29 de abril de 2008

As tribos do Acre

Terra Indígena Deni, entre os rios Purus e Juruá

"Por diversas razões, há poucos dados seguros a respeito dos povos indígenas da região atual do Acre. O território dos cursos superiores dos afluentes da margem direita do Amazonas foi explorado relativamente tarde, de modo que os índios dessa região, então praticamente desconhecida, raramente foram mencionados nas fontes mais antigas ou receberam atributos fantásticos. O Pe. Cristobal d‘Acuña registrou, por exemplo, a lenda de que no Purus (ou rio Cachiçuará) viviam índios gigantescos, os Curiquerês, que se enfeitavam com folhas de ouro e traziam anéis de ouro no nariz e nas orelhas. No mapa do "Rio do Omopalens" - o Purus -, realizada por Guillaume d‘Isle da Academia Real das Ciências, em 1703, tais gigantes são denominados Mutuanis, eles habitariam a dois meses de marcha a pé da embocadora daquele rio. Enquanto que se supunha haver gigantes no Purús, acreditava-se que no Jurúa viviam anões e homens com rabos. Ainda na descrição do Pará de Antonio Ladislau Monteiro Baena, publicada em 1832, pode-se constatar a permanência de tais lendas: os índios anões seriam os Caunás, os com rabos os Uginas. Ao lado de tal etnografia fantástica havia também uma geografia marcada por hipóteses: supunha-se que o Purús, famoso pela sua riqueza (salsaparilha, cacao, tartarugas, óleo, peixes), tinha as suas fontes nas alturas da cidade de Cuzco. Este vínculo com Cuzco também era suposto no caso do Juruá, pois admitia-se que teria sido esse o rio da viagem de Pedro de Orsua e Lopo de Aguirre, provenientes do Peru.

Na região dos cursos superiores do Juruá e do Purus, de acordo com as fontes conhecidas, não houve nenhuma missão no periodo colonial. Spix e Martius mencionam, no início do século XIX, que não seria possível pensar em catequização de índios nesse território. É porém difícil afirmar com segurança se esses povos tiveram ou não contactos indiretos com as missões, sobretudo através de indígenas cristianizados provenientes de outras aldeias no século XVIII, uma vez que essas regiões de difícil acesso serviam como territórios de refúgio. A história missionária não pode seguir, no caso, fronteiras nacionais estabelecidas posteriormente. Os jesuítas desenvolveram intenso trabalho missionário no Equador ao redor de 1700. Também as missões espanholas peruanas estavam particularmente ativas nessa época. Para essas aldeias eram levados também indígenas do Brasil, inclusive índios já cristianizados. Mencione-se aqui o povo Marahua, em parte já catequizado e que vivia nos afluentes do Javari e do Juruá.

A artificialidade da divisão política colonial e pós-colonial da região, com penetração por todos os lados, torna difícil toda e qualquer classificação da população indígena segundo perspectivas nacionais. Assim, as tribos regionais, na sua maioria, pertenciam até o início do século XX à Bolívia e, em parte, ao Peru, precisando ser consideradas no contexto histórico desses países, em cuja formação cultural os índios desempenharam um papel muito mais determinante do que no Brasil. Pelas suas características naturais, essa região situava-se porém mais distante dos territórios centrais da Bolívia do que dos restantes territórios de floresta dos afluentes da margem direita do Amazonas, uma vez que há uma continuidade natural entre as partes inferiores e superiores dos rios. A consideração etnológica não pode, portanto, guiar-se pelas divisões nacionais e não pode perder de vista as relações com os indígenas dos países vizinhos da Bolívia e do Peru; ela também não pode considerar as etnias atuais do Acre isoladamente daquelas do Amazonas.

O complexo determinado pelos rios também é de importância fundamental para o estudo dos contactos culturais dos indígenas com a cultura de cunho europeu. Através desses rios, os índios já se encontravam no início do século XIX em contacto com comerciantes de produtos da floresta e que se utilizavam de índios integrados na sociedade brasileira ou de brasileiros de ascendência indígena como auxiliares e intermediários.

