1 de junho de 2009

Levantamento do Abya Yala !

VII Encontro do Condor e da Águia em março de 2009 na Bolívia

Após cinco dias de intensos debates sobre a problemática e perspectivas dos povos originários, cerca de 6500 delegados e integrantes das organizações nativas de 22 países reunidos em Puno, Peru, encerraram a IV Cúpula Continental de Povos e Nacionalidades Indígenas do Abya Yala, a mesma que culminou com a emissão da Declaração de Puno.

Entre seus principais acordos, a Declaração de Mama Quta Titikaka (Lago Titicaca) decidiu mobilizar às organizações em defesa da luta dos povos indígenas da Amazônia peruana e organizar na primeira semana de junho plantões em frente às embaixadas do Peru em cada um de nossos países.

De acordo com a declaratória indígena, a razão é exigir uma solução e a não-repressão para os povoadores originários. “Nessa direção as organizações indígenas e camponesas do Peru acordamos um imediato levantamento nacional dos povos do Peru em junho de 2009 pela derrogatória dos decretos anti indígenas gerados pelo Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos”.

Os participantes acordaram também enfrentar a criminalização dos protestos, a militarização, as bases estrangeiras, transferências forçadas e genocídios nas comunidades nativas. Propôs, além disso, uma ampla mobilização pela anistia dos líderes e dirigentes processados e encarcerados.

O texto das conclusões prevê respaldar e ampliar as denúncias apresentadas perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o Comité de Erradicação da Discriminação Racial da ONU. Igualmente, impulsionar o juízo internacional aos governos de Colômbia, Peru e Chile, ao governo de Álvaro Uribe Vélez pelo genocídio dos povos indígenas colombianos; também ao Estado chileno pela aplicação da lei antiterrorista, perseguição e judicialização da demanda mapuche, os crimes sobre líderes mapuches e a militarização do Wallmapu. No caso do mandatário peruano Alan García, a declaração propõe um processo pelo auto-golpe legislativo dos 102 decretos pró-TLC para privatizar os territórios indígenas e os mais de mil líderes perseguidos e enjuizados.

A resolução final rechaça os Tratados de Livre Comércio de Estados Unidos, Europa, Canadá, China e outros países, com nossas economias quebradas, como novos cadeados de submissão para os povos e saqueio da mãe Terra.

O encontro histórico contou com delegações convidadas de África, Estados Unidos, Canadá, Círculo Polar e outras partes do mundo, além de uns 500 observadores de diversos movimentos sociais.

Os presentes plantearam a construção de uma alternativa de vida frente à civilização da morte “para projetar-nos ao futuro, com nossos princípios e práticas de equilíbrio entre os homens, mulheres, Mãe Terra, espiritualidades, culturas e povos, que denominamos Bem Viver / Viver Bem”.

Assim como ocorre na Bolívia, a IV Cumbre Continental Indígena propôs a construção de Estados Plurinacionais Comunitários, que se fundamentem no autogoverno, a livre determinação dos povos, a reconstituição dos territórios e nações originárias.

Deste modo os assistentes decidiram uma Mobilização Global de 12 a 16 de outubre próximo em defesa da Mãe Terra e dos povos, contra a mercantilização da vida (terras, florestas, água, mares, agrocombustíveis, dívida externa), contaminação (transnacionais extrativas, instituições financeiras internacionais, transgênicos, pesticidas, consumo tóxico) e a criminalização de movimentos indígenas e sociais.

A Declaração de Puno propõe construir um Tribunal de Justiça Climática que julgue às empresas transnacionais e os governos cúmplices que depredam a natureza, saqueiam seus bens naturais e vulneram seus direitos, como o primeiro passo até uma Corte Internacional sobre Delitos Ambientais.

Nesse mesmo sentido, a Declaração propôs organizar, durante a Convenção de Mudanças Climáticas de Copenhague, em dezembro de 2009, uma Cúpula (Cimeira) Alternativa em defesa da Mãe Terra para pressionar por medidas efetivas, perante a hecatombe climática, como a consolidação de territórios indígenas, bem viver e consulta e consentimento prévio, assumidos como estratégias para salvar ao planeta. Também foi decidido:

* Realizar a V Cúpula de Povos Indígenas de Abya Yala em 2011 no Qollasuyu, Bolívia.

* Constituir a Coordenadora de Povos e Nacionalidades Indígenas do Abya Yala, continuando o processo de conformação de baixo para cima, conformando comissões de mulheres, adolescentes, crianças, jovens e comunicadores indígenas, e em especial da articulação regional na América do Norte.

* Fortalecer seus sistemas de educação intercultural bilingüe e de saúde indígena.

* Respaldar a luta dos povos do mundo contra os poderes imperiais, o que inclui o cessar do bloqueio a Cuba, a saída de Israel de territórios palestinos, os direitos coletivos dos povos Masai, Mohawk, Shoshoni, Same, Kurdo, Catalão, Basco, dentre outros.

* Realizar a I Cúpula de Comunicação Indígena em 2011, no Cauca, Colômbia; a I Cúpula Indígena da Água; Cúpula de Comunicadores Indígenas, e a II Cúpula Continental de Mulheres Indígenas em 2011 no marco da V Cumbre de Pueblos Indígenas.
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Fonte: Los Andes

Pensamento Não-Linear

"O modelo de pensamento em espiral é o modelo de pensamento dos povos indígenas, é a alternativa ao modelo de pensamento linear desenhado pelo racionalismo europeu, e a filosofia positivista, causante do modelo mental existente no mundo ocidental nos últimos 400 anos.

O modelo de pensamento linear é altamente determinista, assim como também reducionista toda vez que descompõe o total em pequenas partes, reduzindo as interações entre elas. Considera o todo composto de partes independentes. O modelo de pensamento linear hoje é contraditório, já que os novos conhecimentos do mundo contemporâneo nos revelam que nosso universo está constituido basicamente por sistemas não-lineares em seus níveis físicos, biológicos, psicológicos e sociais. Nosso universo está formado por partes conectadas através de uma profunda interação e cuja identidade é a harmonía e o equilíbrio.

O modelo de pensamento linear se baseia nos princípios matemáticos elaborados originariamente pelos filósofos gregos e mais tarde por René Descartes, o qual chegou a postular que nosso pensamento deveria alcançar a racionalidade das matemáticas, não entendendo que as leis matemáticas não podem ser aplicadas aos sistemas e estruturas da natureza construídas por partes relacionadas intimamente umas com as outras.

As matemáticas são um conhecimento abstrato, pois permite mentalmente fazer abstração do todo e reduzi-lo a suas partes e considerá-las independentes do resto para estudá-las prescindindo das restantes particularidades que tem a natureza das coisas.

O modelo de pensamento linear não nos permite conhecer cabalmente os processos do comportamento humano, suas atitudes e sentimentos, assim como sua criação cultural. Por isso então a necessidade do pensamento não-linear, ou pensamento em espiral, o qual nos permite conhecer a natureza das coisas sem abstrações, com todas suas partes conectadas umas com as outras. O modelo de pensamento em espiral deveria ser o modelo de pensamento aplicado às ciências sociais, e às relações humanas que são muito mais complexas que as abstrações matemáticas.

O pensamento linear aplicado à história e ao desenvolvimento de nossos povos indígenas não faz mais que simplificar sua realidade, rompendo a coerência e a lógica de seus 500 anos de resistência cultural.

A metodologia da espiral capta as relações estruturais e sistêmicas, ingressando de modo pleno às metodologias quantitativas. O modelo em espiral ajuda a resolver os problemas gerados entre a teoria e a prática e também os problemas entre a ação e a reflexão.

O modelo em espiral permite gerar e compartilhar conhecimentos e experiências coletivamente, e em cada contexto tanto os indivíduos como o coletivo se desenvolvem simultaneamente. Em um modelo em espiral o conhecimento e os processos históricos, podem começar em qualquer ponto da espiral e nunca terão um fim.

O modelo de pensamento e ação em espiral é inclusivo e permite conectar o presente com o passado, e no caso dos povos indígenas permite compreender a factibilidade de construir futuro voltando ao passado; vale dizer às raízes de seu desenvolvimento como povo.

Em outra ordem de coisas o modelo de pensamento e ação em espiral permitem un melhor entendimento de problemas próprios da administração e controle dos recursos, bem como dos riscos. Também é possível aplicar o modelo de planificação em espiral na alta tecnologia.

O modelo de ação em espiral centra sua preocupação na comunicação e no diálogo, e nos processos de planificação adota uma metodologia colectiva, como também na organização de recursos, análises de riscos e possíveis alternativas. O modelo busca a criação coletiva de estratégias de avaliação, e finalmente, o modelo gera a partir do coletivo a construção de hipóteses e teorias.

A cultura dominante entrou em uma profunda crise de identidade, e também o modelo de pensamento linear iniciado pelos filósofos gregos e mais tarde desenvolvido pelos europeus. Eles vieram negando permanentemente a existência de uma filosofia indígena, relegando-a à categoria de cosmovisão, folclore, ou pensamento mítico.

O mundo contemporâneo descobriu novas formas de conceitualização e de representações simbólicas, que tornam possível falar com propriedade de uma filosofia dos povos indígenas, que inclui suas práticas habituais, suas normas, valores, crenças, estruturas epistemológicas, tempo e espaço.

O modelo mental do homem ocidental se centrou na palavra, enquanto que o ser indígena pensa em símbolos, atos concretos e ritos. Podemos então afirmar que a filosofia dos povos indígenas tem sua origem na experiência vivencial de todo o povo, em suas categorias de tempo e espaço, que também têm conotações distintas ao pensamiento europeu.

A experiência vivencial do homem indígena mais que racionalista, tem que ver com seus sentimentos e emoções ligados estreitamente com a mãe natureza, a ñuke mapu ou pacha mama.

Estamos dizendo que ol mundo indígena se concebe em espiral, e nesse sentido tampouco se concebe a unidirecionalidade dos processos cósmicos, da história ou dos processos sociais. No modelo mental indígena o tempo também é cíclico, responde à espiral, e é começo e fim ao mesmo tempo. A vida e a morte também são realidades complementárias e não antagônicas.

O espaço é uma rede interconectada de relações cósmicas, naturais e humanas. No modelo mental indígena o homem vive no tempo e no espaço. O homem não está sozinho na terra. O tempo é só uma relacionalidade cósmica e sempre presente no espaço. O futuro não é algo que está por vir nem o passado algo que se foi. Os mapuche dizem que o tempo vem.

