blog do Brasiliense.