Segundo os dados de Spix e Martius, viviam nessa região os Purus-Purus (ou Purupurus) - que teriam dado o nome ao rio -, os Amanatis e os Ita Tapuias; todos seriam temidos pela sua selvageria e o comércio com eles se fazia sob a proteção de armas; a região tão rica em cacau e salsaparilha do Juruá seria habitada pelos Catauixis, Catuquinás, Canamarés e outros povos. Até mesmo esses renomados eruditos mencionam a existência de gente com rabos - os Coatá Tapuias no Juruá - e os anões: os Cananas. Ferdinand Denis, que também cita os Purupurus (Purus-Purus) e os Catauixis, salienta o significado da produção de borracha devido ao incremento da procura européia já no início do século XIX e remonta a origem da obtenção do leite da seringueira aos Omaguas; nessa época, os seringueiros seriam em grande parte indígenas.

Um quadro dos poucos conhecimentos a respeito dessa região e de seus habitantes oferecidos aos leitores interessados da Europa ao redor de 1860 encontra-se no relato de P. Marcoy. Esse viajante compara o estado da época com aquele de 1640 a 1680 e de 1850/51. Ele se baseia em artigo publicado em jornal de Belém (Telégrafo Paraense) de 1829, fundamentado em dados de Noronha e Sampaio (1750-1774). Marcoy reconhece a falta de exatidão dos dados, uma vez que até mesmo o rio Juruá aparece confundido com o Japurá. Para o período de 1640 a 1680, registrou os seguintes grupos indígenas no Juruá: Catahuichis, Cahuanas, Marahuas, Canamahuas, Yumaas, Camaramas, Payabas, Papianas, Ticunas, Nahuas e Culinos; para a região do Purus: Purus-Purus, Muras, Abacaxis, Maués, Sapupés, Comanis, Aytonarias, Acaraiuaras, Brauaras, Curitias, Catahuichis, Uarupas, Muturucus, Catukinos e Sehuacus. O autor menciona que, no ano de 1860, na embocadura do Juruá, viviam ainda famílias do povo Anahua (antes Nahua), no interior Catahuichis e no curso superior do rio Catukinos; para o Purus, registra alguns Muras e muito poucos Purus-Purus no curso inferior, assim como Catahuichis, Catukinos e Sehuacus rio-acima. No seu mapa dos afluentes não explorados do curso superior do Amazonas, Marcoy registra Sehuacus e Canamaris no curso superior do Purus, assim como Catukinos e Canamaris no Tarauaca e no Juruá. Em geral, esse catálogo oferece um quadro da população numericamente mais reduzida da população indígena do lado direito do Amazonas em comparação àquela do lado esquerdo. Demonstra assim, uma redução considerável do número de tribos mencionadas no decorrer do tempo.

Para a mudança da situação étnica nessa região no decorrer do século XIX contribuiram em primeiro lugar os conctactos ocorridos espontaneamente com índios integrados de todo ou em parte (tapuias) com comerciantes, na sua maioria de origem portuguesa, e os empreendimentos oficiais de descimento e aldeamento de grupos que viviam dispersos na floresta. As modificações mais profundas deram-se, porém com a imigração crescente de nordestinos. A procura de mão-de-obra na expansiva extração da borracha acarretou problemas. Talvez por essa razão, já em 1818, o último governador do Rio Negro, Manoel Joaquim do Paço, proibiu viagens pelo Purus. O Govêrno da província do Amazonas salientou numa circular às repartições oficiais, com indignação, que os índios do Juruá, do Purus e de outros rios não eram tratados como homens livres por aqueles que se dedicavam à extração da borracha, sendo às vezes forçados a esse trabalho; tal procedimento criminoso deveria ser severamente punido (Officio Provincial de 16 de julho de 1878). No decorrer da exploração crescente da região, o contacto com índios da área do curso superior do Juruá ocorreu mais tardiamente e de forma mais conflitante do que com aquelas do curso superior do Purus. A resistência indígena contra os invasores no curso superior do Juruá parece ser um indício da força das sociedades indígenas da região, ainda no começo do século XX.