De modo então que o tempo no mundo indígena não é unidirecional de passado a futuro, mas sim bidirecional. O futuro pode estar atrás e o passado adiante ou vice-versa. O homem indígena vive o presente em uma realidade de contínuo movimento cíclico da natureza e de sua cultura. O We tripantu da nação mapuche, é um renascimento natural, o término do ano é o início de uma nova vida e não a soma de anos acumulados.

O Universo indígena é uma rede viva pela qual circula a todo momento a energia, e a informação sob uma ordem autorregulada pela própria natureza das coisas. No pensamento indígena tudo está interconectado, nada está separado do todo. O mundo indígena se rege por quatro princípios fundamentais: princípio da dualidade, princípio da oposição complementária, princípio cosmológico, e o princípio da vida comunitária.

Princípio da dualidade:
Na sociedade mapuche os fundadores cósmicos estabeleceram a dualidade das coisas. Os contrários não são antagônicos mas sim complementários. Eis aqui os quatro primeiros seres que deram origem ao homem mapuche.
Eles eram masculino e feminino. Ademais eram jovens e velhos: Ngen Fucha e Ngen Kushe, espírito masculino ancião e espírito feminino anciã; Ngen Weche e Ngen Ullcha, espírito jovem masculino e espírito jovem feminino.
O território se organizava em função desta mesma dualidade: Picunche, gente do norte e Williche, gente do sul, Puelche gente do leste e Lafkenche gente do oeste ou do mar. Também havia a conotação espacial de acima e abaixo: Wenumapu, Minche mapu. Podemos entender então que na natureza tudo está emparelhado, homem- mulher: wentru-domo. Para os povos indígenas a dualidade das coisas constitui a base fundamental da unidade na diversidade natural e humana.
A unidade se produz porque os aparentes contrários no modelo mental indígena, são parte da complementariedade.

Princípio da oposição complementária:
A lógica dos opostos duais no modelo mental indígena só pode ser entendida sob o princípio da oposição complementária.
O homem indígena vê na natureza essa complementariedade dos opostos: dia e noite, semeadura e colheita, montanhas e vales, espaços micro e macro, indivíduo e coletivo, vida e morte.

Principio Cosmológico:
A Ñuke Mapu é o espaço, o tempo, a cultura e a história da nação mapuche. O princípio cosmológico se organiza na Ñuke Mapu em sua dimensão espacial, temporal, cultural e histórica. O Wenumapu é a parte espacial de acima, estreitamente ligada a Minche Mapu, a parte de mais abaixo e interna da terra.
Tudo está interconectado no modelo mental indígena, nada está separado. O homem indígena nos começos de sua existência olhava o espaço celeste pelas noites, e conseguiu descer as estrelas, as constelações e a Via Láctea (Wenuleufu) para organizar a sociedade indígena à imagem e semelhança desse cosmos que o viu nacer.

Princípio da vida comunitária:
A formação social, econômica e cultural dos povos indígenas tem sua base no desenvolvimento da vida comunitária. O conhecimento ancestral, a vida espiritual, as práticas, a cosmologia e os valores culturais, são todos elementos próprios do princípio da vida comunitária.
A Nação Mapuche dava solução a seus problemas e satisfação a suas necessidades através do princípio comunitário. Eis aqui só as práticas mais comuns: o nguillatun, o kollagtun, o machitun, o palin, o trawun, e o mingaco. O mesmo acontecia com as nações indígenas do centro e norte do cosmos americano.
No modelo mental dos povos indígenas, o pensamento privilegia a experiência pessoal e coletiva. Os indígenas vivem das experiências reais mais que do abstrato. Se reflexiona sobre a experiência, chegando a ser esta a base fundamental de todo novo conhecimento.

Este artigo é a síntese de um trabalho maior que ainda estou preparando. Se trata de aprofundar sobre o conhecimento ancestral de nossos povos originários e descobrir o paradigma alternativo, que permita resgatar a verdadeira identidade ameríndia de nossos povos do cosmos sul-americano. "
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Ensaio de Victor M. Gavilán, Coordenador do Comitê de Apoio à Nação Mapuche em Calgary, Canadá. Fontes: Servindi e Visión Chamánica

30 de maio de 2009

A pintura indigenista de Guzmán de Rojas

"Cristo Aymara" - Guzmán de Rojas (Potosí, 1899 - La Paz, 1950)

"O indigenismo pôde ser visto durante muito tempo como parte de um movimento latino-americano de conteúdo nacionalista, antiimperialista e de crítica social, que se expressou inicialmente com grande intensidade na arena cultural. O indigenismo associado à crítica social marcou as sociedades em que havia desagregação de valores culturais e sociais tradicionais das comunidades e lutas internas de caráter classista e étnico. Este movimento, por um lado, buscava raízes e identidade nas origens históricas da América Latina e, ao mesmo tempo, na modernização que se dava através de vínculos com as vanguardas artísticas nas primeiras décadas do século XX. José Carlos Mariátegui assinalou ainda que era preciso realizar uma distinção entre o indianismo como produção cultural realizada pelos próprios índios através de seus códigos, do indigenismo como a vasta criatividade do lado ocidental das nações andinas buscando informar sobre o universo, e o homem indígena a partir de outras posições sociais e culturais e, nesta perspectiva, obra de mestiços no sentido histórico, social e cultural."
(Everaldo de Oliveira Andrade, in "O muralismo do boliviano M.Alandia Pantoja")

Cecilio Guzmán de Rojas é sem dúvida alguma o mais importante pintor boliviano e o mais influente da primeira metade do século 20. Começou a pintar aos 19 anos e logo foi discípulo de Avelino Nogales em Cochabamba, aquele que foi o mais destacado retratista boliviano do século anterior. Quando em 1919 Guzmán de Rojas imortaliza a um simples mendigo de rua com uma expressão de dignidade e orgulho mais que de pobreza, marcava o início de uma nova etapa na arte boliviana e na arte latino-americana com a utilização do indígena como elemento plástico protagônico em uma obra de arte, que o artista no caso utilizou com o chamado indigenismo, de importância decisiva na plástica nacional entre as décadas de 1930 e 1950, e depois nos artistas que fizeram parte da chamada Geração de 52, pós-revolucionária, onde havia maior liberdade de expressão só mais tarde cerceada pelos governos ditatoriais de turno na Bolívia.

Este pintor indigenista, a quem se deve a recuperação do índio como valor estético na pintura dentro de seu país, depois de receber sua primeira formação artística dos mestres Nogales e Georges Mattewie, recebeu bolsa do governo espanhol para completar seus estudos na Academia de San Fernando de Madri, estudos que prosseguiu logo na Escola de Artes e Ofícios de París. Após esta formação acadêmica, até hoje pré-requisito de sucesso para os pintores da América Latina, voltou a sua terra como Diretor Geral de Belas Artes (1932) e professor da Escola de Artes e Ofícios de sua cidade natal, Potosí, onde também fundou o Museo de Arte Retrospectivo. Em 1946 retornou a Europa convidado pelo British Council de Londres para realizar estudos de restauração de obras de arte.

Seis últimos anos foram passados na Bolívia dedicado ao estudio e experimentação de técnicas de pintura. Trabalhou as técnicas de óleo sobre tela, têmpera, aquarela, pastel, água-forte, gravado, desenho e técnicas mixtas experimentais. Realizou várias exposições também na Espanha, Chile, Argentina e nos Estados Unidos, antes de falecer em 1950.

O indigenismo como movimento cultural, ao disseminar-se pelos países andinos de maiorias indígenas, foi um dos elos que atraiu a atenção para as temáticas sociais. sendo que Guzman de Rojas era muito ligado ao indigenismo literário de Gamaliel Churata do Grupo Orkopata. Característico de sua pintura foi o realce do elemento indígena, como se pode ver em suas obras "El triunfo de la naturaleza" (Museo Nacional de Arte, La Paz) e "El beso del ídolo" (Casa de la Moneda, Potosí). Outros de seus quadros famosos são "Fruta paceña" e "Poemas de raza". Em sua carreira trabalhou a composição estrutural e a estilização próxima ao cubismo. A pintura "Ñusta", de 1931, representa a uma mulher de classe alta vestida como uma nobre do passado boliviano pré-colombiano. Depois da fracassada Guerra do Chaco contra o Paraguai (1932-1935), o estilo de Guzmán se tornou agressivamente expressionista, ao representar o sofrimento dos nativos na seca região do Chaco. O artista regressaria depois a seu estilo indigenista, como na pintura "Cristo Aymara", que parece arte colonial quanto à cor, composição e o uso de "pan-de-oro".

Durante os anos 40 Guzman se inspiraria em Machu Picchu para criar obras no estilo de cubismo sintético. Também pintou cenas do lago Titicaca neste estilo. Assim, Guzman defendeu o indigenismo durante sua carreira, especialmente em seus postos na Academia de Belas Artes de seu país. Na Bolívia o indigenismo tornou-se o estilo preferido das classes altas, as quais entretanto estavam separadas culturalmente da gente que esta arte representava. Foi o pintor mais influente entre seus contemporâneos, e su importância ainda. Na corrente indigenista por ele inaugurada sobressaem Jorge de la Reza (1901-1958), Jenaro Ibáñez (1903-1982) e Mario Illanes (1900-1960). Guzman de Rojas aparece como verdadeiro herói nacional na nota de dez pesos bolivianos, e seu filho Ivan Guzmán de Rojas, renomado matemático e linguista, é o responsável pelo Qopuchawi, um software para traduções multilinguisticas via ICQ que pode ser conhecido através de seu site ATAMIRI.

Visitem: HOMENAJE A CECILIO GUZMAN DE ROJAS (1899-195O)

29 de maio de 2009

Novas sementes

Na Grã-Bretanha, durante a redação dos Enclosure Acts, Tomás Morus escreveu: “As ovelhas comem os homens”. A terra até então cultivada para o exclusivo sustento alimentar desaparecia pouco a pouco em favor de cultivos para produzir lã e matéria-prima destinada aos proprietários de terra e às fábricas.