Impressões a respeito das dificuldades que resultavam dos contactos e da convivência dos índios com os imigrados oferecem testemunhos da época da passagem do século. Para a área de divisa com a Bolívia, tem-se um desses retratos no relato de Albert Perl, um viajante e empreendedor alemão que visitou uma aldeia Pacaguara no Chipamanu, um dos formadores do Abunã. Ele salientou que, na época, dominava a idéia de que a tribo dos Guarayos ocupava a região do Madidi até o Madeira, passando pelo Madre de Dios, apresentando traços aparentados com os Caripunas e Pacaguaras. Ele, porém, pode constatar que nessa região ainda viviam vários outros grupos diferentes, de tipo não equivalente ao dos Guarayos. Na Barraca Carmen, deparou-se com um grande número desses últimos índios - cujo nome significaria "guerreiro" - e que teriam sido trazidos à força por uma expedição. Dos homens, apenas poucos sobreviviam e encontravam-se à beira da morte. Os índios caiam em apatia e tristeza, recusavam todo tipo de alimentação e morriam de fome.

Os grupos indígenas nessa região do início do século XX são tratados nos estudos que já podem ser considerados como clássicos de C. Tastevin e P. Rivet, publicados no órgão da sociedade francesa de geografia. Eles podem ser, em geral, ordenados em dois troncos lingúisticos: o Pano, falado por indígenas que vivem sobretudo no curso superior do Juruá, e o Aruak, falado por índios que têm a sua principal área de difusão no curso superior do Purus e afluentes. Na área do Alto Juruá, pode-se mencionar os seguintes grupos: Amahuaka, Aninawa, Kampa, Katukina, Kapanawa, Kasinawa ou Kaxinaua, Kontanaya, Koto, Kulina, Marinawa, Maseuruna, Naw ou Naua, Nukuini, Pakanawa, Poinawa, Remo, Saninawa e Sipinawa. As tribos do Alto Purus e afluentes eram: Contakiro, Imammari ou Imammali, Ipurinã, Kanamari, Kapecene e Maniteri".

Fonte: Antonio Alexandre Bispo, em "Etnologia do Acre: Índios e Imigrantes." Sobre o Alto Purus, leiam no site do CTC: "Alto Purús: Biodiversidad, Conservación y Manejo".

23 de abril de 2008

O Imaginário Andino de Alexei Pino





Apresento aqui algumas das pinturas a óleo de Alexei Farfán Pino que fazem parte da exposição "O Tecido da Terra", na Pizzeria Piola de Rio Branco, Acre, até o fim deste mês. As obras estão à venda por um valor médio de 850 reais, interessados em receber o catálogo completo para negociar, ou queiram adquirir uma destas aqui mostradas, por favor entrem em contato comigo pelo mail alcanave@gmail.com. O artista estará também apresentando em Rio Branco uma palestra com o tema "Restauração e Conservação de Obras de Arte & o Imaginário Andino de Alexei Pino", na próxima segunda-feira dia 28 de abril, às 19 horas, na Usina de Arte João Donato.

Barbatuques, o corpo do som


Barbatuques tocando para Petrona Martinez em seu camarim. Após show de Petrona, durante a Semana Cultural da Universidade Nacional de Colômbia - Bogotá. Outros links:
www.reverbnation.com/barbatuques
www.myspace.com/barbatuques
www.virb.com/barbatuques
www.barbatuques.com.br

22 de abril de 2008

O Dia da Terra


O Dia da Terra foi criado em 22 de abril de 1970 quando o então Senador americano Gaylord Nelson convocou o primeiro protesto nacional contra a poluição. Naquela data, mais de 20 milhões de pessoas nos EUA se engajaram imediatamente para manifestar a sua preocupação com a degradação ambiental. A partir de 1990, o Dia da Terra passou a ser adotado em vários países ao redor do mundo e a sua comemoração vem se tornando um evento internacional. Em 2003, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente do Brasil, publicou o seguinte artigo a respeito:
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Neste ano (2003), o terceiro do milênio no qual depositamos tantas esperanças, comemorar o Dia da Terra exige reflexão e compromisso. O planeta não vive seus melhores dias e nós, a assim chamada "espécie superior", andamos inseguros a respeito de nossa própria capacidade de fazer deste um mundo melhor. O signo é de guerra, unilateralidade na resolução de conflitos, arreganhos do crime organizado, sensação de anomia e de abandono dos valores que costumavam ser nossas balizas, construtores de sentido existencial e códigos para ajudar a decifrar a essência da condição humana. Nesse clima, falar de paz virou coisa séria. Não basta a estética, nem mesmo a ética, ou a inocência, ou o devaneio. É preciso militância. E não só a das ruas, circunstanciais e emotivas. Agora é também questão de escolha racional, com as conseqüências que isso envolve. É preciso que a paz seja uma opção política.

Ainda temos nos olhos as cenas terríveis do Iraque, pessoas sendo despedaçadas pela morte ou mutilação física e psicológica, pela destruição de suas referências. Mas, na contabilidade da guerra, são apenas danos colaterais, assim como o cerceamento da liberdade de imprensa e a perda de bens do patrimônio histórico da humanidade. Mesmo aqui, a salvo deste horror, sentados no sofá diante da TV, somos atingidos pela perda de valores, sentimos que nossa vida também ficou pior. E sabemos que temos que fazer alguma coisa. Não lá no Iraque. Aqui. Dentro da nossa casa, na nossa vizinhança, na nossa cidade, no nosso país. No Dia da Terra, ou pensamos nisso tudo ou será uma data lamentavelmente vazia. Ela pode ser um símbolo forte do que parece estar-se perdendo: os valores humanos, espirituais e os naturais, entendidos, esses últimos, como aqueles que remetem à ligação essencial de cada um com o habitat planetário, obscurecida pela aparente auto-suficiência da tecnologia e dos "poderes" humanos.

Há certo consenso a respeito da proteção ambiental. Todos são a favor, mas, boa parte, só se for no "meio ambiente" alheio. Quer-se o bem da floresta amazônica, já as obrigações ambientais da empresa... Salvem-se as tartarugas e baleias, já reduzir o próprio lixo...Combata-se a poluição, mas não o uso intensivo do carro particular. As unanimidades em prol da paz, do meio ambiente, do combate à pobreza, às vezes esquecem que é preciso construir na prática a solução para aquilo que incomoda a consciência. E que a construção começa no indivíduo e no que ele está disposto a fazer - ou a deixar de fazer - para a vida melhorar. Esta sim é uma questão de atitude. Continuamos a produzir desastres ambientais e humanos. Eles lembram que ainda estamos na barbárie. A civilização de fato avançada ainda está a caminho e é tarefa para muitas gerações. Agride-se a Terra porque ela é vista apenas como fonte e suporte de bens para o mercado; destroem-se pessoas porque são vistas apenas como consumidoras e contingentes geopolíticos. Não sem razão o petróleo é um personagem tão destacado nas guerras presentes e passadas no Oriente Médio.

Também não sem razão as causas ambientais cada vez mais se confundem com seu espelho social e ético. Hoje procuramos soluções socioambientais, não só ambientais. Falamos em justiça ambiental como parte intrínseca da justiça social. A qualidade de vida é direito humano, assim como a saúde, a educação, a habitação. E acumulam-se evidências de que a atividade econômica não precisa ser predadora. É desejável, viável e factível o caminho do desenvolvimento sustentável. Nada foi e nada será fácil na trajetória dessas idéias, mas elas se impuseram como alternativa e conquistaram adesões - ou, no mínimo, provocaram constrangimentos - em todos os segmentos da sociedade. Mexeram naquele recanto da mente e das emoções no qual está intacta a necessidade de ideais comuns e a crença de que um mundo melhor e sustentável é possível. Nós procriamos e criamos; é inevitável ter amor pelo futuro e compaixão pelo presente. O Dia da Terra exige uma atitude.

Fonte: Ambiente Brasil . Pintura da Série "Lendas Amazônicas" do artista acreano Marco Lenísio

21 de abril de 2008

A Bela ManYoca


A lenda da Primeira Água, da mitologia da tribo Maué, nos diz que, a planta da mandioca teria sido formada pelo corpo de Iveroi, mulher do sapo Ó-Óc. Ao vê-la morta pelas artes mágicas dos feiticeiros Muricariua, seus tios a transformaram em mandioca doce.

A tapioca, segundo a lenda Maué, teria sido feita, ainda pelos tios de Iveroi, do feto que ela guardava nas entranhas.

Nas histórias contadas pelos mais velhos da tribo Pariqui, encontramos a lenda intitulada Moytima Uipurangaua (Origem da Plantação), que fala do nascimento de todas as plantas, principalmente da mandioca.

Elas teriam se originado dos ossos do mais belo espécime humano daquela tribo chamado Yacurutu.

Já entre os Mura, a mandioca proviria do corpo da irmã de Yacurutu, chamada Jati, que morrera revoltada contra a Tartaruga, a serviço de uma terrível Piaga, que a afogou.