Hoje são as máquinas que comem os homens”, conta Vandana Shiva. “A terra está destinada à construção de rodovias, estacionamentos ou outras infraestruturas. A extração do ferro e da bauxita está destruindo os ecossistemas, e as perfurações para extrair petróleo devoram a terra”.
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Em seu último livro, a famosa cientista indiana lança um doloroso apelo resumido já no título: “Ritorno alla Terra” [Retorno à terra, em tradução livre], Editora Fazi.
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A seguinte reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 12-05-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto:
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Com uma visão radical, Shiva prega uma drástica redução dos combustíveis fósseis, privilegiando energias renováveis ou até animais, o fim das monoculturas e dos transgênicos para se voltar a uma agricultura biodiversificada, não intensiva e sem fertilizantes químicos. A famosa cientista indiana, que participa junto com Ralph Nader e Jeremy Rifkin do International Forum on Globalization, gostaria que cada comunidade local voltasse a ter sua autossuficiência alimentar, chegando quase a abolir o “food-miles”, a viagem realizada pelos alimentos até o prato dos consumidores, que torna os agricultores dependentes das exportações e contribui para o aumento do gás carbônico.
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“Há muitos especialistas que ainda me criticam, defendem que as minhas teorias são irreais e nos reportariam para a época pré-industrial”, admite Shiva, que na quinta-feira estará em Bolonha para uma palestra do ciclo “Regina pecunia”, sob o título “A maldição dos pobres”. “Porém, a emergência alimentar é tal que finalmente se deverá levar em consideração também as soluções mais criativas”. O preço do trigo aumentou em 130% nos últimos dois anos; o do arroz duplicou. Em 2008, pela primeira vez há muito tempo, houve 33 revoltas populares no mundo por causa do aumento dos preços da produção de alimentos, e potências como a China iniciaram a compra de terrenos nos países do Terceiro Mundo para garantir o alimento às gerações futuras.
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“A terra se tornou a área chave dos conflitos. É um recurso limitado, que não pode ser estendido. Os terrenos férteis estão desaparecendo em uma velocidade que a humanidade nunca conheceu antes”. O livro que Vandana Shiva apresentará (...) é uma acusação contra os “ecoimperialistas”: multinacionais e governos que ignoraram “as regras de Gaia para obedecer à lógica do lucro”.
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A crise dos subprime e a recessão, diz, podem ser a oportunidade para reinventar as nossas economias. “Desenvolvemos uma economia financeira centenas de vezes superior aos valores dos bens e dos serviços reais produzidos no mundo. Nunca antes as ações de uma parte da humanidade ameaçaram a existência de toda a raça humana”.
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Apesar disso, Vandana Shiva é otimista. O fato de que haja agora uma horta biológica e um presidente que se professa “green” na Casa Bianca a tranquiliza. “Mas é preciso estar atentos às pseudossoluções, que são apenas paliativas”. Contrária, por exemplo, aos biocombustíveis, “que roubam terras dos agricultores e não resolvem a crise climática”, essa física indiana de 57 anos defende que é preciso “se libertar do ouro negro” e favorecer uma “transição do petróleo para a terra”.
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“O aumento de catástrofes naturais ou o risco de epidemias como a gripe suína – continua – demonstram que o homem não pode negligenciar, como fez por dois séculos, a relação com a Mãe Natureza. Esquecemo-nos de ser cidadãos da Terra, e a crise climática é uma consequência do nosso distanciamento de um estilo de vida ecológico, justo e sustentável”.
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Dura, peremptória, Vandana Shiva entrou muitas vezes em conflito com a comunidade científica e o governo indiano, como quando rejeitou a famosa “Revolução Verde” iniciada em 1966. Há 20 anos, teve uma outra ideia: conservar sementes de muitas plantas que corriam o risco de desaparecer “para criar um futuro diferente daquele previsto pela indústria biotecnológica”. Ao longo da sua evolução, explica, a humanidade se nutriu de cerca de 80 mil plantas comestíveis. Mais de três mil foram consumidas de uma maneira constante, mas agora dependemos só de oito cultivos (sobretudo de milho, soja, arroz e trigo) para produzir 75% dos alimentos mundiais.
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“Nos bancos de sementes, temos culturas, como o milho, que podem suportar secas extremas, um tipo de arroz que alcança mais de cinco metros de altura e que pode sobreviver às enchentes da bacia do Ganges, um tipo que resiste à salinidade, que distribuímos depois do ciclone Orissa e do Tsunami”.
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A fazenda guiada por Shiva (na Índia, na fronteira com o Nepal e o Tibete) se tornou um modelo de biodiversidade e de sustentabilidade econômica, mesmo que muitos especialistas duvidem que seja possível aplicá-la em grandes números. “Na nossa cooperativa agrícola – relata Shiva –, as culturas não têm doenças, a terra é resistente à seca, e o alimento produzido é delicioso. Os bois aram a terra e a fertilizam. Abolindo os combustíveis fósseis da nossa fazenda, descobrimos a verdadeira energia: a da micorriza [associação simbiótica de fungos e raízes de plantas] e das minhocas, das plantas e dos animais, todos alimentados pela energia do sol”.
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Na fazenda, há pelo menos novas culturas. Navdanya significa, de fato, “novas sementes”, mas também “o novo dom”. Não importa quantas canções vocês têm no seu iPod, quantos automóveis há na garagem de vocês ou quantos livros há em suas prateleiras – conclui Vandana Shiva. O que resta da vida sem um terreno fértil?”. Talvez hoje, finalmente, alguém se disponha a ouvir essa pergunta.
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(Ecodebate, 15/05/2009) publicado pelo IHU On-line, 13/05/2009 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.] Leiam também: Entrevista de Vandana Shiva em Il Manifesto.

28 de maio de 2009

Contra a extinção da humanidade

Turé na aldeia Espírito Santo. Foto: Vincent Carelli, 1982.