Entre os Kêterêkô, povo Pareci, a mandioca surgiu do corpo da formosíssima jovem Atiôlo, em cujos longos cabelos o Uiarapuru vinha aninhar-se para passar a noite e, antes do primeiro albor da alva, acordar a natureza com a sinfonia de seu canto.

Como tudo passa sobre a terra, Atiôlo ou Mani um dia morreu e de seus restos mortais surgiu a mandioca. Já o povo Ipurinã atribuiu a uma criança o nascimento da planta.

O povo Ipurinã atribuiu a uma criança o nascimento da planta. Aliás, é a mais bonita delas todas. A filha do cacique Cauré, de nome Saíra, era a mais bela das Ipurinãtiba. Os pássaros vinham acordá-la ao amanhecer e as flores curvavam-se à sua passagem; os espinhos evitavam-na.

Um dia, porém, ela engravidou sem ter sido dada em casamento a nenhum guerreiro.

O desgosto de Cauré foi imenso! Chamou a filha Saíra e questionou-a sobre o pai da criança. Saíra emudeceu. A decisão de Cauré foi inexorável. Ela seria banida da tribo e viveria confinada em uma oca no centro da mata, de onde só sairia após a delivrance e da morte do fruto proibido.

Quando a lei imutável da natureza completou o seu ciclo, nasceu uma menina. Pele alva, olhos azuis como o mais profundo céu, cabelos louros como espigas de trigo sazonadas, causaram deslumbramento em Saíra e Cauré. Este último, ao ver a beleza da neta, esqueceu a vontade de matá-la e caiu de amores pela menina.

Cauré, Saíra e Mani (este foi o nome dado a menina) regressaram para a tribo e daí por diante o velho cacique ficava horas esquecidas em êxtase, contemplando a radiosa beleza de Mani.

Passaram-se quatro épocas das chuvas e Mani ficava cada vez mais esplendorosa.em sua formosura.

U’a manhã de sol radioso, mas silenciosa, Mani expirou, ante o desespero impotente de Cauré.Era costume da tribo Ipurinã cremar seus mortos. Cauré quebrou a tradição e enterrou Mani na entrada de sua oca.

Passaram-se quatro luas e da terra em que Mani foi enterrada nasceu uma planta que, depois de um certo tempo, desnudou-se das folhas. Cauré julgava que as folhas fossem eternas e ficou triste pois a planta havia morrido. Resolvendo arrancá-la, ao fazê-lo, viu surgir, à guisa de raízes, grandes tubérculos radiculares. Curioso, resolveu morde-la e, ao mastigá-la, achou-a deliciosa.


Conheça o artigo completo na revista Nosso Pará. Pintura da Série "Lendas Amazônicas" do artista acreano Marco Lenísio.

Lembranças do Jordão




Comemorando hoje o primeiro aniversário deste blog, versos de "Assim Falou Zaratustra", de Nietzsche, citado pelo sábio Rubem Alves em seu "Gestação do Futuro", agradecendo a todos os leitores reunidos nessa nossa roda e nessa rede de união dos povos:

"Acordem e ouçam,
vós que sois sozinhos!
Do futuro vêm ventos de secretas asas;
e as boas novas são ditas a ouvidos delicados.
Vós que hoje sois sozinhos,
vós que estais vos retirando,
vós um dia sereis o povo.
Verdadeiramente, a Terra ainda será um sítio de redenção.
E mesmo agora uma nova fragrância a envolve,
trazendo salvação... e uma nova esperança."

20 de abril de 2008

Ação Pankararu

"Com a borracha da negligência e da corrupção, apagam do papel nossos direitos Constitucionais. Mas, com o lápis da sabedoria e da esperança escrevemos nossa história cada vez mais forte, com a cultura, crença, dignidade e tradição. Isso, pode ter certeza que nunca apagarão!"