O historiador indígena Edson Brito, também conhecido como Edson "Kayapó", está a todo momento pensando na humanidade e na natureza como um Todo. Sabe que o tempo corre contra ele e seus parentes. E tem convicção também que esse tempo, "civilizatório científico-capitalista", corre contra todos os humanos. Para ele a atual crise econômica é agravante de um colapso civilizatório muito maior, que tem longas raízes históricas, científicas e filosóficas. Trata-se, portanto, de uma grave crise produzida por um modo de vida que destruiu e destrói muitas outras formas de viver, muitos outros modos de relacionamento entre humanos e natureza.
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(...) Em sua opinião, ou a "civilização científica capitalista tem pela primeira vez na história a humildade de assumir seus limites e sua ignorância" sobre uma série de complexas questões - entre elas, a preservação da Amazônia, e a própria relação entre humanos e natureza -, ou estaremos todos fadados à extinção. Nesse sentido é enfático: "o nó da questão, que a sociedade brasileira e mundial precisam entender, é que as terras amazônicas sob o cuidado dos indígenas é uma garantia para toda humanidade. Ao retirar a autonomia dos indígenas sobre suas terras estão assinando a sentença de morte da humanidade". O alerta aqui tem em vista as 19 condicionantes propostas pelo Ministro Menezes Direito e aprovadas junto com a demarcação contínua da RSS, que teoricamente se estenderia a outras terras já demarcadas ou por demarcar. Na opinião de Edson: "um verdadeiro golpe, inconstitucional, contra a autonomia indígena e de lesa-humanidade".
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BdF: Poderia começar contando um pouco de sua trajetória?
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Edson Kayapó: Sou filho de Kayapó, mas nasci no estado do Amapá, na margem do rio Amazonas, numa grande aldeia que hoje é a cidade de Macapá. O lugar onde nasci era a periferia da cidade de Macapá, mas devido ao crescimento exagerado da cidade, hoje o lugar é um bairro da cidade. Nossa família era muito pobre, meus pais analfabetos. Minha mãe era uma espécie de pajé, conhecedora de muitas plantas e remédios naturais; meu pai era mecânico. No início dos anos 1960 eles migraram do Pará rumo à região do Amapá, em busca de alternativas de emprego prometidas por aquele grande empreendimento mineral capitalista na Amazônia, a Icomi - que deixou um grande rastro de destruição e miséria na Serra do Navio e região. O Amapá e o Oiapoque, em especial, são lugares de muitas tensões sociais e pobreza... Os meus pais sofreram na pele a exclusão social daquela localidade, apesar de toda solidariedade dos parentes da região. Os dois não davam conta de nos sustentar: éramos sete irmãos e ainda tinha meu tio e meu avô materno que vivia conosco. Tanto que, no início dos anos 1980, antes de eu completar 11 anos, minha mãe tomou contato e me entregou para missionários evangélicos adventistas da região de Altamira-PA. No internato, cumpríamos longas e pesadas jornadas de trabalho na roça ("juquira" como chamam lá). E para fugir desta relação de semi-escravidão, na 8ª série, pedi transferência para outra escola em Cachoeira de São Félix, no Recôncavo Baiano. Lá, entre 1986 e 1987, aprendi muito, estabeleci relações muito diferentes, verdadeiramente antropofágicas - como, aliás continuam sendo hoje em dia aqui em São Paulo. Altamira era como uma prisão; Cachoeira era mais livre, no entanto persistia o rigor da educação missionária. Dois anos depois pedi nova transferência, agora para Petrópolis-RJ. Outro choque cultural: o Rio de Janeiro... Lembro quando conheci aquela cidade grande... Lá a dinâmica de trabalho dentro da escola também era mais amena, mais a vigilância e o controle dos nossos corpos e hábitos transformava a vida numa paranóia. Mas, acabou o segundo grau: acabou a relação com a Igreja! Apesar desse alívio, cheguei a quase esquecer completamente que era índio... completamente! A discriminação era muito grande, eu negava em muitos momentos, o quê era uma grande bobagem da minha parte - as pessoas próximas falavam que era ridículo, estava na minha cara... Nunca me propus a ir a psicólogos, nem sei se eles resolveriam, mas foi uma grande questão psíquica para mim. No Rio fui artesão, cobrador de empresas, vendedor (de livros) e frequentador das degustações de frutas e outros alimentos em supermercados... E foi assim que cheguei a Belo Horizonte-MG, na cara e na coragem, com um pouco de dinheiro para me manter por alguns dias numa dessas pensõezinhas próximas à rodoviária. Tinha que vender meus poucos produtos se não estava frito! E com muita luta consegui passar em História na Federal [UFMG], o quê foi um marco na minha vida: casa dos estudantes, comida em conta na universidade, bolsas que me ajudaram no sustento.
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BdF: O quê mais a universidade significou para você?
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Edson: Se tinha acompanhado o processo da Constituinte (1987-88) como um simples observador no Rio, já em 1989 a universidade foi o lugar onde assumi a luta política, no movimento estudantil. O marxismo era muito presente na época por conta dos recentes movimentos no leste europeu e na ex-União Soviética, bem como devido as primeiras eleições diretas pra presidente e a redemocratização do país. Eu fui ficando próximo ao PC do B e a alas do PT, além de ter um contato muito próximo e fraterno com correntes anarquistas, que eram muito presentes no movimento estudantil mineiro naquele momento. Curioso porque foi através desta militância política de esquerda que fui redescobrir e reafirmar minha identidade indígena. Era louco porque fazíamos, junto com o MST, rituais indígenas dentro da universidade... Os brancos da burocracia universitária ficavam horrorizados!
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BdF: Como era e como é hoje em dia esta relação com certas tradições originalmente "brancas", inclusive aquelas mais radicais de resistência, como muitas correntes marxistas?
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Edson: É interessante porque foi por meio de minha atuação na esquerda política que reafirmei minhas origens indígenas. Penso que os marxistas de todas as vertentes são aliados. Mas por outro lado, de forma geral, estão muito distantes da profundidade que tem a questão indígena: a perspectiva de classe apenas, num país como o Brasil, não é suficiente para explicar e responder às questões sociais. Até porque Marx nem poderia se propor a discutir, na Europa do século XIX, a questão indígena: ele estava interessado na formação e nas contradições da sociedade industrial. Há muitos outros brancos sinceros aliados. E, embora eu não acredite na existência de raças, há uma profunda construção histórica e cultural racista, que nos descrimina profundamente. Isso vem de longe, talvez desde a chamada "grande controvérsia" no século XVI, entre Sepúlveda e Bartolomeu de Las Casas: o primeiro falava em raças inferiores (indígenas) ou raças superiores (brancos europeus), e o segundo reivindicava a possibilidade e o direito de criar um "trabalho espiritual" nas terras e comunidades indígenas: evangelização, sendo mais direto. Uma falsa controvérsia, portanto: os índios não participaram dela, não deram sua opinião. Basta pensar também nessa idéia do Brasil como um país de cultura homogênea, essa idéia de identidade nacional única que exclui a diferença e ignora as mais de 190 línguas indígenas praticadas em nosso território...
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Miryam Hess: Trata-se de um longo processo histórico envolvendo a dominação e o racismo, que neste Continente (Aby Ayala) começa a se reverter somente agora, após mais de 500 anos de resistência indígena continental, com a subida ao poder de Evo Aymara [Morales].
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(...) Edson: Pois é... Quando meu pai saiu do Pará para o Amapá nos anos 60, em busca de emprego na Icomi, já se via vagões e vagões carregando toneladas de manganês para o porto de Santana-AP, e de lá, toda aquela riqueza atravessava o Atlântico. A Icomi, aliás foi um dos pioneiros mega-projetos capitalistas na destruição da Amazônia. Eles se instalavam numa região, ficavam por vários anos retirando tudo que podiam, e depois saíam fora, deixando favelas cheias de gente numa miséria só. O minério de manganês (e o arsênio produzido com ele), devastaram áreas gigantescas, poluindo terras e rios, e causando vários tipos de doenças físicas e psíquicas, no curto e médio prazos. Inclusive o câncer. A gente denuncia, mas sempre tem algum laboratório norte-americano para atestar "cientificamente" o contrário. E aí a "Justiça" acaba acreditando em quem? No nosso povo tradicional e sem escolaridade ou no laudo científico dos gringos? Aquela região teve e tem muito roubo de urânio também, como denunciou a revista Isto é, edição 1908 (2006). E a gente via e vê que as pessoas simples que estão fazendo o trabalho de extração do minério, trazem para dentro de casa o urânio, sem qualquer proteção, para os pilantras virem depois e levar tudo. Estão envolvidos, segundo a Polícia Federal, políticos, empresários nacionais e estrangeiros, terroristas e outros do tipo. O Sarney é senador no estado, mas prefiro nem falar dele, é chumbo grosso... O Eike Batista, que mais uma vez saiu na lista da Forbes como um dos grandes bilionários do mundo, o cara mais rico e playboy do Brasil... Sei... Como tem conseguido isso? À custa da destruição da Amazônia. Vão ver o quê ele está fazendo em Pedra Branca do Amapari-AP e na própria Serra do Navio, que já tinha sido devastada pela Icomi. A sua mineradora, a MMX, declara apenas a retirada de ouro ou de algum minério específico... Mas a gente sabe que os minérios não brotam separadinhos no solo. Então eles literalmente cercam áreas gigantescas, e é o dia inteiro aviões e helicópteros chegando e saindo. E nos galpões: trabalhadores em regime de semi-escravidão. Alguns desses casos são até investigados, em sigilo, pela Polícia Federal, mas muito pouco é noticiado e punido. No Amapá a nova febre são também os tais agrocombustíveis. No distrito de Curiaú-AP são milhares de hectares de cana-de-acúcar financiados pelo BNDES, e com autorização do IBAMA: "permissão para uso sustentável do solo". A expansão da Jarí Celulose, da Amapá Celulose (AMCEL) pela região... Muitas delas até chegam a ter limites ambientais de terras exploráveis, aí elas burlam arrendando terras de terceiros, de pequenos proprietários... Parece brincadeira...
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BdF: É nesse sentido que você defende enfaticamente a importância da autonomia indígena em seus territórios?
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Edson: Exatamente... Me parece que o movimento agora é, cada vez mais tirar a autonomia indígena. As 19 condicionantes aprovadas pelo STF têm esse objetivo. Eles demarcam, mas tiram a autonomia e criam um monte de cláusulas e brechas para poderem explorar os recursos que lhes interessam. Essas condicionantes são um verdadeiro golpe, inconstitucional, contra a autonomia indígena e de lesa-humanidade. Eu estou ansioso para ver a reação dos parentes de Roraima, e dos demais pelo Brasil... No final do ano passado o economista Ignacy Sachs esteve na PUC-SP fazendo uma palestra sobre o quê chama de "desenvolvimento sustentável" ou "biocivilização". E no raciocínio racista dele, que está por trás dessa ofensiva contra os indígenas, tem a seguinte construção: a sociedade moderna está em crise e a Amazônia seria o local da salvação, então os indígenas são um empecilho para esta salvação. Ele, no fundo, fez uma grande fala contra as demarcações. E aí argumenta sobre a crise ambiental, a crise alimentar: ora, o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo e a maioria da população passando fome! A gente sabe muito bem como e para quem produziam os arrozeiros na área da Raposa, diferente dos indígenas que produzem para o sustento inclusive das cidades de Roraima. Imagina se fosse o MST que tivesse ocupado qualquer território: no outro dia vem polícia! Penso que os indígenas estão cansados de tentar explicar que nossa luta não é apenas pelas terras indígenas. Eu cansei de ouvir falar que essa terra é para nós: não é para nós somente! O nó da questão, que a sociedade brasileira e mundial precisam entender, é que as terras amazônicas sob o cuidado dos indígenas é uma garantia para toda humanidade. Ao retirar a autonomia dos indígenas sobre suas terras estão assinando a sentença de morte da humanidade. Uma decisão como esta deveria ser discutida num tribunal internacional, com a participação e voz dos indígenas.
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Miryám Hess: Esta súmula do Ministro Menezes Direito e as 19 condicionantes (18 delas por ele propostas e) aprovadas pelo STF são, realmente, inconstitucionais. O papel a que estes ministros estão se submetendo envergonha o País ao trabalharem para os interesses do agronegócio, dos grandes lobbies de mineração... A idéia deles é que tais condicionantes se estendam para as cerca de 227 áreas que estão declaradas para demarcação, além dos mais de 50 povos declarados "ressurgidos" (termo usado na antropologia) ou "resistentes" (como dizemos nas lutas indígenas). Na prática estão querendo facilitar a destruição de todas estas terras indígenas para os piores modelos de desenvolvimento, aqueles que mais degradam irreversivelmente os ecossistemas.
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Edson: Mas não vamos parar por aqui, e agora temos uma série de territórios que urgentemente precisam ter a demarcação contínua garantida: como a situação dos parentes Guarani-Kayowás do Mato Grosso do Sul, que têm vivido uma situação terrível nos últimos anos, com altíssimas taxas de suicídio entre jovens, sem falar dos homicídios que sofrem constantemente. E por outro lado, os Kayapó e os demais povos xinguanos estão dispostos a lutar até o fim, até o estado mudar de idéia com relação a estes mega-projetos que se espalham pela Amazônia. Foi neste sentido, e não em qualquer outro, que o Tuxaua Kayapó disse que os povos do Xingu estariam dispostos a lutar a "terceira guerra mundial", no sentido de defendesa da Mãe Terra e dos povos originários. Afinal, na região próxima ao Parque Nacional do Xingu, tanto os indígenas quanto ONG's como a Repórter Brasil - que é uma ONG séria - vêm denunciando por meio de análises das águas que a cabeceira do Rio Xingu está sendo completamente poluída por agrotóxicos e resíduos minerais...
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BdF: É a mesma situação que os Xicrin estão enfrentando ali perto, na região da Serra dos Carajás, sobretudo por conta dos antigos e novos mega-projetos da Vale do Rio Doce (como o Onça-Puma e o Salobo), que já estão poluindo importantes nascentes e afluentes que desembocam no rio Tocantins e no rio Marabá...
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Edson: É genocídio, não tem outra palavra! Os indígenas passaram milênios na Amazônia e conseguiram conhecê-la profundamente, respeitá-la e preservá-la, enquanto a civilização científica capitalista, além de massacrar brutalmente nosso povo, em poucos anos a tem desmatado e destruído progressivamente, como nunca antes. A hidrelétrica de Belo Monte, é outro exemplo. Desde 1989 os indígenas falam que não querem, que não vão aceitar... Aí recentemente foram aqueles engenheiros da Eletronorte, que os indígenas chamam de "Eletromorte", para arrogantemente informar que o projeto seria implantado, independente da vontade dos indígenas. E a televisão noticiou com estardalhaço que a índia Tuíra teria tentado matar os engenheiros. Ora, se quisesse matar, Tuíra teria matado facilmente, pois o Kayapó é guerreiro, tem muita habilidade com o terçado [facão], é acostumado a derrubar até árvore com ele. Aquilo foi mais um aviso de que estes mega-projetos e estas grandes hidrelétricas nunca são sustentáveis. São genocidas, e contra eles estamos dispostos a resistir com todas as forças.
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BdF: O projeto de lei para liberação da mineração em terras indígenas vai nessa mesma linha? Ou traria algum benefício para as comunidades originárias?
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Edson: Este projeto de lei não passa de uma tentativa indecente de esmola para os indígenas: cerca de 3%. Os indígenas não querem, não porque sejam bobos, mas porque sabem que isto vai destruir a Amazônia. Ou você acha que eles não sabem que há minérios, mogno e muitas outras riquezas em suas terras? Os Kayapó que chegaram a fazer algumas dessas atividades hoje já não fazem mais, porque tomaram consciência do risco de destruição da vida. Miryám Hess: A proposta de lei de mineração em terras indígenas fere os artigos 231 e 232 da Constituição Federal; fere também a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho; e a própria Convenção dos Povos Originários (ONU). O movimento indígena já está mobilizado para fazer essas denúncias e resistir contra sua aprovação, inclusive em tribunais internacionais.
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BdF: Aqui voltamos ao abismo de linguagem e de conhecimento entre os tribunais "brancos" e a realidade indígena...
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Edson: Pois é... Nessas ocasiões, nesses grandes encontros, existe uma dificuldade muito grande dos indígenas se comunicarem em pé de igualdade por causa da barreira da linguagem, e da concepção de mundo mesmo. Por isso a importância dos parentes se apropriarem desse conhecimento acadêmico. E não estou desqualificando os parentes sem qualificação acadêmica.... Muito pelo contrário: geralmente a academia cria teorias que abstraem e distorcem a realidade. E que são criadas para isso mesmo. Falam de qualquer assunto sem os pés no chão. Nosso compromisso é outro, é com nosso povo indígena. Não quero virar um acadêmico de gabinete, porque aí mano... Por isso tenho uma grande preocupação que é relacionada à educação indígena. Há algum tempo eu acompanho escolas, na Aldeia do Espírito Santo (Oiapoque) e região. E tenho procurado refletir sobre isso em meu doutorado. Porque historicamente a educação indígena é uma verdadeira agressão: desintegra as comunidades; destrói as línguas; proíbe os rituais e tradições indígenas; desperdiça nosso conhecimento. Em setembro deste ano deve haver a Conferência Nacional de Educação Indígena, em Brasília, acho que será uma grande oportunidade para o povo indígena delinear claramente a escola que interessa...
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Miryam Hess: É preciso avançar nas criações de Cátedras Indígenas, conforme propostas por Marcos Terena. Só é considerado acadêmico o pensamento eurocêntrico. A gente quer que a ciência indígena e a ciência africana sejam incorporadas nos currículos. Esta prostituição deliberada da chamada ciência (eurocêntrica) em relação a interesses econômicos remonta à origem do capitalismo, a deturpações fundamentais das concepções científicas do próprio Isaac Newton...
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BdF: Nesse sentido, Edson, você enxerga com bons olhos a Lei 11.645/2008, que defende a obrigatoriedade do Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Indígena nas escolas?
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Edson: A lei 11.645/2008 é mais ampla que a lei 10.639/2003. Esta criou a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, enquanto a 11.645 de 2008 abrange tanto a cultura afro-brasileira como a indígena. O movimento negro atualmente é muito mais forte, até porque tem forte presença nas cidades. Nossa voz vem mais do campo, onde o tempo é outro e muitas vezes ela demora pra chegar aos meios formadores de opinião. Não que não estejamos presentes nas cidades, mas os territórios indígenas em áreas urbanas foram violentamente atingidos pela lógica da expansão imobiliária, com todas suas consequências, e nossos parentes muito enfraquecidos. Porém, é mais coerente que o movimento negro e indígena unam forças. Mas, no que se refere à história e cultura indígena, é necessário que esta qualificação dos professores seja feita por indígenas. É preciso que as universidades reconheçam muito mais indígenas, principalmente pajés, por notório saber. A biopirataria é um exemplo claro de roubo da ciência indígena. Outro dia uma colega minha aqui em São Paulo veio me fazer propaganda da nova "descoberta" da Natura - que é uma das financiadoras da WWF: o óleo de andiroba trifásica. Eu disse a ela: "mas como assim? Eu nasci e cresci me tratando com andiroba. Inclusive não fico nunca sem"... Portanto, nesse momento, é preciso fortalecer essa idéia de um Instituto de Defesa da Propriedade Intelectual Indígena...
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BdF: Por tudo que você diz é a favor das cotas para indígenas nas universidades...
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Edson: Claro que sim. Inclusive faço parte de um grupo na PUC-SP, que defende as cotas para indígenas nas Pós-Graduações. Porque se nas graduações você ainda vê um ou outro negro, um ou outro indígena: nos programas de pós é muitíssimo raro, quase impossível! Isso traria uma série de outras perspectivas para as universidades. No meu mestrado, por exemplo, eu abordei a história do presídio de Clevelândia do Norte, na região do Oiapoque, que foi criado em 1922 pela República Velha como um experimento repressivo pioneiro para massacrar militantes tenentistas, comunistas e principalmente anarquistas, além de menores abandonados e indigentes. Muitos brasileiros ficaram ali completamente desterrados, doentes, torturados e massacrados. Uma história (de resistência inclusive) que pouca gente conhece, e que antecipou muitos dos elementos do estado de sítio que criou o DEOPS, foi utilizado em outras ditaduras civil-militares, e é utilizado como modelo para muitas penitenciárias ainda nos dias de hoje, as "novas clevelândias".
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BdF: E você sinceramente acredita que seja possível avançar rumo a um respeito maior às perspectivas, tradições e conhecimentos indígenas?
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Edson: Eu sou sempre otimista, embora seja muito difícil lutar contra todo este sistema consolidado. Agora, se o modelo científico civilizatório capitalista é tão bom mesmo, por que a humanidade está correndo o risco de se extinguir? Ou ela tem pela primeira vez na história a humildade de assumir seus limites e sua ignorância... Ou... Eu não gosto de falar muito de antropólogos, mas o Darcy Ribeiro chamava a atenção crítica para aquela oposição entre a "civilização das cidades" (São Paulo, Nova York etc) versus os "bárbaros": quem são os bárbaros mesmo? Veja só São Paulo: quando explico para meus filhos que o Tietê é um rio, eles não acreditam: como pode ser, se fede tanto? A vida parece não fazer mais sentido, e as pessoas esperam a hora dela acabar, muitas já não pensam mais sequer em ter os seus filhos. Um outro problema geral que os povos indígenas enfrentam é que muitos "especialistas" acham que podem falar em nome deles. Diferente dos aliados, que assumem a luta indígena lado a lado. As formas de convívio, as tradições e conhecimentos indígenas podem colaborar e até ser a chave para a criação de uma outra sociedade planetária. E quando falo de conhecimento indígena não estou falando apenas do conhecimento de ervas e plantas, mas do conhecimento de organização social (que para mim não se separa do ambiental). As formas de trabalho coletivo, o respeito mútuo, a forma integrada de entender a relações sociais... Para os Karipuna, por exemplo, sempre é preciso renovar o equilíbrio entre o material e o espiritual. Na Lua cheia de outubro eles fazem o ritual do Toré, que é uma homenagem às Caruanas (seres criadoras e mantenedoras de todas as relações, como a Onça, as Cobra-Grandes e várias outras). O Pajé explicaria muito melhor do que eu, é claro, mas são as Caruanas que falam pra ele como deve ser a festa. Então se trata de uma ocasião no ano em que os Karipuna reúnem-se e reforçam o pacto de preservação e equilíbrio da natureza, e de não exploração entre os homens.
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BdF: Em que medida você acredita que a idéia de religião (como re-ligação de algo previamente separado... homem e natureza; corpo e espírito...), e em particular o cristianismo, tiveram também impactos nesse menosprezo da cultura e conhecimento indígenas?
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Edson: O cristianismo separou o espírito e a matéria; aqui é o sofrimento, lá o paraíso. Que bom que hoje podemos contar bastante com o CIMI [Conselho Indigenista Missionário] em muitas lutas... Agora, o indígena também tem o seu lugar dos mortos, mas para nós é outra coisa muito diferente, e é muito importante o equilíbrio. O sagrado é a relação entre nós, e entre nós e nosso meio. A relação da mãe Terra com seus filhos é constitutiva, não algo externo. Neste sentido que eu chamava a atenção para a concepção de "desenvolvimento dos juruás", que vai contra nossa concepção de interdependência constitutiva entre os seres.
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QUEM É EDSON KAYAPÓ?
Edson Machado de Brito é graduado em História (UFMG), fez pós-graduação lato sensu em História e Historiografia da Amazônia (UNIFAP), e mestrado em História Social (PUC-SP). Atualmente pesquisa no programa de doutorado em "Educação: história: política e sociedade", também na PUC-SP, desenvolvendo uma tese sobre a escola dos Karipuna da aldeia do Espírito Santo em Oiapoque-AP, onde também atua na área de educação indígena e formação de professores.

QUEM É MIRYÁM HESS?
Marília Miryám Hess Rondani é bacharelada e licenciada em Geologia na USP, e pós-graduada em Energia na mesma universidade. Atualmente é conselheira no Conselho da Rede GRUMIN de Mulheres Indígenas.

Reportagem de Danilo Dara publicada em Brasil de Fato. Imagem: Povos Indígenas no Brasil / Socioambiental. Note-se que a Nação Karipuna do Amapá é de etnia tupi: falam português e patois, que é a língua franca da região, mas que apresenta variações do patois falado por outros grupos indígenas e, principalmente, do patois de Caiena. O termo “Karipuna” é usado como autodenominação por essa população e indica uma identidade de “índios misturados” ou “civilizados”, que é tanto atribuída como assumida pelas famílias Karipuna. Os Karipuna de Rondônia, hoje quase extintos, foram relatados como vinculados ao grupo Pano e também nomeados como Élié, e a eles me reporto no título deste blog como descendente que sou de habitantes da Foz do Rio Jamari, na Bacia do Rio Madeira.

27 de maio de 2009

Terra Livre

26 de maio de 2009

Partido Nativo

Manifestação recente em defesa da Reserva Raposa Serra do Sol
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Líderes indígenas brasileiros disseram à Rádio ONU que sua agremiação deve ajudar a fazer com que os índios possam representar seus próprios interesses em nível federal. O diretor do Memorial dos Povos Indígenas da cidade de São Paulo, Marcos Terena, declarou que os indígenas brasileiros poderão formar um partido antes de 2012. Segundo ele, a proposta deve ser avaliada, nos próximos meses, com o objetivo de acelerar o processo de conquistas para os índios brasileiros.