Edcarlos (Carlinhos Pankararu)
edpankararu@yahoo.com.br

18 de abril de 2008

Semana do Índio no Acre



17 de abril de 2008

Entrevista com Shanê Kaxinawá

Shanê Inu Bake Hunikuin, nos documentos brasileiros registrado como Gustavo Mateus, é um jovem hunikuin que quer estudar em Rio Branco, capital do Acre. Hoje entre uma colherada e outra de chilcano do restaurante peruano da cidade, quis entrevistá-lo:
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Qual o nome da aldeia em que mora sua família?
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- Aldeia São Joaquim no registro da Funai, mas que a gente chama Maloca Hunikuin. Fica a duas horas de subida do rio Jordão a partir da sede do município de Jordão. Lá vive meu pai, Agustinho Manduca Muru, minha mãe Dani ou Mazinilda Sena, e meus irmãos Siã, Isaká, Busam, Itzairú e Aiane.
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Como foi a decisão de você vir pra Rio Branco?
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- A primeira vez eu planejei com meus outros irmãos, porque meu pai tem muitos amigos aqui e já viajou por vários lugares. Aí precisamos ter um lugar pra vender nosso artesanato, e conversei com o prefeito do município que organizou pra nós chegar em Tarauacá, e de lá o governo ajudou a vir pra Rio Branco de avião. Fiquei seis meses e meu pai e meus irmãos viajaram pra São Paulo e Rio de Janeiro pra vender artesanato. Aí na volta fiquei cinco meses na casa da amiga Marinete estudando computação. Isso foi em 2007. Agora estamos vendo de colocar a nossa própria loja, porque fui escolhido pela Federação Hunikuin para negociar com os produtos da nossa cultura.
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Você se adaptou fácil à vida da cidade? Sente falta da vida na aldeia?
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- Aqui em Rio Branco a principal dificuldade é que tudo a gente tem que ter dinheiro. Já fui no Rio de Janeiro, fiquei uns vinte dias na casa do meu primo Banê que mora lá, achei legal, gostei de conhecer o mar, já logo que cheguei fui lá ver a praia, mesmo de noite. Aqui o que acho falta da aldeia é nadar no rio, caminhar na mata, as festas da nossa cultura, mas aqui tem mais condições de estudar então eu me esforço pra ficar.
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Como está o movimento do artesanato do Jordão?
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- Aqui estamos organizando. Primeiro quem trouxe foi o Siã (Osair Sales), depois ficou parado, nem o couro vegetal que foi um bom negócio a gente tá produzindo mais. Precisamos de novos projetos, eu mesmo estou com um grupo de quinhentos jovens pra produção do artesanato, e minha irmã Aiane foi indicada pela comunidade pra organizar os grupos de mulheres também. Então agora aqui em Rio Branco temos bolsas, faixas, tapetes, cestos, pulseiras, colares, e lá no Jordão os jovens estão produzindo flexas, bordunas, flautas e maracás. Queremos colocar na internet um catálogo dos nossos desenhos chamados kenê e das cores que tingimos a linha com pigmentos naturais, pra poder receber encomendas de peças pra decoração de casas também, como cortinas, toalhas de mesa, capas de almofada e colchas de cama, do tamanho e nas cores que o cliente quiser comprar.
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E o kambô, você aplica também?
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- Kampum, que a gente chama, eu aplico também. Na época das chuvas aqui o kampum canta e aí a gente acha ele fácil pra tirar o "shuku", daí a gente deixa secar nas varinhas e daí pode guardar uns seis meses, servindo pra várias aplicações. Aqui em Rio Branco as próprias pessoas procuram a gente pra receber o kampum.
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Como você vê o movimento indígena aqui no Acre?
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- Tem muitos jovens estudando aqui em Rio Branco, jaminawás, manchineris, apurinãs, dentre outros. Eu não sei como eles passam porque o apoio do governo é fraco, e pra sobreviver tem alguns que eu vejo tirando coisas do lixo, o que é muito triste pensando em como nas aldeias a gente tem de tudo. Tem ongs como a CPI que dão curso pra formação de professor, de enfermeiro... Eu fiz curso no Sebrae também pra trabalhar produtos, formar empresa, e agora estudo música na Usina de Arte com o professor Roberto, e está sendo bom..

Você tem vinte anos de idade, como você espera que seja o seu futuro e o dos seus parentes hunikuins?