Marcos Terena fez a declaração numa entrevista à Rádio ONU em Nova York, onde participa da 8ª. sessão do Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas. Para ele, o novo partido precisa nascer diferente e sem os vícios antigos de outros grupos políticos: "No caso brasileiro certamente o Partido Indígena, provavelmente, com a missão de não se tornar um partido com risco de corrupção política e até mesmo outros modelos de corrupção". O Fórum Permanente da ONU reúne todos os anos as agências e órgãos da ONU e outros organismos internacionais para um diálogo com representantes dos Governos e das organizações indígenas sobre assuntos indígenas. Importantes recomendações referentes à política voltada para as especificidades dos povos indígenas saem todos os anos do Fórum para o mundo.

Em 2007, Marcos Terena, uma das lideranças indígenas mais antigas do País, criticava durante sua fala no 2º Encontro Nacional dos Povos da Floresta a transformação irrestrita dos bens naturais em dinheiro. Ele falou particularmente das propostas de se cobrar pelo uso da água: "O homem branco acha que tudo pode ser dinheiro. Até a água. Mas o tatuzinho e a onça também têm o direito de beber água".

Ele criticou a ausência, no encontro, de representantes do “outro lado” do governo Lula, aqueles que não estariam do lado da sustentabilidade e de comunidades como os povos das florestas : "Os que estão aqui são do governo Lula, mas estão com a gente. Mas cadê o ministro que cuida do dinheiro? Que cuida do comércio exterior? Tinham que estar aqui. São essas pessoas que têm que ser educadas com a nossa filosofia tradicional".

Terena disse na ocasião que que durante aquele encontro ouvira falar muito do Chico Mendes, mas não das lideranças indígenas responsáveis, historicamente, pela defesa da floresta. Ele citou, entre outros, o falecido deputado Mario Juruna, Marçal Guarani (assassinado em 1983), Davi Yanomami, Paulinho Paiakã (condenado e preso sob acusação de estupro de uma jovem) e Ailton Krenak. "Nós também temos que valorizar nossos heróis. O Brasil precisa saber que teve heróis indígenas".

Segundo ele, a aprovação, pela ONU, da Declaração dos Povos Indígenas, não ocorreu por ação dos embaixadores brasileiros, mas pela dos povos indígenas: "Para chegar lá tivemos que conversar com Celso Amorim, com Ronaldo Sardenberg, com diplomatas que não gostavam da gente, em Genebra e Nova York".

O coordenador do Projeto "Índios na Cidade", Marcos Aguiar, disse também à Rádio que está tentando convencer várias etnias em São Paulo a lançar candidatos já para as eleições de 2010. Segundo ele, a maior participação política dos indígenas ajudará a aumentar o espaço para a defesa de seus direitos.

O Fórum da ONU está discutindo este ano aquecimento global, educação e saúde das mulheres nas aldeias entre outros temas. O Fórum Permanente sobre Questões Indígenas e seus membros pautam-se pelas diretrizes internacionais de direitos humanos no contexto dos povos indígenas e em documentos de compromisso político tais como a II Década Internacional para Povos Indígenas e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.A reunião deste ano termina em 29 de maio.

(Envolverde/Rádio ONU). Outras fontes: Repórter Social

Paitite, o nome do Rio Amazonas


Diferentes historiadores dos últimos séculos negaram enfaticamente a existência do Paitite, considerando-o um mero mito dos conquistadores ibéricos da América do Sul.

Diferentes estudos arqueológicos, teses de grau, teorias de aventureiros e exploradores situam ao Paitite na região de Pantiacolla do Peru que podem se achar em tantos artigos da web e anunciam achados sensacionais nas selvas amazônicas desse país, assumindo cada um a essa pequena região como a que abriga à suposta cidade perdida, desconhecem a enorme extensão das chamadas selvas do Amazonas, a seus milhares de habitantes das eras pré-colombianas e porcerto cidades, povos e monumentos, que levantou nelas a maior cultura da América que querem desconhecer, aferrados que estão a ver em todos os restos arqueológicos que se encontram, traços e sinais da cultura Inca, como evidência que lhes garante poder achar os tesouros que ocultaram aos espanhóis os Incas do Peru e do Equador.

De tanto escrito deste século que circula e muitas vidas dedicadas a tratar de elucidar o lugar de Paitite, alguns intuem e outros aceitam a esse Império como tal, mas quase todos eles esqueceram que: PAITITI, PAYTITI, PAYKIKIN, PAITITE, era o nome de um rio: o Rio Amazonas.

A partir da terra dos Incas, era o Rio Amarumayo (rio das Cobras) o caminho para o Paititi. Este mesmo rio que hoje conhecemos como Juruá e desemboca no Amazonas! Juan Álvarez Maldonado, conquistador espanhol, no ano de 1568 dá a conhecer o nome e a grandeza de Paititi e disse claramente, que Paitite era o nome de um rio, o Rio Amazonas.

O rio Paucarmayo que se nomeia nas crônicas da época, está estabelecido como o atual Ucayali em muitos documentos. Na imagem satélite de acima se destacam os quatro rios que desembocam no Amazonas e que involucran estas crônicas com seus primitivos nomes e os atuais. A geografía satélite que hoje em dia nos é possível, revela por fim o curso real dos rios e seus nascimentos. O Amarumayo hoje Juruá, nasce perto de Cusco assim como o Purus, mas o Yetau, Yutai ou Jutaí de hoje, nasce no centro do percurso do Amarumayo, sendo sua cabeceira a localização das tribos Omaguas que foram fonte das lendas sobre o "Eldorado".


mapa do Império do Brasil no século 19 chamava o hoje Rio Juruá de "Amarumayo"
Fonte: Vasta informação disponível para leitura (em castelhano) no site El Dorado Colombia

22 de maio de 2009

A selva peruana loteada


Na recente visita do presidente peruano Alan García a Rio Branco, onde encontrou o presidente brasileiro, assisti na Tv Aldeia (Acre) a entrevista coletiva de ambos. Quando abordado sobre a construção de hidrelétricas como parceria binacional na selva peruana vir a afetar as populações de índios isolados que não tem porta-vozes ou advogados para os defenderem, Lula saiu-se com a frase: "se eles estão do lado do Peru, são peruanos; se estão do nosso lado, são brasileiros". Declaração esta que poderia ser entendida até como incentivo à migração dos isolados peruanos para território brasileiro, onde as populações indígenas são melhor respaldadas pela constituição nacional, caso os isolados tivessem acesso a esse tipo de informação. Sobre as hidrelétricas, Lula disse que o novo modelo proposto para hidrelétricas de selva prevê seu acesso por helicóptero assim como nas plataformas de prospecção de petróleo, o que garantiria "automaticamente" a conservação ambiental de seu entorno. Alan García nem precisou responder a mesma pergunta, pois imediatamente deram por encerrada a coletiva.
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Agora em maio, o Peru decretou "estado de emergência" em quatro estados da Amazônia Peruana: Cuzco, Loreto, Ucayali e Amazonia. Está havendo uma grande disputa nessas regiões entre as companhias petrolíferas e os povos indígenas que habitam as terras em cujo subsolo há abundante fontes de petróleo. A disputa é, com licença do trocadilho, crua e dura. O governo Alan Garcia até que buscou negociar com os índios, mas de um modo tão ineficiente, com tanta incapacidade de conversação, que só causou mais revolta entre as lideranças indígenas. O governo peruano não abre mão do poder sobre a exploração do petróleo outorgada a quem quer que ele queira. Já disse isso diversas vezes. Hoje são pelo menos três locais de poços de petróleo explorados por empresas estrangeiras que foram tomados por índios, além da interdição de diversas pontes e estradas, motivos pelos quais o governo decretou emergência. A principal alegação do governo é que uma minoria de índios não pode prejudicar o Estado peruana e a maioria de sua população que dependem dos royalties e impostos do petróleo. É desculpa muito grosseira.
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O mapa acima, disponibilizado no Blog do Mércio, mostra a divisão geográfica do Peru em três grandes regiões, que correm de norte a sul, e explicita as áreas da Amazõnia Peruana que estão "loteadas" para empresas de petróleo. Não esclarece exatamente onde há terras indígenas, uma concepção bem diferente do que temos no Brasil.
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discurso alberto pizango - declaratoria de insurgencia
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"O Peru não está respeitando a declaração da ONU sobre direitos indígenas", disse na quinta-feira à rádio RPP Alberto Pizango, líder das manifestações e presidente da Aidesep, entidade que reúne grupos ambientalistas e indígenas. A declaração da ONU, que não tem cumprimento obrigatório, foi aprovada em 2007 por 143 países, inclusive o Peru. Pizango chegou a anunciar uma "insurgência" para pressionar o governo a revogar as leis.

Na quinta-feira, depois de políticos acusarem o dirigente indígena de agir como incendiário e de abrirem um processo contra ele por sedição, Pizango disse: "Para nós, insurgência significa defender nossos direitos naturais e resistir pacificamente aos excessos cometidos pelo Estado peruano. Reconhecemos a legitimidade constitucional do governo, mas ele não entende as questões indígenas."

García instituiu a maioria das leis em questão por decreto, aproveitando poderes especiais concedidos pelo Congresso para que ele adéque as leis do país a um tratado de livre comércio com os EUA. Críticos dizem que García aproveitou para adotar medidas que não eram exigidas pelo acordo comercial. Yehude Simon, chefe de gabinete do governo, prometeu a Pizango uma rodada de negociações que possam levar a um acordo que encerre o bloqueio de estradas e portos, que já provoca desabastecimento em algumas localidades amazônicas. A empresa argentina Pluspetrol reduziu sua produção de petróleo na Amazônia devido aos protestos, e a estatal Petroperú paralisou a operação do seu oleoduto.

Até agora, Pizango rejeita as negociações, levando Simon e o resto do gabinete a buscarem um diálogo com outros líderes indígenas, menos influentes. Além disso, o governo declarou um estado de emergência que lhe permite impor toque de recolher e enviar tropas para dispersar protestos. Ao menos por enquanto, o governo se recusa a revogar as leis ou a dar mais controle para os indígenas sobre uma área que representa mais de 60 por cento do país, embora concentre apenas 11 por cento da sua população.

"As terras da Amazônia pertencem... a todos os peruanos, e não só a um pequeno grupo que vive lá", disse García no fim de semana. "As riquezas do Peru pertencem a todos os peruanos."
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Presidentes Lula e Alan García (Peru) durante assinatura de acordos. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Fonte: Portal RPC e Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP

21 de maio de 2009

A força do Povo da Terra


A ocupação dos territórios ancestrais Mapuches por latifúndios de plantações de eucaliptos e pinheiros de grandes empresas florestais como a CMPC e a Forestal Bosques ARAUCO (Holding COPEC) conta, para sua expansão, com o apoio do aparelho do Estado. A repressão, a tortura, a morte e a criminalização da resistência Mapuche conformam o contexto do “modelo florestal”.
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O conflito Mapuche é como uma lepra na sociedade chilena, escondido, estigmatizado, negado. A documentarista e professora de Música Elena Varela tinha se interessado pela música mapuche e foi realizar um trabalho acadêmico de pesquisa na IX Região, para se interiorizar de sua música e seus instrumentos. Mas a situação com que se deparou modificou a perspectiva de seu trabalho.
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Conforme seu próprio testemunho, “Vi que estão empobrecidos, que suas terras estão secas, que por trás das empresas florestais existe uma aparelhagem política, político- militar, e vi que a indústria florestal gasta quanto dinheiro for necessário para silenciar qualquer pessoa que se revelar contra o sistema. As invasões nas moradias das comunidades mapuches são constantes e terríveis. Acho que alguns ainda estão procurando entre os mapuches aquele terrorista que imaginou Pinochet, um terrorista que jamais vai ser encontrado na zona mapuche, porque não existe”.
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Foi então que Elena Varela se dedicou a gravar um documentário que intitulou “Newen Mapuche” (A força do povo da Terra), com que visa registrar o conflito que enfrenta as comunidades Mapuches com a indústria florestal por reivindicações territoriais históricas, em defesa de seus direitos coletivos e pela proteção de seu ambiente diante da depredação das monoculturas florestais.
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Nos últimos anos, nesse contexto de deterioração social, cultural e ambiental decorrente da expansão territorial das indústrias florestais, os legítimos protestos sociais do Povo Mapuche, o principal afetado, têm como resposta uma violenta repressão contra os Mapuches e aqueles que abordam solidariamente esta problemática.
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A criminalização espalha seu longo braço. Do assassinato pelas costas do jovem Matias Catrileo à prisão de mais de 55 Mapuches, só no período de Bachelet, acusados de atentar contra as plantações florestais, em alguns casos com condenas de até 10 anos, passando por dezenas de feridos em passeatas, situações de amedrontamento e terror.
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No dia 7 de maio de 2008, enquanto rodava seu filme, Elena Varela foi detida por mais de 20 policiais armados. Conforme seu depoimento em uma entrevista realizada pelo jornalista Jaime Díaz Lanvanchy, Varela contou que, "Fui proibida de falar com um advogado durante 24 horas, não me disseram de que eu era acusada", e foi bastante depois que ficou sabendo que era acusada de "associação ilícita para delinqüir".
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Ela alega sua inocência e afirmou que estava na prisão devido a seu filme, “Estou presa por meu trabalho profissional como cineasta, pela informação que tenho em mãos, por interagir com ativistas Mapuches que lutam por suas crenças, por entrevistar pessoas de comunidades Mapuches que têm sido muito reprimidas e que não ousam dizer nada, porque sei de muitas coisas tão cruéis que me deixam doente. O povo Mapuche foi humilhado, foi perseguido. Vi tantas pessoas esmagadas emocionalmente, psiquiatricamente, tantas pessoas que não ousam falar!. Por isso é que estou presa".
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O que mais me faz mal, diz Elena, são as crianças, “as crianças doentes de Temucuicui! [comunidade Mapuche da zona de Ercilla submetida a constantes invasões de moradia das Forças Especiais de Carabineiros]. Pode ser visto nos desenhos. Em seus desenhos, eles pintam militares dentro de suas casas, explosões com bombas lacrimogêneas. Isso é o que eles não querem que surja à tona! E também querem saber onde estão os Mapuches que estão lutando, para exterminá-los, como querem fazer comigo. Eu quis fazer um filme e me prenderam. É uma forma de me exterminar, de me silenciar".
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A Anistia Internacional declarou oficialmente que acreditava que “as autoridades a prenderam em uma tentativa de deter as pesquisas sobre esse conflito e de intimidar tanto ela quanto o povo indígena Mapuche. A polícia confiscou em sua casa diversos objetos como fitas de vídeo, equipamento de som, câmeras fotográficas e telefones celulares, bem como as vestimentas necessárias para filmar o documentário. Além disso, recolheu os materiais da pesquisa que Elena Varela tinha realizado e os documentos relacionados com o financiamento do filme por parte do Fundo de Fomento Audiovisual do Conselho Nacional da Cultura e das Artes. A Anistia Internacional receia que esta informação possa ser usada pelas forças de segurança chilenas para intimidar e assediar os ativistas Mapuche e aqueles que contribuírem com suas opiniões para a pesquisa”.
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A situação que viveu a documentarista Elena Varela não é única. Desde março de 2008, as autoridades têm detido três documentaristas que denunciaram o conflito entre as empresas madeireiras e o povo Mapuche. O noticiário mapuche Mapuexpress informou que, “Dois jornalistas franceses, Christopher Cyril Harrison e Joffrey Paul Rossi, foram detidos no dia 17 de março em Collipulli enquanto filmavam um werkén [autoridade tradicional do povo Mapuche]. A polícia confiscou os equipamentos de filmagem, bem como as fitas que continham o trabalho realizado até esse momento. Apesar de ter havido uma tentativa de expulsão, o cônsul francês evitou que isso acontecesse. Dois dias (depois) foram agredidos na rua junto ao werkén por um grupo de doze pessoas. Uma situação semelhante foi vivida no sábado 3 de maio por Giuseppe Gabriele e Dario Ioseffi, dois documentaristas italianos, enquanto faziam uma gravação audiovisual de uma mobilização Mapuche em um estabelecimento da Forestal Mininco, reivindicado há quase duas décadas pela Comunidade Chupilko".
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Para Elena Varela, a dor é muito grande “por não poder mostrar o que tinha para mostrar. Mas tenho que ser forte, porque é a dor dos Mapuches que eu estou sofrendo agora, na própria pele”.

Artigo baseado em informações obtidas de: “Estoy presa por la información que manejo”, “Chile: Libertad de Expresión”, Anistia Internacional, Mapuexpress.

20 de maio de 2009

MP da Grilagem

A Câmara dos Deputados aprovou na noite do último dia 13 de maio a medida provisória 458, que permite à União transferir, sem licitação, terrenos de sua propriedade, de até 1,5 mil hectares, aos ocupantes das áreas na Amazônia Legal. Para ter direito a receber esses terrenos, o ocupante deverá comprovar que já morava na área antes de 1° de dezembro de 2004.

A MP, segundo o seu relator, deputado Asdrubal Bentes (PMDB-PA), vai beneficiar cerca de 1,2 milhão de pessoas, em 400 mil propriedades. O texto original da MP previa legalizar cerca de 300 mil propriedades, mas com as mudanças propostas pelo relator esse número aumentou em torno de 100 mil propriedades.

Entre as mudanças propostas pelo deputado Asdrubal Bentes e aprovadas pelo plenário da Câmara estão a permissão para que pessoas jurídicas e servidores públicos, que já ocupam as áreas, possam receber o titulo de propriedade do terreno. No caso dos servidores públicos, estão excluídos os que trabalham no Ministério do Desenvolvimento Agrário, no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e em órgãos estaduais e municipais envolvidos com a questão agrária.

O relator também alterou o texto do governo e estabeleceu que a recuperação das áreas com o reflorestamento obedecerá à Lei Ambiental, que prevê até 30 anos para essa recuperação. O texto do governo estabelecia dez anos para o reflorestamento. Asdrubal Bentes fez mudanças para aperfeiçoar o texto. “Diminuímos sensivelmente as exigências para que os ocupantes das áreas legalizem suas posses”.

Na questão das terras urbanas, o relator disse que o texto estabelece que a União fará doações aos municípios das áreas destinadas às sedes dos municípios e não no sistema de concessão. A MP vai permitir a legalização de propriedades nos nove estados da Amazônia Legal.

Em relação ao pagamento da propriedade, o relator informou que os títulos de 400 a 1,5 mil hectares terão preço de mercado da terra limpa, títulos de 100 a 400 hectares terão preço simbólico e de até 100 hectares terão pagamento zero.

Todos os destaques para votação em separado (DVS) à Medida Provisória 458/09 foram rejeitados no plenário. Concluída a votação dos destaques a medida provisória segue à apreciação do Senado Federal.

Contrariando as últimas declarações polêmicas do Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que colocou a Medida Provisória 458 como uma "Vitória Ambientalista", o especialista em ocupação humana e conflitos agrários na Amazônia e professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino de Oliveira, criticou a medida e afirmou que "A MP fere o princípio constitucional de função social da terra". As declarações foram dadas em uma conferência de imprensa realizada pela empresa Oboré e Projetos Especiais de Comunicação e Arte - no sábado (16).

Oliveira entende a 458 como uma terceira tentativa de legalizar a grilagem de terras, sucedendo as medidas 252 ("MP do Bem") e 422. "A MP 458 não é necessária, pois já existe legitimação das posses destas terras na legislação. A medida surgiu somente devido ao interesse de funcionários do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]", afirmou.

Durante sua exposição, que durou cerca de 30 minutos, Oliveira criticou também os projetos fundiários do governo na Amazônia Legal. "O Estado não deveria alimentar assentamentos na Amazônia. Não há esta necessidade. O problema é que o Estado não criou mecanismos para regular suas próprias terras. Estão ao sabor das elites", afirmou o pesquisador.

Oliveira soma-se à maioria dos ambientalistas e entidades da sociedade civil organizada que já batizaram a 458 de "MP da Grilagem", e não vêem nenhuma vitória, a não ser a dos grileiros e da impunidade.

Durante a entrevista coletiva realizada após a conferência, as críticas do pesquisador ao modelo de gestão empregado na Amazônia continuaram. Desta vez voltadas às instituições públicas e privadas que atuam na região. Questionado sobre a eficiência dos mecanismos do controle de desmatamento, Oliveira foi direto. "Não há condições de controle pelo Estado Brasileiro".

O pesquisador destacou que os programas, como o monitoramento realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é muito bom, mas esbarra na falta de continuidade. "O problema está nas equipes de fiscalização. O Ministério do Meio Ambiente não tem nenhum corpo funcional para tanto", explicou o pesquisador.

Outra instituição que representa grande problema ao país, segundo Oliveira, é o Incra. O pesquisador, que diversas vezes já prestou consultoria técnica ao instituto, afirmou que o órgão não cumpre sua função devido a um desalinhamento ideológico. "O problema é que grande parte dos funcionários do Incra são contra a reforma agrária", afirmou.