- Vejo que agora a gente tá melhorando, antes teve massacre e perseguição quando os brancos chegaram, mas graças aos meus parentes como Suero, meu pai Muru, Getúlio e Siã, agora temos nossa terra, tem trinta aldeias só no Jordão (Alto Jordão, Baixo Jordão e Seringal Independência) e cada aldeia está fazendo sua cupixaua, trabalhamos pelo resgate da nossa cultura. Meu pai mesmo é representante da pajelança das três terras indígenas do Jordão, estamos trabalhando com o pessoal de lá fazendo curas e ensinando nossas histórias para as crianças de lá, e quero que nosso trabalho de comercialização do artesanato permita a gente ficar mais unido dos outros kaxinawás, como os do Envira, do Humaitá, do Purus, e também os que estão no Peru.

Para ver fotos do Katxátirim, clique aqui. Contatos com Shanê pelo e-mail: shanehunikui@gmail.com

15 de abril de 2008

Alexei Pino em Rio Branco

Contatos com o artista: intipunchao@gmail.com

13 de abril de 2008

Canções dos espíritos


Documentário work-in-progress sobre curação e folclore amazônico. O famoso Etnobotanista James Duke participa desta produção da JAMM - "Jungle Alliance for Medicine and Music", ong peruana.

Fonte: JAMM

Lula e as nações indígenas brasileiras

Na foto, ao microfone, vemos Lula discursando no Congresso dos Povos da Floresta. Sentados, da esquerda para a direita, estão Maurício Waldman (Comitê de Apoio aos Povos da Floresta de São Paulo), Avelino Ganzer (Departamento Rural da CUT), Osmarino Amâncio (Conselho Nacional dos Seringueiros) e à direita de Lula, Marcos Terena (União das Nações Indígenas).

Em entrevista na Holanda semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou a idéia de haver nações indígenas em território nacional, referindo-se à terra indígena Raposa Serra do Sol:

- Nós queremos resolver os problemas dos índios, resolver o problema de Roraima e resolver o problema de terra, no Brasil, pacificamente. Não. Não tem nação indígena. Dentro do território nacional nós iremos demarcar as terras indígenas, iremos cuidar, mas a soberania do território é do Estado brasileiro.

A respeito, vale a pena lembrar aqui a íntegra da declaração final do III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia , realizado de 28 a 30 de novembro de 2007, em Porto Velho, Rondônia:

Nós lideranças, representando os diversos povos e organizações indígenas dos 9 estados da Amazônia Legal, acompanhados por lideranças de outras regiões do país e de países amazônicos, por representantes de entidades indigenistas e socioambientais, do Ministério Público Federal e de outras instituições solidárias com as nossas lutas, convocados por a nossa instância máxima de articulação, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), para participar do III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia, realizado em Porto Velho, Rondônia, de 28 a 30 de novembro de 2007, preocupados com o quadro de desrespeito aos nossos direitos sob o olhar omisso, a conivência e o descaso do Governo Lula, vimos de público manifestar.

O Governo Brasileiro, contrário às promessas manifestadas pelo Presidente Lula, por ocasião da instalação da Comissão Nacional de Política Indigenísta (CNPI), em abril de 2007, no sentido de corrigir as falhas de seu primeiro mandato, visando atender as demandas dos povos indígenas, tem se voltado claramente a atender os interesses de setores econômicos e políticos poderosos que compõem a sua base de sustentação.

Dentre os feitos que caracterizam essa opção citamos:

1. A determinação do Governo Lula de implantar empreendimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como hidrelétricas (nos Rios Xingu, Madeira, Machado, entre outros), rodovias e hidrovias, sem se importar com os impactos que poderão ter sobre o meio ambiente, a diversidade sócio-cultural e a biodiversidade, preservada até hoje pelos povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos e quilombolas. O favorecimento do grande capital, do latifúndio, da agroindústria, das empreiteiras e de outros setores econômicos e financeiros, configura-se como uma re-colonização dos nossos territórios, ameaçando gravemente a nossa integridade física e cultural, a continuidade dos nossos povos. Territórios Indígenas serão alagados, e povos voluntariamente isolados nas regiões do Rio Xingu e do Rio Madeira serão impactados pelos complexos hidrelétricos previstos pelo Governo, configurando um projeto claramente ecocida, etnocida e genocida irreversível. Os nossos territórios e as florestas conservadas em pé por nossos povos constituem hoje barreiras contra o desmatamento e a degradação ambiental, além de contribuírem significamente para conter o aquecimento global, as mudanças climáticas, que hoje ameaçam a vida da humanidade e do planeta. Dessa forma constituem um componente imprescindível de qualquer estratégia global de conservação e uso sustentável da Amazônia, mas o governo cegado por uma visão economicista ignora essa nossa vital contribuição. Em função disso repudiamos a exclusão dos nosso povos da discussão do modelo de desenvolvimento que ser quer para a Amazônia e rechazamos a intenção de nos caracterizar como empecilhos ao desenvolvimento. Os povos indígenas não são contra o desenvolvimento mas interessa saber qual tipo de desenvolvimento, isto é, se favorecerá às massas empobrecidas e excluídas, com suas diferenças e especificidades socioculturais. Por isso enfatizamos: desenvolvimento sim, mas a qualquer custo não!