Oliveira também destacou diversos casos de corrupção que se tornaram públicos nos últimos anos na instituição e denunciou um "propagandismo político" por parte do órgão. De acordo com o pesquisador, o atual número de assentados divulgado pelo Incra em 2008 (500 mil famílias) seria falso. Segundo ele, essa quantidade de assentamentos é, na realidade, relativo ao trabalho feito pelo instituto nos últimos anos.

O pesquisador criticou, inclusive, o sistema de exploração da floresta. "No Brasil há um capitalismo de rapina, que quer enriquecer muito rápido e não dar continuidade à sua atividade", afirmou. Para ele, o grande risco não está nas companhias estrangeiras que visam a floresta, mas sim nas nacionais "Precisamos olhar com muito cuidado como as empresas nacionais estão cuidando da Amazônia", concluiu.

Fontes: Painel Florestal, Agência Brasil e 24HorasNews. Leiam também Discurso da Senadora Marina Silva a respeito da MP458 em links disponíveis no blog Água Dona da Vida

19 de maio de 2009

Tekã Ketxu

Mapachos de Nicotiana rustica em sua preparação tradicional

Mais uma narrativa hunikuin que trouxemos do livro "Shenipabu Miyui", organizado por Joaquim Mana Kaxinawa e publicado pela Editora UFMG (ver aqui), e que exemplifica um pouco a literatura oral preservada ao longo dos séculos por esta nação ameríndia do grupo Pano. Esse conto intitulado "Fumaça de Tabaco" faz parte do projeto "Video-Oficinas de Lendas Kaxinawás" apresentado por Gustavo Shane Manduca Mateus para a Fundação Elias Mansour do Acre, e que pretende representá-la em sua própria língua com jovens adolescentes hunikuins estudantes na cidade de Rio Branco:

"Tekã Ketxu, um jovem como nós, fez um rapé de tabaco muito forte, o mais forte que tinha. Então, ele tomou o rapé. Pegou o canudo de taboca, botou o tabaco na mão e aspirou. Ficou bêbado e passou um ano na rede, ali deitado. Por isso que hoje em dia o tabaco é forte. Passou um ano curtindo. Aí ficou conhecido como Tekã Kuru (ketxu quer dizer valente, já kuru é a cor do tabaco: ele usou tanto que ficou dessa cor).
Tekã Kuru tinha uma esposa. Enquanto ele ficou de porre de tabaco, sua mulher sempre andava para lá e para cá. Até que começou a namorar com outro cara. Ela começou a ir muito ao roçado. Às vezes, quando voltava, trazia um nambu. Botava na caçarola de barro e caía depois na rede. Fazia que dormia e ficava rosnando como se tivesse pesadelo. A mãe dela perguntava:
- O que é que minha filha tem?
Pegava no punho da rede e balançava. A filha fingia que acordava e fazia que era encantada. Mandava sua mãe abrir a panela. A velha abria e encontrava o nambu.
A filha fazia que estava estudando o estudo para ser pajé. Toda vez que vinha do roçado, aparecia com um macaco, um jabuti e todas aquelas caças.
Parece que um dia, depois de um ano dentro da rede, o marido não suportou mais. Levantou, pegou sua arma, flecha e borduna e caminhou atrás da mulher.
Encontrou a mulher conversando com outro cara. Tekã Kuru então empurrou a lança nas costas do homem, furou também a mulher. Bateu depois com a borduna até que matou os dois.
Quando chegou em casa, a velha estava esperando filha.
- É, minha sogra, parece que tua filha tá morta.
A velha correu para o roçado e lá encontrou os dois caídos.
Enquanto isso, Tekã Kuru sumiu. Acompanhou ele como sua nova mulher uma prima. Foram andando, andando no mundo, até chegarem em outra aldeia na casa de uma irmã dele. Atou sua rede e contou para a irmã que tinha matado sua mulher. Passou ali uns três meses. Depois, seguiu para outra aldeia, onde morava outra irmã. Ela estava viúva. Seu marido tinha sido comido por um encantado. Nesse dia, Tekã resolveu partir uma lenha para ajudar sua irmã, que lhe disse:
- Não, meu irmão, não parte essa lenha não, porque o bicho vem e come a gente.
O irmão não se importou. Pegou o machado e começou a abrir a lenha.
A lenha afastava-se sozinha. O homem tentou três vezes abrir a lenha, até que apareceu um homem encantado. Ele pegou a borduna, bateu e firmou com a lança, até matar o encantado.
Passado um mês, foi para outra aldeia e encontrou outra irmã viúva.
- Irmão, eu não tenho mais marido. Ontem, a onça comeu ele.
O irmão resolveu pegar essa onça. Perguntou a que horas que ela atacava. A irmã contou tudinho. Chegava de noite, às doze horas. Quando a pessoa estava dormindo na rede, pegava ela de surpresa e comia.
Então, o irmão mandou cercar tudinho. Cercou a casa da irmã e mandou ficar lá na rede a mulher dele e a irmã viúva. Ele ficou na porta esperando até as doze horas. Quando quis dar no sono, ele escutou a onça esturrar. Pegou a flecha. Quando viu o vulto do bicho, apertou a flecha e flechou a onça. A onça caiu morta.
Passaram-se mais dois meses. Tekã Kuru seguiu para outra aldeia, onde tinha outra irmã. Esta, toda vez que tinha um filho, o gavião real levava para seu ninho, numa samaúma grande no mato. Pegava o menino na hora que ela ia dar banho no terreiro.
O irmão resolveu pegar o gavião real para salvar seus sobrinhos. Mandou buscar barro e fez uma boneca grande, tipo um menino. Cortou cabelo, colocou no boneco e quando viu o gavião real chegando no pau da samaúma mandou a irmã banhar o boneco no terreiro, como fazia com os filhos.
Assim a irmã fez. Quando viu o gavião voando para pegar a criança, soltou a boneca e o bicho se atracou com o menino, mas não pôde carregar. Pregou os dois pés e ficou enfiado no barro liguento. O irmão veio e meteu o pau, matou o gavião real.
Passaram mais dois meses e o irmão resolveu passear em outra aldeia onde estava sua outra irmã.
- Não, não vá, não! Lá no meio do caminho tem um pica-pau que, quando começa a cantar, ninguém consegue sobreviver ao seu canto.
O homem foi assim mesmo. Quando o pica-pau chegou voando, cantando, foi morto pela sua borduna.
Chegou assim na casa de sua irmã. Passados uns meses, resolveu seguir viagem para outra aldeia, visitar uma outra irmã.
- Não, não vá, não! No meio do caminho tem uma casinha que faz escurecer, quando alguém vai chegando lá.
Ele assim mesmo decidiu ir. Seguiu seu caminho e quando chegou no ponto que sua irmã falava, escureceu. Ele ficou lá debaixo da casinha, atou a rede, convidou sua mulher para deitar, acendeu um pedaço de sernambi pra alumiar e escondeu a luz debaixo de uma panela. Quando deu base de doze horas, ele ouviu bater de cima para baixo, descendo, um bicho que comia gente. O bicho vinha descendo e, quando chegou pertinho da casa, o homem abriu a panela, clareou a escuridão e meteu a flecha no animal que caiu, “pof”, no chão.
Conseguiu chegar na casa de sua outra irmã que disse espantada:
- Como é que você vem chegando aqui? Ali ninguém nunca passou. Ali some mesmo!
O irmão descansou lá uns dias e resolveu continuar seu caminho para visitar outra irmã.
Chegou em outra aldeia, onde encontrou sua irmã viúva, o marido morto por um macaco. Mais uma vez o irmão conseguiu salvar a vida de sua família, matando o macaco preto com uma flechada certeira no peito.
Continuou sua viagem para outra aldeia e enfrentou desta vez um caboré encantado que conseguiu abater com a sua borduna.
Desta aldeia, seguiu viagem para outra aldeia para visitar uma outra irmã. No caminho, enfrentou um bicho encantado com metro e meio de braço, de dois braços. Bateu no calcanhar e então o bicho esmoreceu. Ele meteu o pau, derrubou ele. Matou e continuou o caminho até a casa da irmã.
- Como é que você chegou, meu irmão?
- Matei o rapaz, matei o animal!
Após uns tempos, seguiu viagem, como de costume, para outra aldeia. Mas, antes, ouviu conselho de sua irmã:
- Não vai, não! Lá tem uma pessoa que come fígado de gente.
Assim mesmo o homem viajou. Chegando lá, encontrou sua irmã e seu cunhado animados esperando por ele. Atou sua rede e deitou.
O cunhado disse:
- Tua irmã vai cozinhar umas bananas. Vamos tomar um banho. Tem um igarapezinho que dá muito bodó. Daquele bodó amarelinho. Vamos pegar um bocado para comer com banana.
Os dois cunhados foram então para o igarapé tomar banho. O irmão sempre com cuidado, observando o cunhado que levava um pau. O homem levou sua borduna e, enquanto mergulhava, continuava olhando com cuidado o seu cunhado.
Em plena claridade do sol, o cunhado pegou o pau para bater nele, mas Tekã Kuru desviou e o cara errou. Tekã foi em direção ao cunhado. Agüentou a borduna e derrubou ele, que foi bater no chão. Pinpinou ele de borduna. Ele começou a gritar. Sua mulher chegou, viu a cena e ficou olhando, esperta. Depois, pegou na saia, começou a dançar, dançar e cantar na língua:
- He, he, he, he...
Depois Tekã mandou sua mulher matar sua própria irmã, por ser a esposa do homem que já estava morto, o que comia fígado.
A mulher foi e matou sua cunhada. E os dois continuaram sua viagem.
Tekã matou assim todos os animais e até a sua irmã e o seu cunhado, aquele que comia fígado. Enfrentara, até então, todos os perigos.
Um dia, em uma de suas viagens, um conhecido seu matou um urubu para ele comer. Pelou o urubu bem peladinho e convidou Tekã para comer. Dizia que era um gostoso mutum. No começo, Tekã recusou, mas o cara insistiu. Até que ele, valentão, aceitou de comer o urubu. Rasgou a carne bem lá de dentro, tirou um pedaço e comeu. Disse que amargava muito. Sentiu então que ia finalmente morrer.
- Mulher, dessa vez vou cair.
Passado um mês, Tekã Kuru, que comeu fígado de urubu, morreu."

Fonte da Imagem: Mazatec Garden