2. Contrariando acordo consensuado com os representantes do Governo na Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), segundo o qual o tema da mineração em terras indígenas seria discutido como parte do Estatuto dos Povos Indígenas, a sua base de sustentação no Congresso Nacional instalou uma Comissão Especial, na Câmara dos Deputados, para discutir o projeto de lei (PL) 1610/96, do senador Romero Jucá, que trata da matéria. No mesmo sentido o senador Augusto Botelo apresentou no Senado PL para discutir a mineração nas terras indígenas.

O Encaminhamento em ambas as cassas não só desrespeita a decisão de uma instância instituída por decreto presidencial, após intensa pressão do movimento indígena, mas sobretudo burla uma reivindicação pleiteada há mais de 14 anos pelos povos indígenas do país, e ratificada pelo Acampamento Terra Livre, no Abril Indígena de 2007, mobilização indígena nacional, representativa dos povos indígenas de todas as regiões do país. Frustra mais uma vez a expectativa depositada no Governo Lula, que tentou reafirmar, em 19 de abril de 2007, os compromissos de campanha não cumpridos no seu primeiro mandato e que seriam viabilizados no atual.

3. Da mesma forma, o Governo Lula publicou a Portaria 2656, de 17 de outubro, que regulamenta o atendimento à saúde indígena, envolvendo o repasse de recursos às prefeituras municipais, sem antes ter havido uma ampla consulta aos povos e organizações indígenas, nem mesmo aos membros da Comissão Nacional de Política Indigenísta. Em quanto isso, o drama da saúde indígena continúa, com o alastramento de doenças como a malária, hepatite, parasitoses, desnutrição e mortalidade infantil.

4. O Governo mobiliza com muita agilidade o judiciário e a polícia federal quando por descontentamento os nossos povos e organizações decidem ocupar prédios governamentais, mas isso não acontece quando se trata de desintrusar os nossos territórios, como a Raposa Serra do Sol, em Roraima, e Maraiwatsedé, em Mato Grosso, livrando-nos assim da usurpação, das ameaças e violências praticadas pelos invasores: madeireiros, fazendeiros, garimpeiros, traficantes, pescadores ilegais e biopiratas, entre outros.

5. Por defender o seu território, lideranças nossas são presas arbitrariamente e algumas assassinadas. Só no ano de 2007, até o mês de novembro, foram assassinados 61 parentes nossos, 38 somente no estado de Mato Grosso do Sul. No entanto, o poder público, a justiça brasileira não mostra interesse algum em apurar, julgar e condenar os responsáveis.

6. O Governo brasileiro é o primeiro a descumprir as leis que garantem aos nossos povos indígenas o tratamento diferenciado, tanto a Constituição Federal como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Convenção sobre a Eliminação e Combate a Discriminação Racial, instrumentos já incorporados à legislação nacional.

Diante destes fatos exigimos do Governo Lula coerência e vontade política para se voltar aos distintos segmentos que o elegeram, não perdendo a oportunidade de passar para história como o presidente dos pobres, dos índios, negros, sem terra e demais setores excluídos pelas elites deste país.

Reafirmamos a nossa determinação de continuar lutando, para que sejam respeitados efetivamente os nossos direitos, mediante a execução do plano de lutas definido por este III Fórum Permanente dos Povos Indígenas da Amazônia, que inclui entre outras, a reivindicação de que o Governo não tome quaisquer medidas administrativas, jurídicas e políticas que nos afete sem antes garantir o nosso direito ao consentimento livre, prévio e informado, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Declaração da Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas.

Porto Velho-Rondônia, 30 de novembro de 2007.

Fonte: Araceli Lemos , Maurício Waldman e O Globo.